A representação feminina asiática teve um ano interessante em 2020

Na série “Hollywood”, Ryan Muphy tenta corrigir um grande erro da indústria cinematográfica, e dá à atriz Anna May Wong um Oscar e o sucesso que ela merecia ter quando viva.

A artista, interpretada no seriado da Netflix por Michelle Krusiec, é creditada como a primeira atriz de cinema de origem asiática dos Estados Unidos, e teve uma carreira, infelizmente, marcada pelo racismo de sua época e por papéis estereotipados. Um dos episódios mais conhecidos na trajetória cinematográfica de Anna May Wong aconteceu em 1935, ao ser recusada como protagonista em “Terra dos Deuses”, um filme sobre fazendeiros chineses. O papel principal foi para a alemã Luise Rainer, a qual teve a aparência alterada a fim de se assemelhar a uma asiática, e acabou ganhando o Oscar de Melhor Atriz pelo trabalho no longa-metragem.

É impossível saber como a carreira de Anna teria sido, caso ela fosse escolhida para “Terra dos Deuses”, mas é inegável que a atriz abriu o caminho para artistas asiáticos – especialmente para as mulheres – no cinema e na televisão. E em 2020, ela provavelmente ficaria feliz em ver tantas produções protagonizadas por mulheres de origem asiática conquistando as telas.

Vale dizer que não é como se o problema da falta de diversidade em Hollywood tivesse terminado. Segundo um relatório do Annenberg Inclusion Initative, da Universidade do Sul da Califórnia (USC), que analisou o gênero e raça dos personagens dos 100 maiores filmes de 2019, somente 7,9% dos atores eram asiáticos. No que diz respeito a gênero, enquanto 36 filmes não tinham um personagem asiático masculino, 55 produções não tinham nenhuma mulher asiática como parte do elenco. Ou seja, ainda há muito a ser feito, o que inclui também quem trabalha atrás das câmeras: apenas 6 dos 112 diretores por trás das 100 maiores obras cinematográficas do último ano eram asiáticos, mas nenhum deles era uma mulher asiática.

Contudo, se o cenário está longe de ser ideal, em 2020 houve um espaço maior para que mulheres asiáticas de diferentes origens, perspectivas e orientações sexuais tivessem oportunidades para contar suas histórias. E aqui vão algumas delas:

“Mulan”

 

Um dos filmes mais caros do ano (estima-se um gasto de US$ 200 milhões), o live-action “Mulan” conta a famosa lenda da heroína chinesa que se disfarça de homem para entrar no exército, substituindo o pai, e luta para defender seu país. É a segunda adaptação da Disney para a história, cuja primeira versão foi uma animação lançada em 1998.

Composto por um elenco majoritariamente asiático, o filme tinha estreia prevista no cinema para março, mas foi adiado para julho, por conta da pandemia do coronavírus, e foi direto para o serviço de streaming da companhia do Mickey Mouse, o Disney+, em setembro nos Estados Unidos, e em dezembro no Brasil.

Embora signifique uma vitória para a representação asiática em muitos sentidos, é válido dizer que “Mulan” tem suas polêmicas. A começar pela protagonista da obra, Liu Yifei, que criticou os protestos do ano passado em Hong Kong, demonstrando seu apoio à polícia. Não só isso, a Disney filmou parte da obra em Xinjiang, província chinesa cujo governo local é acusado de violações dos direitos humanos contra os uigures. Nos créditos finais de “Mulan”, a empresa agradece a órgãos do país pelas gravações no local.

“Eu Nunca…”

Em 2020, a Netflix lançou “Eu Nunca…”, série original da plataforma, criada pela atriz e roteirista Mindy Kaling. A trama gira em torno de Devi Vishwakumar (Maitreyi Ramakrishnan), uma garota doida para ser popular e transar com o garoto dos seus sonhos. Pela descrição, parece ser um seriado adolescente qualquer, mas não caia nessa tão depressa.

Devi é filha de pais indianos, a primeira geração nascida nos Estados Unidos, o que significa que ela tem suas questões com as tradições da família e com a religião, e ainda lida com os problemas comuns da idade. Não só isso, ela ainda tem um trauma a ser superado, o qual a leva a entrar em diversas confusões.

Ao lado de Devi estão as melhores amigas Eleanor (Ramona Young) e Fabiola (Lee Rodriguez), as quais também tem histórias próprias e lidam com questões envolvendo a identidade, família e sexualidade. E mais: nenhuma das três meninas é branca, nem mesmo o principal interesse romântico de Devi, Paxton (Darren Barnet). Ou seja, “Eu Nunca…” não é a série com a qual você está acostumado. E uma segunda temporada já foi encomendada.

“Você Nem Imagina”

Também da Netflix, “Você Nem Imagina” conta a história de Ellie Chu (Leah Lewis), uma adolescente que vive com o pai na pequena e fictícia cidade de Squahamish. Ela é uma das melhores alunas e escreve redações em troca de dinheiro para os colegas da escola, mas é surpreendida por um pedido diferente: Paul (Daniel Diemer) pede a ela que escreva uma carta para Aster Flores (Alexxis Lemire), por quem é apaixonado. E na troca de cartas com a menina, Ellie vai descobrir muito mais sobre si mesma do que jamais imaginou.

“Você Nem Imagina” é um filme doce, ainda que o roteiro seja irregular, e de certa maneira lembra a história de “Para Todos os Garotos Que Já Amei”, porém com um plot LGBT sensível e honesto. O final aberto é de emocionar e deixar teorias sobre o futuro dos personagens. Vale a pena conferir.

“Para Todos os Garotos: P.S. Ainda Amo Você”

Lara Jean (Lana Condor) fez um enorme sucesso na Netflix em 2018, e voltou em 2020 para uma continuação de “Para Todos os Garotos Que Já Amei”. Tudo ia bem entre Lara Jean e Peter Kavinsky (Noah Centineo), os dois tinham o relacionamento dos sonhos de qualquer um, até que… John Ambrose (Jordan Fisher), um dos rapazes para os quais nossa protagonista enviou uma das cartas, resolve respondê-la. A situação mexe com a cabeça e o coração da menina, que se vê em dúvida em relação ao namoro com Peter.

Há 2 anos, a comédia romântica foi a mais assistida do catálogo da Netflix, tornando-se um sucesso de público e de crítica, e ajudou a renascer o gênero cinematográfico (e eu não estou exagerando). Meninas asiáticas enfim tiveram um filme fofo para chamar de seu.

“Dash & Lily”

Essa é a última produção da Netflix que comento aqui. “Dash & Lily” é um seriado feito para o período das festas de Natal, que acompanha a dupla de protagonistas vividos por Austin Abrams e Midori Francis, os quais se conhecem apenas por desafios, pistas e confissões que deixam em um caderno vermelho. Os dois não poderiam ser mais diferentes: enquanto Dash é cínico e pessimista, Lily é criativa e otimista. Mas é o que dizem: os opostos se atraem, né?

Em “Dash  & Lily”, conhecemos um pouco mais sobre algumas tradições japonesas, graças à família da protagonista, que é parte nipônica. E para quem procura uma série leve e que sirva de escape para o ano difícil que tivemos, essa é uma delas. Aproveito a oportunidade para dizer que o irmão da Lily, Langston (Troy  Iwata) é um dos melhores motivos para dar o seu stream para o seriado.

“Awkwafina Is Nora From Queens”

Awkwafina fez um enorme sucesso em tempos recentes com “Podres de Ricos”, “Oito Mulheres e Um Segredo” e, claro, “A Despedida”, filme pelo qual ganhou um Globo de Ouro por sua atuação. Em “Nora from Queens”, ela demonstra mais uma vez por que é um dos maiores nomes da comédia americana atual.

Nora Lin é uma jovem adulta que não sabe o que fazer da vida e conta com a ajuda do pai e da avó (Lori Tan Chinn) nessa sua busca pela independência e descobrir quem é. O seriado da Comedy Central foi muito elogiado e teve quase todos os seus episódios dirigidos por mulheres, inclusive por Natasha Lyonne, conhecida pelos papéis Nicky, de “Orange Is The New Black”, e Nadia, de “Boneca Russa”.

“A Galeria dos Corações Partidos”

Produzido por Selena Gomez, “A Galeria dos Corações Partidos” apresenta Lucy (Geraldine Viswanathan), uma assistente de curadora de um museu em Nova York, a qual sempre fica com algo de recordação de seus relacionamentos. Certa noite, após mais um fora, ela conhece Nick (Dacre Montgomery) por acidente, o qual está tentando construir um hotel/bar, mas sem muitas perspectivas pela falta de grana. É então que Lucy tem a ideia de aproveitar o espaço para fazer uma exposição com objetos doados por pessoas que também tiveram seus “corações partidos”, em troca de ajuda para terminar a construção do espaço.

Uma das comédias românticas que eu mais gostei deste ano, “A Galeria dos Corações Partidos” teria sido lançada nos cinemas, mas por conta da pandemia do coronavírus, teve a estreia adiada e foi direto para os serviços de streaming. A australiana Geraldine Viswanathan, que dá vida a Lucy, carrega o filme nas costas, tamanho seu carisma e dedicação ao projeto.

Para quem ainda não assistiu, vale a pena o play.

“Nomadland”

“Nomadland” ainda não estreou no Brasil, mas já é tido como um dos favoritos ao Oscar de 2021. Segundo a sinopse:

Após o colapso econômico de uma colônia industrial na zona rural de Nevada (EUA), Fern (Frances McDormand) reúne suas coisas em uma van e parte rumo a uma viagem exploratória, fora da sociedade dominante, como uma nômade dos tempos modernos.

O filme é dirigido pela chinesa Chloé Zhao e é o terceiro na carreira da cineasta na função. “Nomadland” levou 5 prêmios no Chicago Film Critics Association, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor. Será que depois de Kathryn Bigelow, uma mulher vai finalmente levar o prêmio de Direção no Oscar?