As diferentes reações dos astros de Hollywood à falta de diversidade do Oscar

  20. janeiro 2016   Cinema   1

Com a falta de indicados negros ao Oscar pelo segundo ano consecutivo, o diretor Spike Lee e a atriz Jada Pinkett Smith anunciaram que boicotariam a premiação, o que levou a presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas a se manifestar através de um comunicado, dizendo que estava “frustrada” com a situação e que tomaria providências.

A questão virou até tema entre políticos. O prefeito de Los Angeles, Eric Garcetti, por exemplo, disse que concorda com as críticas, e acredita que é preciso reconhecer o trabalho daqueles que refletem a diversidade dos Estados Unidos e do mundo. Contudo, ele contou que respeita aqueles que querem boicotar a premiação no dia 28 de fevereiro, mas que a celebração do cinema deve ser feita.

Já Donald Trump, pré-candidato do Partido Republicano à presidência dos Estados Unidos, descreveu a situação como “difícil”, mas não acha que seja diferente da lista de indicados ao BET Awards [prêmio do canal Black Entertainment Television, que premia negros em diversas áreas]. “Os brancos nunca são indicados. Nunca pensei nisso sob essa perspectiva.” Como se fosse necessário mais uma premiação para pessoas brancas.

Fato é que uma conversa urgente sobre diversidade na indústria cinematográfica começou a ser feita. Muitos artistas começaram a compartilhar suas visões sobre o assunto, oferecendo novas perspectivas sobre a exclusão de negros e demais minorias em Hollywood. Eis alguns deles:

David Oyelowo:

David Oyelowo, conhecido por seu papel em “Selma” como Martin Luther King Jr, comentou sobre a falta de diversidade no Oscar deste ano durante o King Legacy Awards. “Perder a oportunidade de celebrar 20 atores negros num ano é uma coisa; isso acontecer de novo é imperdoável”, declarou. “A Academia tem um problema que precisa ser solucionado. […] A instituição não reflete sua presidente [uma mulher negra] e não reflete esse evento. Eu sou um membro da Academia e ela não me reflete, tampouco reflete a nação.”

Mo’Nique:

O Huffington Post lembrou nesta semana de uma entrevista de Mo’Nique de 2010, quando a atriz afirmou que o Oscar é superestimado. Na época, ela levou o prêmio de ‘Melhor Atriz Coadjuvante’ por seu papel como uma mãe abusiva em “Preciosa”. “Eu entendo o motivo pelo qual as pessoas sempre dizem ‘ganhadora do Oscar’, porque é condicionante. E nós acreditamos que aquilo é o começo e o fim de tudo. É o prêmio máximo”, disse a atriz em uma entrevista para uma rádio.

“Para mim, não era o Oscar. Era o Image Award [prêmio feito por/e entregue aos artistas negros], pois quando eu era pequena, quando eu assistia ao Oscar, eu não via pessoas como eu ganhando o prêmio. Então, enquanto nós o desvalorizarmos, ele continuará sendo desvalorizado [o Image Award]. Mas a partir do momento em que nós nos valorizarmos e nossa comunidade, e enquanto nossa gente dizer ‘achamos que você é boa’, eu estou bem.”

Cuba Gooding Jr.:

Cuba Gooding Jr, que levou um Oscar em 1997 por sua atuação em “Jerry Maguire – A Grande Virada”, acredita que toda a discussão acerca do #OscarsSoWhite “fará as pessoas pensarem mais quando as indicações saírem no próximo ano.” “Eu queria que [o Oscar] fosse diverso. Você quer que o trabalho seja mostrado”, ele contou à revista Variety.

O ator acredita que mais diversidade dentro da Academia é uma forma de mudar a forma como as indicações ao prêmio são feitas. “Acho que, quanto mais membros de outras etnias forem colocados lá dentro, as minorias, quanto mais, melhor.”

Ice Cube:

O rapper Ice Cube, que produziu o filme “Straight Outta Compton – A História do NWA”, não ficou chateado pelo longa não ter recebido mais indicações, além de “Melhor Roteiro Original” (vale lembrar: o roteiro foi escrito por Jonathan Herman e Andrea Berloff, duas pessoas brancas). “Eu não estou bravo e não estou surpreso. É o Oscar, eles fazem o que fazem. As pessoas adoraram o filme, elas apoiaram o filme. Ele foi número 1 de bilheteria, mais de US$ 200 milhões no mundo todo, sabe? Não posso ficar bravo.”

“É legal ter reconhecimento, mas o N.W.A. era contra o sistema, então nós estamos acostumados com as pessoas tentarem diminuir o que temos a dizer”, ele contou à apresentadora Wendy Williams. “Estamos acostumados com a indústria nos rebaixando. Somos as ovelhas negras da indústria. Se não fossemos indicados, seria um território familiar.”

George Clooney:

Enquanto a maioria dos artistas negros têm usado seus espaços para falar sobre o racismo institucional de Hollywood, artistas brancos mal tocam no assunto. George Clooney foi um dos poucos atores brancos a falar sobre as indicações ao Oscar deste ano.

“Há 10 anos, a Academia fazia um trabalho melhor. Havia mais afro-americanos indicados. Mas o problema não é quem são os indicados, mas quantas opções há disponíveis no cinema para as minorias, particularmente em filmes de qualidade”, contou o astro à revista Variety. “Os artistas negros têm um ponto de reivindicação justo quando alegam que a indústria não está os representando de forma adequada. Acredito que isso é absolutamente certo.”

Michael Moore:

O diretor Michael Moore vai se juntar ao boicote ao Oscar, ao lado de Spike Lee e Jada Pinkett Smith. “A ideia de que teremos dois anos seguidos em que 40 atores foram indicados, e nenhum deles é negro, é absurdo”, contou o cineasta ao The Wrap.

“Pensei a respeito disso o dia todo, e não tenho planos de comparecer à premiação, assisti-la ou ir a uma festa do Oscar. E eu digo isso como um orgulhoso membro da Academia, como uma pessoa que ainda senta na mesa executiva [de documentário], como uma pessoa que sabe bem que [a presidente do Oscar] Cheryl e Dawn [Hudson, CEO] estão fazendo o melhor para corrigir a situação.”

Whoopi Goldberg:

No programa em que apresenta, o “The View”, Whoopi Goldberg aproveitou para falar sobre as indicações ao Oscar, e discorda do boicote de Spike Lee e Jada Pinkett Smith. Para ela, o problema é outro.

“O problema não é as pessoas indicadas serem muito brancas. Eles [membros da Academia] não estão olhando um filme e dizendo: ‘este é muito branco. Não vou indicar aquele filme de negro.’ Eles não estão pensando assim”, disse a atriz, que já ganhou um Oscar. “O problema é que, as pessoas que podem ajudar a fazer filmes que possuem negros, latinos e mulher e todos eles – esses filmes não chegam a você. Porque há uma ideia de que não há espaço para filmes com negros.”

Whoopi sugeriu ainda que as pessoas boicotem os filmes que não as representem. “Esse é o boicote que você quer. Para mim, nós temos essa conversa todo ano. Isso me deixa nervosa.”

Janet Hubert:

Janet Hubert, a eterna tia Vivian de “Um Maluco no Pedaço”, também discorda do boicote ao Oscar, e gravou um vídeo sobre o assunto, como uma resposta a Jada Pinkett Smith. “Amiga, há tanta merda acontecendo no mundo que vocês todos parecem não reconhecer. As pessoas estão morrendo, nossos meninos estão sendo mortos. As pessoas estão com fome. E você falando sobre alguns atores?”

Janet acredita que pedir a atores e atrizes negros para que boicotem o Oscar pode ser prejudicial às suas carreiras, uma vez que não há tantos papéis disponíveis para eles. “E eu acho irônico que alguém que fez milhões de dólares em cima das mesmas pessoas que você, esteja pedindo para boicotar [o Oscar] só porque não foi indicado, porque não venceu.”

Lupita Nyong’o:

Lupita Nyong’o usou seu Instagram para mostrar sua decepção com as indicações ao Oscar 2016. “Estou desapontada com a falta de inclusão nas indicações ao Oscar deste ano”, escreveu a atriz. “Isso me fez pensar no preconceito inconsciente e quais méritos são valorizados em nossa cultura. O Oscar não deveria ditar os termos da arte na nossa sociedade moderna, mas ser um reflexo diversificado do que nossa arte tem a oferecer hoje.”

Por fim, a ganhadora do Oscar de 2014 afirmou que está ao lado dos colegas que “pedem por mudança na expansão de histórias que são contadas e reconhecimento das pessoas que as contam.”