Eu ainda não sei ao certo o que achar da terceira temporada de “UnREAL”

Eu ainda não sei ao certo o que achar da terceira temporada de “UnREAL”

Eu amei “UnREAL” quando a assisti pela primeira vez, depois do meu melhor amigo ter insistido para que eu desse uma chance à série. Rachel (Shiri Appleby) e Quinn (Constance Zimmer) são aquelas personagens que a gente ama e odeia na mesma intensidade, e o seriado faz ótimos comentários sobre a posição da mulher na indústria do entretenimento. Tudo isso tornou a primeira temporada simplesmente viciante.

A segunda temporada, contudo, foi uma grande decepção. “UnREAL” tentou discutir racismo e a violência policial contra a população negra, mas o fez de maneira desastrosa, e pouco contribuiu com o debate que se propôs a abordar. Atualmente, a produção está em seu terceiro ano e, embora ela tenha evoluído em relação ao ano anterior, eu ainda não sei bem o que achar do que tenho visto.

Nessa terceira temporada, Rachel é convocada por Quinn para integrar, mais uma vez, o time de produtores de “Everlasting”. A produtora-executiva está com a corda no pescoço, uma vez que o dono do canal, Gary (Christopher Cousins), está cansado dos escândalos envolvendo o programa. Para dar um novo fôlego à atração, pela primeira vez, uma mulher será disputada por um grupo de rapazes.

A mulher em questão é Serena (Caitlin FitzGerald), uma executiva do ramo da tecnologia, considerada uma Elon Musk de saias, e que parece ter tudo na vida, menos alguém para dividir o tudo que tem. Serena sabe bem o que quer e o que não quer, e isso complica muito o trabalho de Quinn e Rachel, uma vez que a solteira nem sempre cede às manipulações da dupla.

De alguma maneira, a empreendedora serve como um espelho do que as duas personagens gostariam de ser. “Você é inteligente, bonita e bem-sucedida: metade dos Estados Unidos já odeia você”, diz Rachel a Serena, externalizando um sentimento que persegue várias mulheres ainda hoje. Não basta ir bem no trabalho: sem um marido e filhos, você ainda é incompleta.

E sendo sincero, as melhores partes da terceira temporada de “UnREAL” são justamente as interações entre as três mulheres e a forma como elas lidam com o ambiente misógino onde trabalham. Quinn cresce todas as vezes em que precisa bater de frente com algum homem poderoso, e isso inclui o dono do canal e o ex-namorado Chet (Craig Bierko). Ao mesmo tempo, ela não está nenhum pouco interessada na dita fórmula do ‘empoderamento feminino’ que seu programa tenta utilizar como discurso para atrair audiência. Ela quer ver ‘dedo no cu e gritaria’, e isso significa usar um falso feminismo para conseguir o que quer.

Já Rachel, que começou a temporada em uma espécie de retiro espiritual para não contar mais mentiras, fica dividida entre fazer o que sempre fez (manipular participantes) e ser honesta com seus princípios. Isto é, fazer com que “Everlasting” transmita uma mensagem verdadeiramente girl power. Contudo, no decorrer da atração, ela tem dificuldade em equilibrar as duas coisas, já que a segunda acaba indo contra as ordens de sua chefe/confidente/inimiga Quinn.

Isso tudo conquista e me faz lembrar que me conquistou na primeira temporada. Por outro lado, “UnREAL” parece ainda não ter aprendido com alguns dos erros do seu segundo, e continua em uma busca por identidade. E devo dizer: ela já encontrada, só precisa ser melhor trabalhada.

Todos nós sabemos que Quinn não é uma mulher perfeita, tampouco dada a demonstrar afeto com sua equipe. Ela é focada em sua carreira e em resultados, o que a faz ser dura com seus colegas e levá-los ao limite. Mas por que ela precisa perder praticamente toda sua humanidade ao ter de se relacionar com Rachel, Jay (Jeffrey Bowyer-Chapman) e Madison (Genevieve Buechner)? De novo, todos nós sabemos que ela não é um poço de gentileza, mas há momentos em que ela é apenas uma mulher que precisa descontar sua mágoa e rebaixar os outros para que possa se sentir grande. Ela não precisa disso, especialmente precisando provar sua competência no comando de “Everlasting” (e como ela mesma pontua a Gary: mulheres como ela não ganham segundas chances, esse é um privilégio dado aos homens).

E já que falamos de Madison, ao lado dela, Jeremy (Josh Kelly) e Chet formam o trio de personagens cujas histórias são as mais entendiantes e não aparentam progresso. O arco da jovem produtora ainda tem alguma evolução na metade da temporada (ainda que seja algo previsível de certa forma), mas Jeremy e Chet parecem estagnados e os roteiristas não sabem  o que fazer com os dois, além de colocá-los no meio do caminho das duas protagonistas para atrapalhá-las.

Chet permanece o mesmo misógino de sempre, utilizando mulheres para seu ganho pessoal e não tratando-as como seres humanos. E Jeremy, depois de bater em Rachel e matar duas pessoas na última temporada, parecia improvável que retornasse para mais um ano. Mas aqui está ele, sem acrescentar muito à história, além do fato de que ele guarda um grande e importante segredo.

Aliás, esse segredo – a morte de duas pessoas -, é um assunto pouco falado na série. Qualquer pequena menção a ele é logo ignorada e as câmeras logo se voltam a Serena e aos homens que tentam conquistar seu coração. E vale dizer, com poucas exceções, os competidores pecam pela falta de carisma e história para contar.

“UnREAL” é um seriado que tem sua vocação e sua identidade, mas parece ter perdido essas duas coisas no meio do caminho. A terceira temporada já é melhor que a anterior, mas ainda tem mais a oferecer. Até mesmo Quinn parece achar o mesmo quando diz logo no primeiro episódio: “Deus, ajude-nos a ter uma ótima temporada”. E eu espero o mesmo.