Vestígios

Vestígios

*Imagem: Letícia Miyuki (@lemiyuki)

Os ponteiros do relógio se alinham. É hora de levantar. Nossos olhos já estão abertos há alguns minutos, minha voz rouca se esvai através das paredes. Você desliga aquele som calmo que o despertador faz. É a nossa música favorita no momento. Eu me escondo no teu cheiro. E te percebo. Como na maioria das manhãs, você está calma. Sorri. E no meio da conversa você ri. Depois de tanto tempo, meu sotaque ainda te causa cócegas. Minha mão escorrega por você. Eu percebo que me perco quando te olho. E me pergunto, que graça tinha um dia de manhã, antes de te conhecer.

Na cabeceira da cama, dois livros, um copo d’água e uma embalagem de chocolate. As cortinas foram abertas por você antes de me acordar. Devagar o sol foi entrando e o abrir dos olhos foi natural. Tua mão tocou meu corpo. Me acostumei com o arrepiar. A embalagem é vestígio da noite anterior, a madrugada embebedou teu corpo com um líquido necessário. Um copo d’água vazio, pra ser exata. Tua sede era outra. Os livros estavam folheados. Não tão novos. Marcados por vontades e pausas temporais. Marca textos. Eles fazem parar no tempo, marcam aonde teus olhos gostariam de ir e vão.

Apoio meus pés no chão gelado. Eu gosto. Caminho até a cozinha. Abro o armário e de longe sinto teu olhar me analisando. Os chás ficam no alto, meus pés pedem por impulso. E teus olhos percorrem minhas pernas nuas. A sua camiseta rasgada me serve bem, quando teu intuito é deixar um cheiro amadeirado pela casa e me olhar devagar de manhã. Os últimos dois saquinhos de uma planta qualquer. Tem limão. Teu olhar ainda fitando o entrelace dos meus pés, me faz querer morar naquela caixa vazia. Você me puxa pra perto, ri do meu jeito, às vezes desastrada, por vezes envergonhada, de ser.

O toque dos lábios, por vezes incontáveis, faz o tempo passar rápido. A água ferve. Nosso corpo também. Te peço pra terminar o que comecei. Você ri. Caminha do sofá até a cozinha e volta pelo mesmo trajeto exato, com duas canecas cinzas. Num encaixe natural, meu corpo fica por cima do teu. Nas tuas mãos o controle da TV, nas minhas você. Meu toque acompanha o desenho do teu corpo. Eu me distraio fácil entre o ir e vir de te olhar e o tempo entre uma legenda e outra basta, pra me perder e te encontrar.

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