A morte da criatividade na Era das adaptações em Hollywood

Teria o cinema perdido a criatividade? Essa pergunta parece estranha se pensarmos na quantidade de blockbusters produzidos em Hollywood nos últimos anos. Mas é só olhar atentamente para descobrir que, se por um lado o cinemão norte-americano não perdeu sua inteligência de mercado, por outro ele só tem garantido sucesso graças ao reaproveitamento criativo.

Adaptações de livros nunca estiveram tão em alta. Apesar de todos os “O livro é melhor que o filme” e “Não gostei que eles pularam muita coisa”, basear um filme em um best seller literário é sucesso garantido. Garantido e extrapolado. Nunca foi tão comum dividir a trama de um livro em mais de um filme, como fizeram com os últimos capítulos das series “Harry Potter”, “Crepúsculo” e “Jogos Vorazes”, ou com a adaptação de “O Hobbit”. Alguém duvida que isso é, antes de mais nada, uma decisão comercial? E não adianta justificar que o motivo é “Para colocar tudo de importante do livro no filme”. Conversa fiada!

Cena de "Cidades de Papel"
Cena de “Cidades de Papel”

Fato é que adaptação de livro vende, e por isso quanto mais melhor. A adaptação de “Cinquenta Tons de Cinza” foi um dos filmes mais aguardados da sua temporada. O mesmo aconteceu ano passado, com “A Culpa É das Estrelas”. E logo mais teremos o segundo filme baseado em um livro do mesmo autor, o escritor-sensação John Green. Em suma, não há sucesso literário que escape a Hollywood.

Outra fonte inesgotável (será?) de sucesso comercial são as HQs. Personagens de histórias em quadrinhos, principalmente super-heróis, nunca estiveram tão presentes nas telas. E salvo uma ou outra adaptação de alto nível – como o Batman de Christopher Nolan, ou os X-Men de Bryan Singer (embora esses últimos tendo sofrido ao sair das mãos do diretor) –, o que está por ai é uma enxurrada de filmes vazios, puro entretenimento, e as vezes entretenimento ruim e forçado. (Alô, Vingadores, a carapuça serviu?).

Quer maior exemplo disso do que o “Homem Aranha”, que ganhou uma apressada repaginada, menos de 10 anos depois de uma trilogia bem-sucedida, apesar do final desastroso? O resultado, merecido, foi o flop da segunda versão, que nem vai chegar a virar uma trilogia. Mas não para por aí. A Marvel parece querer cada vez mais unir seus universos e criar spin-offs dos personagens, e a DC Comics segue no mesmo caminho; começando por “Batman vs Superman”, que estreia logo mais, e será uma introdução para uma série de filmes da Liga da Justiça.

Oscar Isaac em "Star Wars: O Despertar da Força"
Oscar Isaac em “Star Wars Episódio VII: O Despertar da Força”

E, se não há mais lugar onde buscar inspiração, por que não usar o próprio cinema? Vivemos a era dos remakes e das sequências desnecessárias. Ok, não vamos incluir na lista o novo “Star Wars” de J.J. Abrams, pela simples razão de que essa serie sim precisa ser salva depois dos recentes episódios iniciais, bastante aquém da trilogia original. Mas reviver “Jurassic Park”, obra-prima do cinema que já teve duas sequências de caráter bastante duvidoso, é no mínimo desnecessário. Mas é também parte da máquina caça-níquel que é o cinema americano. Assim como a reinvenção de “Mad Max” ou “Poltergeist”, ambos em cartaz no Brasil.

Tem funcionado? Apesar dos pesares, sim. Se tem uma coisa que Hollywood sabe é vender bem seu peixe, e as vezes uma boa campanha de marketing, aliada ao total domínio das salas de exibição, inclusive e principalmente fora dos EUA (basta ir a qualquer cinema de shopping center por aqui para perceber isso), é mais relevante na hora de garantir o sucesso de um filme do que a própria qualidade da produção. E para que mexer em time que está ganhando? A tendência é que essa onda de adaptações e reboots siga até se esgotar.

Julgamentos a parte (eu sei, foram muitos), a tendência do cinema norte-americano de roubar ideias ou reciclar suas próprias talvez reflita uma crise criativa, com as séries de TV roubando a cena no quesito inovação e também interesse do público – mesmo quando ainda baseadas em outras mídias, como é o caso de “Game of Thrones” e “The Walking Dead”, por exemplo. Ainda há espaço para a inovação, é claro, e alguns cineastas têm sobrevivido à era de adaptações com ideias novas e que não dependem de background algum. Mas ainda é pouco. Resta saber se teremos de volta, e com força, um cinema vivo e com suas próprias novidades. Um cinema que não seja apenas uma janela para imaginar universos criados por romances, HQs, etc. Um cinema que seja, ele próprio, uma nova ideia. E resta saber também se é isso o que o público espera, ou se está tudo bem, obrigado. Afinal, ninguém disse que não é bom ler um livro antes ou depois de ver o filme baseado nele.

Comments

  1. Patricia Watson Portugal Responder

    Falava hoje mesmo sobre o quanto sinto falta de enredos inéditos de qualidade. Estou de saco cheio desses remakes e reboots vazios! Tenho a sensação de que o cinema está passando por um vácuo criativo (salvo poucas exceções).

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