Ame seu corpo: é o único que você possui

  09. janeiro 2015   Internet   3

Verão nunca foi minha estação do ano preferida. E não é nem muito pelo calor. Em geral, minha família vai para a praia nessa época do ano. E isso significa ficar horas na areia e tomar banho de mar. E ficar sem camisa. Sem camisa na frente de um mundo gente. Meu martírio pessoal.

Sempre fui magro, desde pequeno. E desde pequeno escuto que estou “magro demais”. Ou que estou doente. E isso vinha de todos os lados: da família, dos colegas de escola e amigos. Eu era uma criança como todas as outras. Mas por algum motivo, resolveram que eu tinha um problema. E era a minha magreza. Nesse sentido, meu irmão gêmeo passou pela mesma experiência, ainda que eu tenha internalizado muito mais o discurso.

“Você é um ladrão de alegria”

Veio a adolescência e a coisa só piorou. Os familiares só reforçaram o coro para eu “comer”, afinal, ninguém gostaria de namorar um menino tão magro e que não se alimenta direito, ainda que eu comesse o mesmo tanto que meus irmãos. Não vou dizer que como de tudo, porque seria mentira. Mas não sou tão ruim assim para comer. E os amigos na escola? Não bastasse a sexualidade ser colocada em xeque o tempo todo, ainda tinha o bullying com a minha aparência. Era um tormento sem fim. E eu realmente acreditei no que me diziam.

Me odiava olhar no espelho e perceber que era possível ver minhas costelas. Fotos sem camisa? Não. Ficar sem camisa na frente de pessoas desconhecidas? Nunca. Uma vez fomos à praia em um verão e eu não tirei a camisa nem para ir ao mar. Foi uma luta para tirá-la naquela ocasião, mas o calor levou a melhor. No entanto, o pensamento era o sempre de que aquelas pessoas à minha volta estavam me julgando. Rindo da minha magreza.

Não me leve a mal. Sei bem que pessoas gordas sofrem bem mais do que eu. Principalmente as mulheres. O sonho de muita gente é emagrecer, fruto de uma pressão midiática e social, mas eu sempre quis engordar pelo menos um pouco. Assim eu teria a aprovação das pessoas finalmente. E não é isso o que buscamos a vida toda? Aprovação externa? Mas não deveria ser assim. E a gente pode mudar isso.

“Se você não se ama, como vai conseguir amar outra pessoa?”

Eu comecei a mudar quando, em terapia, a forma como eu me vejo veio à tona. Era difícil falar sobre isso, porque eu sempre tive uma visão muito ruim de mim mesmo.

– Acho que se eu fizer academia vou gostar mais de mim mesmo.

– Artur, se você não gosta de você do jeito que é, não é a academia que vai mudar isso.

As palavras da psicóloga caíram como uma bomba no meu colo. Eu tinha que mudar a forma como eu me via. O que as outras pessoas pensam de mim não pode, e não deve, ser mais importante do que amor que eu tenho por mim mesmo. Não é um exercício fácil quando se tem uma autoestima baixa e um ego que precisa de validação externa para ficar bem. Mas foi ali, na terapia, que eu comecei um exercício de olhar-me de outra maneira e cuidar mais de mim.

E o mais importante: comecei a cercar-me de pessoas positivas, que amam a si mesmas e não veem diferença se você é gordo ou magro. E isso tem sido muito bom para mim. Virei outra pessoa? Ainda não. Minha autoestima ainda é frágil. Mas tenho conseguido à praia sem camisa. Tenho me enxergado de outra forma, e isso eu devo à terapia e às pessoas maravilhosas que cruzaram meu caminho e ajudam-me a enxergar-me de outra forma. Me gosto um pouquinho mais a cada dia.

Esse é meu conselho para você: ame-se. Não importa se você é magro ou gordo. Esse é o único corpo que você tem, então, ou você abraça essa maravilha que você é e deixa os haters para lá, ou vai ficar sempre infeliz. E eu acho que todos nós buscamos a felicidade. Ame-se e cerque-se de pessoas positivas e que te fazem bem. Lembre-se: cada centímetro do seu corpo é perfeito, dos pés à cabeça.


3 thoughts on “Ame seu corpo: é o único que você possui”

  • 1
    Douglas Rosa on 09/01/2015 Responder

    Que texto bacana, nossa! Posso dizer que me identifiquei com os relatos e ao ler, a partir da tua experiência, que tu estás aprendendo a estruturar essa estima por si é tão inspirador! Tenho a plena certeza de que muitas pessoas, assim como eu, irão se identificar com o que escrevestes aqui, porque passam ou passaram pela mesma situação. E isso, infelizmente, não fica só na alternância entre magro/gordo. Isso diz respeito a uma série de fatores que, infelizmente, nos tornamos vítimas. É tão triste a opressão, não é mesmo? Por outras questões, eu, assim como tu, acabei internalizando também essa imagem distorcida de mim, mas trabalho com afinco para desconstruir isso. E estou alcançando resultados, bem próximos dos teus relatos aqui. Parabéns mesmo por levantar questões como as trazidas aqui e trazê-las para uma perspectiva de esperança, de possibilidade. Tenho certeza de que, mais cedo ou mais tarde, estaremos livres desses problemas correspondentes à estima. Até porque, como tu falastes no final do texto: somos perfeitos.
    E, independente das concessões, isso é o que importa!

    Reforço minhas parabenizações (sim, de novo)!

    • 2
      arturfrancischi on 09/01/2015 Responder

      Douglas, muito obrigado pelas palavras. Você não faz ideia como é bom ler que eu consigo contribuir, de uma forma positiva, com quem me acompanha.
      É um trabalho danado reconstruir a imagem que fizemos de nós. Mas é recompensador quando conseguimos pequenas coisas, como ir à praia sem camisa, né? Confesso que fiquei um tempo sem saber se subia aquela foto minha para ilustrar o post no Facebook, mas achei que precisava fazer isso por mim e por todos que sofrem com algo parecido.
      Espero que todos nós consigamos ser a melhor versão de nós mesmos.
      Obrigado pelo carinho e por me acompanhar!

      Forte abraço!

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