O que a nova edição da revista Vogue com Zayn Malik e Gigi Hadid erra ao falar sobre gênero fluido

20. julho 2017 Estilo 0
O que a nova edição da revista Vogue com Zayn Malik e Gigi Hadid erra ao falar sobre gênero fluido

Na semana passada, a Vogue americana divulgou a capa de sua edição de agosto, que conta com um dos casais mais bonitos do entretenimento: o cantor Zayn Malik e a modelo Gigi Hadid. Para a revista os dois contam como costumam vestir as roupas um do outro.

“Eu vou ao seu closet o tempo todo, não vou?”, pergunta Gigi no meio da entrevista.

“Sim, mas eu também”, responde Zayn. “Qual foi aquela camiseta que eu peguei emprestada outro dia?”

“Aquela Anna Sui?”

“Sim. Eu gosto dela. E mesmo que ela fique justa em mim, qual o problema? Não importa se ela foi feita para uma menina”.

“Totalmente. Não é sobre gênero. É sobre formas e o que fica bem em você naquele dia. E, de qualquer forma, é legal experimentar”.

Eu já consigo ouvir alguém dizendo relationship goals e, embora eu concorde que eles são fofos mesmo, só porque ambos estão as roupas um do outro, isso não faz deles pessoas que não se conformam com o gênero que lhes foi atribuído ao nascer. Aliás, é ofensivo que a Vogue trate uma identidade real como uma “nova tendência”.

Na internet, é possível imaginar a reação das pessoas sobre o artigo. Como o Buzzfeed notou, a maioria não gostou nem um pouco da abordagem da revista sobre o tema.

Tradução: “Acho que a Vogue está um pouco confusa sobre o que é ser gênero fluido”, escreveu uma mulher no Twitter. “Usar a camiseta da sua namorada não faz de você gênero fluido”.

Pessoas que não se identificam com o gênero com o qual foram designados ao nascer existem desde o começo dos tempos. Ou seja, não estamos falando de algo surgiu nos últimos anos. E, embora eu não seja uma pessoa de gênero fluído ou não-binário, ser um desses indivíduos não é nada glamouroso ou simples, como usar as roupas da sua namorada. Pelo contrário, ser uma pessoa cuja identidade não faz parte da maioria, envolve lidar com violências físicas e psicológicas.

Zayn Malik e Gigi Hadid não são exemplos de fluidez de gênero, pois usar as roupas um do outro não significa ser um indivíduo de gênero fluido. No máximo, os dois se beneficiam de uma expansão recente da moda do que seria masculino e feminino (pense na campanha da C&A, que lançou uma linha de roupas sem distinção de gênero). Ainda assim, estamos falando de duas celebridades muito ricas, que conseguem ter um passe-livre para experimentar o guarda-roupa umas das outras. Pense se uma pessoa da periferia poderia caminhar expressando sua identidade livremente. Ela certamente seria agredida e, definitivamente, não seria capa da Vogue.

Aliás, se a revista queria mesmo destacar um tema tão relevante como esse, por que não chamar pessoas que são realmente de gênero fluido para sua capa e uma entrevista? Seria uma escolha muito mais acertada e interessante. Ao escolher um casal cisgênero e heterossexual, a publicação apaga e se apropria de uma identidade para promover a publicação como ‘moderna’ e antenada com o que acontece no mundo. Não, a situação mostra exatamente o contrário disso tudo.

Ao menos, depois das críticas que recebeu, a Vogue se desculpou. Tomara que na próxima vez, os editores tomem mais cuidado.

“A história tinha a intenção de destacar o impacto que pessoas de gênero fluido e não-binárias tiveram na moda e na cultura. Sentimos muito que a história não refletiu o espírito corretamente – nós erramos. Esperamos continuar a conversa com uma sensibilidade maior”.