O que podemos aprender com a queen Vixen, da 10ª temporada de “RuPaul’s Drag Race”

O que podemos aprender com a queen Vixen, da 10ª temporada de “RuPaul’s Drag Race”

[SE VOCÊ AINDA NÃO ASSISTIU AO ÚLTIMO EPISÓDIO DE “RUPAUL’S DRAG RACE, SASHAY AWAY]

Antes de começar, preciso dizer que é a primeira vez que assisto a “RuPaul’s Drag Race”, o que significa que, talvez, as questões que eu aborde nesse texto não sejam bem uma novidade aos fãs do reality show. Dito isso, confesso que tenho me divertido e aprendido muito com a atual temporada, que já é a 10ª da atração.

Boto fé que boa parte do sucesso do programa se dá pela identificação do público com algumas das participantes da competição, assim como uma certa antipatia por outras. E se muitos na internet parecem estar na torcida por Aquaria, Miz Cracker ou Eureka (meu coração é da Monét X Change), outros tantos parecem não ter o mesmo sentimento por The Vixen, a candidata de Chicago que é, sem sombra de dúvidas, a figura mais polarizadora dessa edição.

Com Vixen, a impressão que se tem é de que parece não haver muito meio termo: ou você a ama ou você a odeia. E isso porque a queen não leva desafora para casa, diz o que vem à mente e mantém uma postura combativa. Logo no primeiro episódio, ela deu uma dica de que era isso o que veríamos, quando declarou: “eu estou aqui para lutar”.

E ela lutou mesmo até o último momento, mas, infelizmente, terminou eliminada na semana passada. Depois de uma performance não muito cativante interpretando a icônica Cher, a drag acabou entre as duas piores, ao lado de Asia O’Hara, e foi eliminada depois de fazer um lip sync do clássico “Groove Is In The Heart”, de Deee-Lite.

A saída de Vixen será sentida, pois ela era uma das drags mais politizadas dessa temporada, falando abertamente sobre racismo em cada oportunidade que tinha. Aliás, com 5 competidoras negras, era possível prever que raça seria um tópico para conversa, mas a queen de Chicago foi quem mais levou o debate para o holofote.

Fora do programa, Vixen possui um show chamado “Black Girl Magic”, o qual ela realiza ao lado de outras artistas negras. A iniciativa se deu após perceber que ela e outras drags negras nunca se apresentaram juntas, já que “havia essa noção de que você só poderia ter uma queen negra incrível ou de peso para se apresentar”, como ela explicou ao site da Billboard.

E dentro de “RPDR”, ao lado de outras queens negras, elas criaram momentos de reflexão entre os fãs. Em um dos episódios, Vixen se abriu para sua colegas, revelando que seu temperamento explosivo surgiu depois de um barman dizer que pessoas como ela estavam arruinando a Parada do Orgulho LGBT. Em outra situação, por conta do racismo, ela disse que nunca sentiu que poderia falar qualquer coisa, e por isso tem essa necessidade de se fazer ouvida, pois vive em um mundo que silencia vozes negras.

Ou seja, a raiva que carrega e que transmite vem da discriminação vivenciada na pele. “É impossível ser negro, gay e drag queen nos Estados Unidos”, ela desabafou no programa. “Eu passo muito tempo de boca fechada para passar por isso, e quando me sinto atacada, tudo sai”.

É por isso que nada passa por ela. Especialmente quando teve o atrito com Aquaria em um dos episódios de “Untucked” (um especial que exibe os bastidores dos desfiles de “RPDR”). Aquaria criticou Vixen por ter vencido uma prova com a peruca de outra queen (e vale dizer, que Aquaria disse isso mais de uma vez), o que levou a segunda a se manifestar. E quando confrontada, Aquaria, que não teve ninguém do seu lado, começou a chorar. As lágrimas não convenceram ninguém, e Vixen foi atrás dela uma última vez, apontando como aquilo faria com que ela parecesse errada ou agressiva, quando só estava respondendo a uma provocação e defendendo seu trabalho.

“Eu preciso dizer o que isso é. Você disse algo, eu respondi e você começou a chorar”, disse Vixen. “Você criou uma narrativa na qual eu sou uma mulher negra raivosa que assustou a pobre garotinha branca. Quando você fica na defensiva e diz que eu sou negativa, quando só estou respondendo o que você falou, isso será sempre marcado pelas câmeras como uma questão racial”.

Como diria Monique Heart: fatos são fatos. Vixen apenas respondeu uma provocação repetida por Aquaria, que não soube lidar com a situação. Embora muitos acreditem que Vixen poderia ter controlado seu tom de voz, abre-se uma margem para que ela saísse como vilã, enquanto a outra seria vista como vítima, quando foi ela quem começou todo o desentendimento. E isso fica ainda pior por conta do estereótipo da mulher negra raivosa, a qual é vista como alguém despida de complexidade e fica buscando brigas o tempo todo.

E esse não é nem de longe o caso de Vixen, o que ficou bem claro no episódio em que foi eliminada. Em um determinado momento, Asia a chamou para conversar, preocupada com as discussões da sua colega com Eureka e com o restante do grupo. E em vez criar mais tensão, ela buscou entender a drag queen e oferecer um ombro amigo a ela.

No final, ficou claro que o problema de Vixen com Eureka e Aquaria se dá pelos privilégios que elas possuem (por exemplo, terem uma vasta legião de fãs, uma já ter participado do programa e conhecer como ele funciona, além de terem uma tranquilidade financeira), enquanto ela mesma e outras competidoras não têm o mesmo.

“Se eu acho que ela está lidando com as coisas de maneira errada? Sim. Se eu entendo o motivo disso? Com certeza”, disse Asia, que em nenhum momento invalidou os sentimentos de Vixen. Ver as duas queens negras conversando, trocando e se entendo foi algo bonito de se assistir. Houve uma construção de uma ponte ali, e não um muro.

Vixen pode estar fora de “RuPaul’s Drag Race”, mas a sua mensagem com certeza permanece. Melhor ainda, tomara que ela ganhe vida para além da passarela.