“45 Anos” é um filme belíssimo e que conversa com todas as gerações

Eu sei que a atriz Charlotte Rampling se constrangeu há poucas semanas ao falar de “racismo contra brancos” ao ser perguntada sobre o boicote ao Oscar, mas se você conseguir abstrair o fato, dê uma chance a “45 Anos”, filme estrelado pela britânica, com o qual concorre à estatueta dourada de ‘Melhor Atriz’ no dia 28 de fevereiro.

Kate e Geoff (Tom Courtenay) estão prestes a comemorar 45 anos de casamento, cuja data será celebrada em uma festa organizada pela esposa num sábado. Contudo, na segunda-feira, o marido recebe uma carta de que o corpo de um antigo amor, Katya, foi encontrado congelado na Suíça. E é a partir daí que o filme se desenrola: acompanhamos a semana do casal enquanto ambos lidam, de maneiras diferentes, com essa inesperada visita do passado.

Se por um lado esse fantasma mexe com a nostalgia de Geoff, que não para de revisitar as memórias da namorada de décadas de atrás; do outro, Kate fica insegura com as lembranças de alguém tão importante na vida de seu marido. Ao mesmo tempo, ela procura saber mais sobre a “rival” que desestabilizou seu casamento de 45 anos, chegando ao ponto de fazer a pergunta que está a corroendo por dentro: Geoff se casaria com Katya caso ela ainda estivesse viva?

É como se, para ela, a vida construída ao lado do esposo por 45 anos, de repente, perdesse a validade. O diretor Andrew Haigh nos faz acompanhar a subjetividade de Kate, enquanto ela vai, ao longo do filme, enfrentando incertezas e perdendo o interesse pela celebração do casamento. Ela não coloca em palavras o que sente, mas também não é preciso, pois os olhares longos e o silêncio traduzem sua angústia em pensar que, talvez, ela não tenha tido a mesma significância para Geoff quanto a antiga namorada.

Não há respostas. Não há como saber o que poderia ter acontecido, mas a dúvida está plantada na mente dela com a vinda desse passado que, embora morto, não foi enterrado (literalmente).

Charlotte Rampling e Tom Courtenay entregam belíssimas performances num longa de ritmo lento, necessário para nos faz refletir, tal qual Kate faz no decorrer da semana de preparações da grande festividade.

É um filme que emociona e não apresenta reviravoltas, afinal, estamos falando de vida real, e nem sempre há conclusões para as situações que se apresentam no decorrer da nossa existência. Mas por se tratar de cinema, ainda podemos imaginar o que acontece após a festa de 45 anos de casamento de Kate e Geoff. A partir daí, fica a cargo do espectador.

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