O caso da Kesha é um exemplo da dificuldade das vítimas de abuso sexual em denunciar seus agressores

Na sexta-feira, 19, Kesha chorou no Supremo Tribunal de Nova York, após a juíza Shirley Kornreich determinar que ela deve continuar com seu contrato de seis discos com o produtor Dr. Luke, a quem ela acusa de abusos mentais, físicos e sexuais. “Você está pedindo à corte para dizimar um contrato que foi amplamente negociado e típico para a indústria”, teria dito a magistrada para o advogado da cantora, Mark Geragos, segundo o Hollywood Reporter.

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Segundo fontes do Daily Beast, os abusos de Dr. Luke (ou Lukasz Gottwald, seu nome verdadeiro) começaram há 10 anos. Ele teria drogado e estuprado a artista em uma festa e a violência teria continuado nos anos seguintes. Em 2014, ela deu entrada em uma clínica de reabilitação para tratar distúrbios alimentares, os quais seriam resultado das constantes agressões do produtor.

Por isso, em outubro do mesmo ano, ela entrou com um processo contra ele por abusos físicos e psicológicos. “Eu sei que não consigo trabalhar com Dr. Luke. Fisicamente, eu não consigo. Não me sinto segura de forma alguma”, confessou a cantora, cujo último álbum, “Warrior”, foi lançado em 2012, e desde então se vê impedida de lançar novas músicas em outras gravadoras por conta de seu contrato com a Kemosabe Records, empresa de Lukasz Gottwald, que faz parte da Sony Music.

Portanto, a decisão da juíza em manter Kesha sob contrato com o produtor, embora não seja definitiva ainda, deixa um mau gosto na boca e nos faz pensar: se a justiça falha em proteger uma celebridade, por que uma mulher comum deveria se sentir segura?

Infelizmente, o caso da americana soma-se aos diversos casos de mulheres que sofreram violência sexual, com a diferença de que ela decidiu falar sobre o que lhe aconteceu. Não é raro as vítimas ficarem caladas sobre as agressões. No Brasil, por exemplo, apenas 10% dos casos de estupro são notificados, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Os motivos para o silêncio variam: muitas vezes as vítimas acreditam que foram responsáveis pelo que aconteceu ou até não entendem que aquilo foi uma violência. Há, também, o fato de revisitar as doloridas lembranças, que para muitas pode ser algo avassalador.

“Infelizmente, a vítima não tem voz”, contou a nadadora Joanna Maranhão, que revelou os abusos de seu técnico em 2008. “Calar, então, parece ser o caminho para essas pessoas. Mas verbalizar isso [a violência] é uma libertação que, ao mesmo tempo, faz você reviver tudo o que aconteceu. Eu sentia muito ódio quando resolvi falar. É uma coisa pesada.”

Em outros tantos casos, porém, a própria vítima é desacreditada pelas autoridades e pelas pessoas próximas a ela. Outras vezes, é pedido a ela que não denuncie o estupro para não “destruir” a imagem daquela pessoa por “um erro” que não irá mais acontecer. Em outras, a própria vítima acredita que ninguém acreditará nela quando o agressor é um homem poderoso. Um exemplo disso são as dezenas de mulheres supostamente abusadas pelo comediante Bill Cosby. Foi necessário que 46 mulheres se reunissem para que pudéssemos acreditar em suas histórias.

E os casos de Kesha, Joanna Maranhão e as mulheres que acusam Bill Cosby de estupro têm em comum o fato de que os agressores dificilmente são punidos. A cantora americana, por enquanto, é obrigada a continuar a trabalhar com o homem a quem acusa de tê-la estuprado. Joanna Maranhão ganhou uma lei com seu nome, que alterou as regras de prescrição dos crimes de pedofilia, estupro e atentado ao pudor contra adolescentes e crianças. Ainda assim, Eugênio Miranda nunca foi preso. Bill Cosby permanece em liberdade. Um relatório de uma organização contra o estupro, abusos sexuais e pedofilia nos Estados Unidos afirma que apenas 2% dos estupradores são presos.

Ou seja, levantar sua voz é um ato de coragem contra um sistema que não quer e não vai acreditar em você. “Eu fiz isso porque a verdade estava comendo a minha alma e me matando por dentro. Isto não é só por mim. Isto é por cada mulher, cada ser humano que já tenha sido abusado. Sexualmente. Emocionalmente. Mentalmente. Eu tive que dizer a verdade”, escreveu Kesha em seu Instagram um dia antes do julgamento do dia 19.

E embora a cantora não tenha o apoio da justiça, ao menos o público está com ela. Desde sexta-feira passada, há uma petição online que pede um boicote à Sony, e as hashtags #FreeKesha e #SonySupportsRape (“A Sony Apoia o Estupro”) estão entre os assuntos mais comentados do Twitter. Vários artistas também demonstraram apoio a ela. Taylor Swift, doou o equivalente a 1 milhão de reais à cantora, e vários artistas têm demonstrado apoio através das redes sociais.

A luta de Kesha é muito maior do que a música. É uma luta para ser reconhecida como ser humano.

Tweet: “Isso só vai fazer você mais forte, corajosa e linda, garota. Minhas orações estão com você.”

Tweet: “Há pessoas no mundo todo que amam você, Kesha. E eu posso dizer, de verdade, que estou contente com sua coragem.”

Tweet: “Tento não dizer nada quando não tenho algo bom para dizer sobre uma pessoa. Então, esta sou eu não falando nada sobre Dr. Luke.”

Tweet: “Meu coração está com a Kesha.”

Tweet: “Não consigo parar de pensar na Kesha. Com 100% de certeza há uma luz no final desse túnel escuro e vergonhoso. Siga em frente.”

Tweet: “Sony Musica, foda-se seu ‘investimento’, você está lidando com um ser humano. Deixe-a ir.”

https://twitter.com/lilyallen/status/700744394371166209

Tweet: “Meus pensamentos estão com a Kesha hoje. Sinto muito que você precise aguentar essa experiência.”

https://twitter.com/lorde/status/700792372385308672

Tweet: “Estou com a Kesha durante essa época traumática e profundamente injusta. Enviem boas vibrações para ela, pessoal.”

Tweet: “Estou com nojo de pessoas em posição de poder abusando de suas autoridades. Meu coração está partido pela Kesha e todas as pessoas afetadas por essa toxicidade. Foda.”

Tweet: “Eu nem sei o que eu faria… Espero que ela encontre paz e encontre uma forma de continuar a se expressão sem medo.”

https://twitter.com/jackantonoff/status/700808778615169025

Tweet: “Libertem a Kesha.”

https://twitter.com/IGGYAZALEA/status/700831903931244544

Tweet: “Se duas pessoas não querem estar em um negócio com a outra, parece cruel segurar uma delas a um contrato.”

https://twitter.com/IGGYAZALEA/status/700832719509389312

Tweet: “Não estou acusando ninguém de nada, mas acredito que a Kesha mereça a possibilidade de seguir em frente, criar e fazer seu dinheiro.”

Tweet: “Estou desapontada por ouvir o caso da Kesha. Ninguém deveria ter sua liberdade negada de seu abusador, nem negada de sua criatividade.”

Tweet: “O que a Kesha está passando é um exemplo da lei magoando vítimas de abuso. Eu não consigo imaginar o quão triste ela esteja agora. É muito triste.”

Tweet: “Acho que algumas pessoas pensam que a indústria musical é uma bolha mágica onde tudo funciona. Não é aceitável usar sua posição para caçar garotas.”

Foto: Robin Marchant/Getty Images

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