Viola Davis se arrepende de ter feito “Histórias Cruzadas”: ‘as vozes das empregadas não foram ouvidas’

12. setembro 2018 Cinema 0
Viola Davis se arrepende de ter feito “Histórias Cruzadas”: ‘as vozes das empregadas não foram ouvidas’

Viola Davis vai nos abençoar, mais uma vez, com a graça de sua atuação no filme “As Viúvas”, que tem estreia marcada para novembro no Brasil. Na obra dirigida por Steve McQueen(“12 Anos de Escravidão”), ela interpreta uma líder de um grupo de mulheres que herdaram uma enorme dívida de seus falecidos maridos, e que precisam concluir um assalto deixado por eles.

Com o lançamento se aproximando, Viola já saiu para promover seu mais novo trabalho, concedendo entrevistas nas quais não fala apenas sobre ele, mas também sobre tópicos relevantes. Para o jornal The New York Times, por exemplo, ela revelou que já deixou de pegar muitos filmes e que se arrependeu de ter feito alguns, dentre eles, “Histórias Cruzadas”.

“Já neguei muitos papéis. Há um ou outro que eu me arrependi por um minuto, mas desapeguei depois. Conforme vou envelhecendo, eu recuso papéis pela minha própria experiência com o filme sendo lançado, pois eu tenho de promovê-lo. E eu não vou promover algo que eu não acredite”, ela contou. “Uma pergunta melhor é se eu já me arrependi de alguns papéis? Sim e ‘Histórias Cruzadas’ está nessa lista. Mas não em termos de experiência e das pessoas envolvidas, porque tudo foi incrível. As amizades que fiz serão mantidas para o resto da minha vida. Eu tive uma ótima experiência com as outras atrizes, que são seres humanos extraordinários. E eu não poderia escolher um colaborador melhor que Tate Taylor.

Eu sinto que, no final, as vozes das empregadas não foram ouvidas. Eu conheço Aibileen [personagem de Viola no filme]. Eu conheço Minny [personagem de Octavia Spencer]. Elas são minhas avós. Elas são minha mãe. E eu sei que se você fizer um filme cuja premissa é: ‘eu quero saber como é trabalhar para pessoas brancas e criar seus filhos em 1963, eu quero ouvir como vocês se sentem sobre isso’. Eu não ouvi isso durante o filme”.

“Histórias Cruzadas” foi um filme de sucesso nos Estados Unidos, arrecadando mais de US$ 169 milhões por lá, e protagonizado por Emma Stone. Ela dá vida à jornalista Skeeter, que vive em uma cidade do Mississípi, no sul dos EUA, e decide escrever um livro sobre as experiências das empregadas negras, as quais trabalham por anos para famílias brancas e sequer podem usar os banheiros nas casas dos patrões. A obra dirigida por Tate Taylor recebeu 4 indicações ao Oscar em 2012, incluindo Melhor Atriz para Viola Davis e Atriz Coadjuvante para Octavia Spencer, a qual saiu vencedora na categoria.

Ainda assim, mesmo com prêmios e boa bilheteria, a produção foi criticada por perpetuar o esterótipo do white savior, ou o salvador branco, que com sua inteligência e/ou coragem liberta grupos minoritários da opressão. Em vez de dar voz a quem é oprimido, “Histórias Cruzadas” acaba dando mais local de fala a quem sempre o teve.

Outro ponto importante levantado por Viola Davis foi feito à revista Variety, da qual foi capa da edição de setembro. Ao falar sobre “As Viúvas”, um filme protagonizado apenas por mulheres, a artista foi perguntada sobre as diferenças salariais entre homens e mulheres em Hollywood. Embora seja a favor da discussão e de mudanças, a atriz fez questão de apontar que gênero não é o único fator a ser levado em consideração nessa conversa, mas raça também.

“Davis é a favor da luta, mas diz que há uma injustiça econômica muito perniciosa”, diz o texto da publicação. “Mulheres de minorias étnicas não recebem somente menos que seus colegas homens – seus salários são menores em comparação ao que é pago às mulheres brancas. ‘Não há percentuais que demonstrem essa diferença’, diz Davis. ‘É vasto. Mulheres hispânicas, asiáticas e negras, nós não recebemos o que as mulheres brancas recebem. Nós não recebemos. Nós temos o talento, o que nos falta são as oportunidades.

“Davis não acredita que uma mudança seja possível, a menos que os executivos em Los Angeles sejam mais inclusivos. ‘Nós nem sequer somos convidadas a sentar na mesa’, ela diz. “Eu já fui a eventos de mulheres aqui em Hollywood, e eles estão cheios de mulheres CEOs, produtoras e executivas, mas eu sou uma entre, talvez, cinco ou seis mulheres de minorias na sala de reunião'”.

A questão da desigualdade salarial entre mulheres brancas e mulheres negras já foi abordada anteriormente por Viola. Fora de Hollywood e dos Estados Unidos, a diferença também existe no Brasil. Em média, mulheres brasileiras ganham cerca de 30% menos que os homens, com o recorte racial, as mulheres negras chegam a receber 60% menos.

Com certeza, Viola Davis tem muita propriedade para falar sobre todos esses temas. “As Viúvas”, novo filme da atriz, estreia nos cinemas no dia 29 de agosto.