Billie Eilish e o que podemos aprender sobre body shaming

Nesta semana, Billie Eilish foi fotografada por paparazzi enquanto caminhava por Los Angeles. Seria mais um dia comum na vida da cantora, mas por não estar usando as roupas largas pelas quais ficou conhecida, as imagens ganharam a internet – e algumas pessoas sentiram que podiam tecer comentários maldosos sobre a aparência da jovem de 18 anos.

Enquanto fãs elogiaram a voz de “bad guy” no Twitter, outros preferiram dizer que ela parecia ter ganhado “o corpo de uma mãe de 30 anos” nos últimos 10 meses. As respostas às críticas ao corpo de Billie vieram rapidamente e o assunto virou tópico de conversa nas redes sociais.

Eilish, por sua vez, lidou com a questão em seu Instagram, repostando o vídeo da youtuber Chizi Duru em seus Stories, no qual a influenciadora faz o seguinte apelo: vamos normalizar corpos reais.

Não é a primeira vez que a artista lida com comentários sobre o seu corpo. No começo do ano, após postar uma série de fotos e vídeos de uma viagem feita no Havaí, Billie recebeu mensagens grosseiras por um vídeo no qual ela aparece em um biquíni, mas apenas sua cabeça e ombros podem ser vistos – o suficiente para uma boa quantidade de hate ser disparado em sua direção.

“Havia comentários do tipo: ‘eu não gosto mais dela, pois assim que ela fizer 18 anos, ela vai virar uma vagabunda'”, revelou a cantora em uma entrevista para a revista Dazed. “Cara, eu não consigo ganhar. Não consigo”.

E os motivos pelos quais a cantora usa roupas largas vão desde o gosto pessoal até evitar a sexualização da sua imagem e impedir opiniões não solicitadas sobre seu corpo.

“Eu não quero que o mundo saiba tudo sobre mim. É por isso que uso roupas grandes e largas. Ninguém pode ter uma opinião porque eles não podem ver o que tem por baixo”, contou em uma campanha para a marca Calvin Klein. “Ninguém vai ficar falando tipo: ‘Olha, ela é magra, ela não é magra, ela tem pouca bunda, ela tem bunda grande…’ As pessoas não podem falar essas coisas, porque elas não sabem”.

Ao mesmo tempo, ela defende que cada pessoa vista o que quiser, mostre o que quiser mostrar e que todos fiquem bem com seus próprios corpos, sejam mulheres ou homens.

Enquanto sociedade, exigimos que as mulheres tenham uma certa aparência, ainda que seja um ideal inalcançável para a maioria delas.  Assim, o recado transmitido para elas é de que o seu valor estará sempre associado ao corpo, e não aos seus talentos, conquistas e iniciativas. Porém, como Billie Eilish pontuou anteriormente, é impossível ganhar: elas estão sempre magras demais, gordas demais, com plástica demais, com estrias e celulites demais, com maquiagem demais, etc.

E a pressão fica ainda maior quando falamos de celebridades, as quais parecem viver com uma lupa colocada sobre elas, acompanhadas pela mídia e pelo público a cada mudança na figura, que invariavelmente acaba recebendo comentários cruéis. Contudo, os efeitos desses ataques contra a forma física de alguém, chamados de body shaming, são sentidos em mulheres no mundo todo.

O body shaming, uma forma de agressão que visa fazer alguém ter vergonha do próprio corpo, tem nas redes sociais um solo fértil e nas mulheres o alvo preferido. Segundo uma pesquisa feita pela ONG Plan International, 77% das brasileiras relataram ter sofrido uma forma de assédio online. E mundialmente, 54% das 14 mil adolescentes e jovens mulheres entrevistadas disseram ter vivenciado body shaming nas plataformas digitais.

Esse foi o mesmo abuso que a atriz Cléo Pires teve de lidar no ano passado, quando surgiu com quilos a mais. A brasileira contou que foi dolorido receber tantos comentários negativos e o quanto eles tiveram impacto em suas emoções. Segundo profissionais da saúde mental, o body shaming pode levar mulheres a desenvolver “depressão, ansiedade, distorção de autoimagem e reforçar os transtornos alimentares. Não só a compulsão alimentar, como também uma bulimia ou anorexia em casos mais graves”, de acordo com a psicóloga Ellen Moraes Senra, que conversou com a Máxima Digital.

É por isso que é preciso e fundamental falarmos sobre o assunto e fazer um movimento para combater o body shaming, em vez de ignorarmos o problema. O cara que escreveu que Billie Eilish tem “o corpo de uma mãe de 30 anos” poderia não ter recebido a atenção que levou, mas é importante que o barulho gerado faça com que as pessoas, principalmente as fãs da cantora, boa parte delas jovens meninas, saibam que não há nada de errado com corpo da artista ou com os seus próprios corpos, muito menos os corpos de mães e qualquer outra mulher. É preciso garantir que elas tenham a liberdade de existir como quiserem.

No vídeo abaixo, feito pela própria Billie para sua turnê, ela convida a todos para uma reflexão. E espero que as palavras delas cheguem ao maior número de pessoas possível.

Tradução: “você me conhece? Conhece de verdade? Você tem opiniões sobre as minhas opiniões, minha música, as roupas que eu visto, meu corpo. Algumas pessoas odeiam o que eu visto; algumas adoram. Algumas usam isso para envergonhar outras pessoas; algumas usam para me envergonhar. Eu sinto você sempre me observando e nada do que eu faço passa despercebido. Enquanto eu sinto seu olhar de desprezo ou seu suspiro de alívio, se eu vivesse por eles, eu nunca seria capaz de me mexer. Você queria que eu fosse menor? Mais fraca? Doce? Mais alta? Você queria que eu ficasse quieta? Os meus ombros provocam você? Meu peito? Eu sou o meu estômago? Meus quadris? O corpo com o qual eu nasci não é o que você queria? Se eu vestir o que é confortável, eu não sou uma mulher; se eu rasgar as camadas, eu sou uma vagabunda. Embora você nunca tenha visto meu corpo, você ainda me julga. Por quê? Nós tiramos conclusões sobre as pessoas com base no tamanho. Nós decidimos quem elas são e o seu valor. Se eu vestir mais ou vestir menos, quem decide o que isso faz de mim? O que isso significa? O meu valor se baseia somente na sua percepção? Ou a sua percepção sobre mim não é minha responsabilidade”.

*Foto de destaque: Common Creatives.