Viola Davis e a exclusão da mulher negra em Hollywood

21. setembro 2015 Cinema 1
Viola Davis e a exclusão da mulher negra em Hollywood

Viola Davis fez história durante a entrega do Emmy Awards, realizado neste domingo (20), ao receber o troféu por sua atuação em How To Get Away With Murder, sendo a primeira atriz negra a ser reconhecida por seu trabalho em uma série dramática. Em seu discurso, ela parafraseou Harriet Tubman, mulher negra que lutou contra o racismo e pela abolição da escravatura nos Estados Unidos.

“Na minha mente eu vejo uma linha. E acima dessa linha, eu vejo campos verdes, flores e lindas mulheres brancas estendendo seus braços até mim, mas eu não consigo ultrapassar essa linha”.

Pelo menos na noite de ontem, a linha fora rompida. “Deixem-me dizer uma coisa: a única coisa que separa mulheres não-brancas de todos os outros é a oportunidade. Você não consegue ganhar um Emmy por papéis que simplesmente não existem”, continuou a atriz, que agradeceu à equipe do seriado onde atua por “redefinirem o que é ser linda, sexy, uma protagonista e o que é ser negra!”

E Viola Davis está certa ao reclamar a falta de papéis para mulheres negras ou latinas e todas as mulheres não-brancas (“women of color”). Fazendo um recorte por gênero e raça, um estudo deste ano, feito pela Escola Annenberg de Comunicação e Jornalismo da Universidade do Sul da Califórnia (USC), comprova que mulheres negras são minoria no cinema.

O levantamento analisou os 700 maiores filmes lançados entre 2007 e 2014 – excluindo o ano de 2011 -, e mostra que negros, em geral, foram apenas 12,5% dos personagens em Hollywood. Nas 100 maiores produções de 2014, homens negros ficaram com 69,2% dos papéis, enquanto mulheres negras conquistaram somente 30,8% deles.

Esse mesmo estudo traz outra preocupação: quando se trata de uma personagem negra, ela possui mais chances de ficar nua ou em roupas sensuais nos filmes. Para comparação: mulheres negras foram 29% das personagens em roupas reveladoras contra 27,3% das atrizes brancas. Negras foram 27,7% das personagens nuas contra 26,3% das atrizes brancas. Contudo, quando mulheres são referenciadas como belas, mulheres negras foram apenas 11,6% delas contra 14,8% das atrizes brancas. Em um texto para o site Alternet, Edward Rhymes explica essa representação das mulheres negras em Hollywood:

“Historicamente, mulheres brancas, de qualquer categoria, foram representadas como exemplos de respeito-próprio, autocontrole e modéstia – até mesmo de pureza sexual -, enquanto mulheres negras eram frequentemente (e ainda são) representadas como inerentemente promíscuas. Até mesmo predadoras”.

A figura muda de acordo com a idade da personagem interpretada. Quanto mais velhas, menos sexualizadas as mulheres são, como se a sexualidade não fizesse mais parte de qualquer mulher com a passagem do tempo. E mulheres negras são menos sexualizadas ainda, algo apontado pela própria Viola Davis. “Eu nunca pude ser sexual. Nunca na minha carreira toda. E há algo mais potente: nunca vi ninguém que se pareça comigo ser sexualizada na televisão ou em filme. Nunca”, reclamou a atriz em entrevista à revista Entertainment Weekly, que também conversou com Shonda Rhimes sobre o arquétipo da negra raivosa colocado sobre ela.

No SAG Awards deste ano, quando levou o prêmio de Melhor Atriz Numa Série Dramática, Viola Davis já havia discursado sobre a importância de seu papel na série “How To Get Away With Murder”, onde interpreta a advogada Annalise Keating, uma mulher de meia idade forte e vulnerável ao mesmo tempo, com uma vida sexual ativa, dividindo-a entre seu marido e seu amante.

“Queria agradecer […] por pensarem que uma mulher sexualizada, confusa e misteriosa poderia ser uma mulher negra de 49 anos que parece comigo”.

E quando olhamos para o Brasil, nosso cinema também não coloca mulheres negras nas telas do cinema. Segundo uma pesquisa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), elas não estão presentes na frente e atrás das câmeras, mesmo sendo a maioria da população feminina (51,7%). A cada 10 filmes lançados entre 2002 e 2012, negras estiveram em menos de 2 deles. Atrizes pretas e pardas representaram apenas 4,4% do elenco principal dos filmes brasileiros. Nas 218 produções nacionais lançadas no período, negras não dirigiram ou escreveram qualquer uma delas.

O estudo revelou ainda que o nosso cinema não reflete a realidade do país, quando mais da metade da população (53%, segundo o IBGE), declara-se preta ou parda.

Portanto, quando Viola Davis afirma que faltam oportunidades para mulheres negras no cinema, os números não a deixam mentir. Um dia antes do Emmy Awards, a atriz conversou com a revista People, chamando a atenção dos roteiristas para o fim da exclusão das mulheres negras em Hollywood. “Se não está escrito, não podemos interpretar”, disse.

Antes de fazer história na noite de ontem, ela refletiu sobre a importância do seu trabalho.

“Penso que a arte importa. Entendo que atuação não é ciência. Eu entendo. Mas sinto que é uma importante forma de arte. É minha missão na vida fazer com que mulheres não-brancas sejam parte da narrativa na nossa indústria”.

Em seu discurso na noite de domingo, durante a premiação, Viola também lembrou de outras mulheres negras, que conquistaram o protagonismo em produções televisivas e cinematográficas: Taraji P. Henson (“Empire”), Kerry Washington (“Scandal”), Halle Berry (primeira mulher negra a ganhar um Oscar como Melhor Atriz, em 2002), Nicole Baharie (“Sleepy Hollow”), Meagan Good (“Minority Report”) e Gabrielle Union (“Think Like a Man”), algo que emocionou as atrizes citadas presentes. “Obrigada por nos fazerem atravessar aquela linha”.

Mulheres negras ainda são pouco representadas no cinema, mas a vitória de Viola Davis pode ser um respiro de alívio e a possibilidade de uma mudança tão urgente e necessária.