Vários artistas masculinos fizeram músicas com o trio Migos. Por que só as mulheres foram criticadas?

19. julho 2017 POP 0
Vários artistas masculinos fizeram músicas com o trio Migos. Por que só as mulheres foram criticadas?

Estamos em julho, então, posso supor com um certo nível de certeza que você já ouviu o trio de hip-hop Migos. Mesmo que você não seja fã do gênero musical, ou do hit “Band Boujee”, que chegou ao topo das paradas musicais, Quavo, Takeoff e Offset participaram de várias músicas de artistas pop; de “Bon Appétit”, da Katy Perry, até “Strip That Down”, do Liam Payne.

Infelizmente, não é só pelas parcerias musicais que os rappers são conhecidos, mas também pela homofobia. No começo do ano, eles fizeram comentários preconceituosos sobre iLoveMakonnen, outro cantor de hip-hop, que havia se assumido gay.

O trecho a seguir, é uma reprodução da falas do trio à revista Rolling Stone.

“E eu fico muito surpreso com a reação de Migos quando eu menciono iLoveMakonnen, um MC local que se assumiu gay no Twitter. ‘Droga, o Makonnen!” grita Quavo depois de uma estranha pausa. Eu menciono o apoio online a Makonnen. ‘Eles apoiaram ele?’, pergunta Quavo, erguendo uma sobrancelha. ‘É porque o mundo está acabado’, diz Offset. ‘O mundo não está certo’, diz Takeoff. ‘Não estamos dizendo que há algo errado com os gays’, diz Quavo. Mas ele sugere que a sexualidade de Makonnen vai minar sua credibilidade, dado ao fato de que ‘ele começou falando sobre ciladas e vender ecstasy, essas coisas’”.

Obviamente, as palavras dos rapazes não caíram bem e eles se viram obrigados a pedir desculpas. Em fevereiro, eles escreveram no Twitter:

“Nós sempre fomos sobre ser originais e honestos. Ser honesto consigo mesmo é um longo percurso. Somos todos fãs da música do Makonnen e queríamos que ele não tivesse que se esconder. Achamos que o mundo está acabado, pois as pessoas sentem que precisam se esconder e nós fomos questionados sobre a sexualidade de uma pessoa. Nós não temos problema algum com a preferência sexual de ninguém. Amamos todas as pessoas, gay ou hétero, e nós pedimos desculpas se ofendemos alguém”.

“Nós pedimos desculpas se ofendemos alguém” é um clássico do time de marketing para conter danos à imagem de um artista, o qual provavelmente não se arrepende do que disse, mas que precisa pedir desculpas mesmo assim.

É por isso que, assim que Katy Perry anunciou uma colaboração com os Migos para a música “Bon Appétit”, o público (inclusive eu) fez questão de demonstrar sua insatisfação. Com uma grande base de fãs composta por homossexuais, a cantora, que há poucas semanas havia recebido um prêmio de uma organização LGBT, foi duramente (e de forma acertada) criticada nas redes sociais. O resultado: o single não foi bem digerido e despencou dos charts.

Quem mais cantou com o trio, ou melhor, com Quavo, foi Halsey, que fez uma parceria para a música “Lie”, presente em seu mais recente álbum, o “Hopeless Fountain Kingdom”. Assumidamente bissexual e defensora dos direitos LGBT, a cantora também enfrentou uma enxurrada de críticas por ter colaborado com alguém envolvido com homofobia.

Pelo Twitter, ela alegou que não sabia da entrevista do músico à revista Rolling Stone, quando gravaram o dueto.

Tradução: “Honestamente? Eu não sabia que Quavo tinha feito comentários homofóbicos quando colaborei com ele. Nós nunca trocamos uma palavra e…”

Tradução: “Não tenho intenção de formar uma amizade, a menos que ele faça um pedido de desculpas legítimo”.

Já Katy Perry, em uma conversa com o jornal The Guardian, também alegou não saber dos comentários do trio quando gravaram juntos.

“Primeiramente, eu não sabia [da entrevista para a Rolling Stone] quando eu os conheci. Eu não chequei antes. Algumas pessoas dizem as coisas que você quer que elas digam, porque elas não sabem como dizê-las”, justificou-se.

Antes de continuar, eu realmente quero acreditar em Halsey e Katy, mas ambas as artistas possuem uma grande equipe trabalhando com elas, o que torna suas justificativas um tanto fracas. Elas até podem ter sido verdadeiramente inocentes, mas a impressão que fica é a de que queriam aproveitar o sucesso do trio de rappers para alavancar seus novos trabalhos.

Porém, na mesma entrevista com o Guardian, a california gurl fez um ponto que também vale a pena ser considerado.

“Há, também, um padrão duplo: ninguém disse nada sobre Frank Ocean, que trabalhou com eles em uma música, ou Liam Payne, que tem Quavo em seu novo single. Ninguém fala sobre isso”.

Isso não exime Perry ou Halsey das críticas, mas levanta um questionamento: por que apenas as mulheres estão sendo criticadas?

Eu não vou negar o apelo que ambas as cantoras têm com o público gay – elas fazem muito mais sucesso entre eles do que Liam Payne ou Frank Ocean – , mas quando se está cobrando integridade de alguém, isso não deveria ser cobrado de todos eles?

Quavo, Offset e Takeoff estão presentes em vários lançamentos masculinos de 2017: “Slide”, de Calvin Harris e Frank Ocean (este último, vale lembrar, é bissexual, assim como Halsey); “Strip That Down”, de Liam Payne; “I’m The One”, de Justin Bieber (o canadense já cantou com eles em 2014, na faixa “Looking For You”); e “Know No Better”, do trio de DJs Major Lazer; além das várias colaborações com artistas de hip-hop. E nenhum deles recebeu tantas reclamações (e eu chegaria a dizer que nenhuma) quanto Halsey e Katy Perry.

Mais uma vez, essa não é uma tentativa de desculpar as duas artistas, mas quando há tantos artistas masculinos fazendo música com o Migos, é difícil não pensar o quanto de machismo está por trás das críticas que as mulheres receberam.

Todos os músicos – Diplo, Liam Payne, Calvin Harris, Justin Bieber e Frank Ocean – demonstraram apoio à comunidade LGBT de alguma maneira, seja por gravar com um artista assumidamente LGBT, seja por ser membro da comunidade do arco-íris, seja por meio de alguma entrevista ou comentário em redes sociais. Mesmo que eles não tenham um apelo tão grande com LGBTs quanto Katy e Halsey, isso não significa que eles não deveriam ser cobrados por terem gravado com homofóbicos. Se você realmente acredita no respeito a TODAS as pessoas, isso significa responsabilizar QUALQUER pessoa por suas atitudes.

Quando se cobra apenas as mulheres, estimula-se a velha e conhecida competição feminina, mas dessa vez sobre quem faz ‘escolhas melhores’. Mas quem se beneficia disso? A estrutura de poder continua a mesma: homens continuam tendo ‘passe livre’ para fazerem o que quiserem e lucrando sobre grupos marginalizados, enquanto estes últimos continuam sendo jogados para baixo do tapete.

Pela terceira vez, este texto não é uma tentativa de justificar ou perdoar as escolhas de Katy Perry ou Halsey, mas uma tentativa de chamar a atenção a uma cobrança que deveria ser feita a qualquer artista, independente do gênero dele.

A comunidade LGBT merece mais do que eles estão nos dando.


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