“A Garota Dinamarquesa” é conservador, apesar do tema

Novo filme do diretor inglês Tom Hooper, “A Garota Dinamarquesa” é a cinebiografia da artista Lili Elbe, que nasceu Einar Wegener. O pintor dinamarquês, casado com a também artista Gerda Wegener, foi uma das primeiras pessoas a se submeterem a uma cirurgia de redesignação sexual. O filme acompanha a trajetória de Einar/Lili desde o princípio de sua auto-identificação como uma mulher até a efetiva mudança física de gênero.

O pintor dinamarquês Einar Wegener / Lili Elbe

Houve bastante polêmica envolvendo a escolha do ator Eddie Redmayne para o papel de Lili Elbe. Por que não uma atriz transgênero? A resposta é simples, apesar de para alguns difícil de engolir:

Estamos falando de um filme comercial hollywoodiano, produto de uma indústria que, acima de tudo, busca arrecadar bilheteria. Com uma temática supostamente “transgressora” por si só, talvez a aposta em um ator consagrado (mesmo que recentemente) seja um porto seguro, uma mínima garantia de sucesso. Não se trata, afinal, de um filme essencialmente motivado pelo discurso político de representatividade. Embora os otimistas possam dizer que sim, existir um filme com esse tema, no cinema mainstream americano, é um pequeno passo em direção a essa representatividade, que de fato é ausente em Hollywood.

O maior problema do filme não é, no entanto, a escolha do elenco. Pelo contrário. Eddie Redmayne prova outra vez ser um ator respeitável, e conduz a personagem de maneira honesta. As críticas à ausência de uma atriz transsexual no papel de forma alguma anulam a competência com a qual Redmayne constrói sua Lili Elbe, impecável. Mas ele não está sozinho; Alicia Vikander está não menos surpreendente no papel de Gerda Wegener, e de certa forma o olhar de Gerda é também o olhar do filme, seu ponto de vista. Fossemos conduzidos pelo olhar da própria Lili, talvez “A Garota Dinamarquesa” fosse uma experiência diferente. Vale a pena imaginar. Mas aparentemente Tom Hooper escolheu um ponto de vista mais próximo do que o grande público pudesse se identificar: esposa do pintor, que assiste de fora e com olhar de certo modo confuso. Um grande acerto, ou um tiro no pé?

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Alicia Vikander e Eddie Redmayne em “A Garota Dinamarquesa”

É preciso levar em conta o meio e as circunstâncias nos quais um filme é pensado e produzido, e qual seu objetivo. Entendido isso, ver um cinema cheio de espectadores para a sessão de um filme sobre uma personagem transsexual se torna positivo.

Tom Hooper acerta ao abordar com delicadeza o tema, mas erra no exagero do drama. O filme tem bons momentos, como a primeira vez em que Einar vai a uma festa vestido de mulher, quase como uma brincadeira, ainda sem o peso da sua real descoberta. Mas um boa primeira meia hora de filme, com belos enquadramentos e ritmo empolgante, se torna depois um dramalhão didático com todos os clichês de uma cinebiografia. Existe uma excessiva preocupação em explicar (ou justificar, até) cada passo da descoberta da sexualidade de Lili, e posteriormente cada etapa do procedimento médico e suas transformações físicas e psicológicas irreparáveis.

Poderia ser diferente. Apesar disso, o ótimo elenco e a fotografia e direção de arte cuidadosas o fazem valer a pena ser visto. Não é nem de longe o melhor que se pode fazer pelo gênero. Espera-se, ao menos, que seja um começo.

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