“UnREAL” captura bem a importância de respeitar o tempo de cada um para ‘sair do armário’

“UnREAL” captura bem a importância de respeitar o tempo de cada um para ‘sair do armário’

[O TEXTO POSSUI SPOILER DE “UNREAL”]

O dia 28 de junho é o Dia Internacional do Orgulho LGBT. Nessa mesma data, em 1969, lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e drag queens se uniram contra as batidas policiais que ocorriam com frequência no bar Stonewall-Inn, em Nova York. O episódio marcou a história do movimento LGBT, que continua lutando por direitos e visibilidade. Em homenagem à data, durante o mês de junho, portais nerds feministas se juntaram em uma ação coletiva para discutir de temas pertinentes à data e à cultura pop, trazendo análises, resenhas, entrevistas e críticas que tragam novas e instigantes reflexões e visões. São eles: Collant Sem Decote, Séries Por Elas, Delirium Nerd, Valkirias, Momentum Saga, de Oito, Ideias em Roxo, Preta, Nerd & Burning Hell, e o Prosa Livre.

‘Sair do armário’ é um evento importante na vida de muitos LGBTs – e não é um processo fácil. Muitos levam anos (às vezes, uma vida inteira) para se reconhecer e aceitar quem são, para depois poder contar às pessoas mais próximas e viver suas vidas com a liberdade que desejam.

É um episódio muito marcante, que a mídia adora retratar, mas nem sempre de maneira acertada. Não é raro vermos filmes e séries tratar do assunto de maneira rasa, sem o aprofundamento necessário nas dúvidas, dificuldades e dores que lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais passam até o ‘sair do armário’. 

“Master of None” fez um dos melhores retratos de como é essa experiência, por meio de Denise, interpretada por Lena Waithe, que também é lésbica na vida real, e cuja história serviu de base para a narrativa de sua personagem. Outro seriado que acertou foi “UnREAL”, o qual também apresentou uma personagem lésbica: Faith (Breeda Wool). A princípio, nada na atração indicava que Faith poderia ser homossexual, mas na série, como o próprio nome sugere, nada parece ser o que é.

“UnREAL” mostra os bastidores de um reality show de relacionamentos, o “Everlasting”, no qual um grupo de garotas competem entre si pelo coração de um rapaz. Faith é do conservador Estado do Mississipi, e se sabe desde o primeiro episódio que  ela é virgem, pois está em busca do ‘homem certo’. Contudo, é no quinto capítulo que descobrimos que, na verdade, sua escolha por evitar sexo com homens tem outro motivo. 

Adam (Freddie Stroma), o pretendente do reality, escolhe Faith para conhecer a família dela e suas origens. E é de volta à sua cidade natal que, junto de Rachel (Shiri Appleby), produtora do show, descobrimos mais sobre a personagem – especialmente a forte amizade entre ela e sua melhor amiga Amy (Malea Mitchell). Rachel a confronta sobre a relação das duas, mas Faith desconversa e diz que quer perder a virgindade com Adam, mas somente o beijo que dá nele não a deixa muito animada para ter um contato ainda mais íntimo com um homem.

Mais tarde, Faith diz que está apaixonada, mas por Amy, e não Adam. Porém, por conta de sua criação religiosa, ela mesma tem dificuldade em dizer em voz alta que é lésbica e que ama outra mulher. Eventualmente, com a ajuda de Rachel, ela consegue fazer tudo isso e planeja ‘sair do armário’ em frente à toda sua cidade, que vale lembrar, é muito conservadora. Rachel e Adam conseguem interrompê-la, mas o chefe do programa tem a gravação em que assume que é homossexual, e quer usá-la no programa. Rachel, contudo, tenta impedi-lo, pois entende isso pode fazer muito mal a Faith.

‘Sair do armário’ é um processo que leva tempo e que cada indivíduo decide quando é a melhor hora para fazê-lo. Por mais positivo que seja uma pessoa na mídia dizer com orgulho quem realmente é, é preciso que ela o faça em seus próprios termos, isto é, que ela decida quando e como, afinal, essa é a vida dela, e é ela quem terá de lidar com as consequências.

Há poucos meses, o ator Leonardo Vieira revelou que era gay, mas só depois de um site de notícias publicar uma foto dele beijando outro homem. A imagem poderia ter custado a carreira do artista, como ainda custa o trabalho de muitos LGBTs. Não só isso, a atitude poderia levar à violência contra ele: o Brasil é um dos países mais violentos do mundo contra a população de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. A cada 25 horas, um LGBT é assassinado no país. Talvez Leonardo Vieira não seja um alvo, por conta do seu status de celebridade, mas essa realidade está longe de ser a mesma para a maioria dos LGBTs.

É por isso que é preciso cuidado ao tratar do tema na mídia e fora dela, pois é preciso pensar nas consequências que a pessoa enfrentará depois de se assumir. Caso a fita de Faith fosse divulgada, ela provavelmente perderia o contato com sua família e amigos, todos ainda muito ligados à religião. Não era a hora para que isso acontecesse, já que a própria garota precisava refletir mais sobre como viveria sua vida depois de ‘sair do armário’.

Pois esse é outro ponto importante a ser destacado: a vida de qualquer LGBT não termina depois de assumir sua orientação sexual/identidade de gênero. Ela continua e, para muita gente, o que vem depois nem sempre termina de maneira positiva. Provavelmente, o que aconteceria com Faith também não seria legal.

Pessoalmente, estou um pouco cansado das narrativas em torno de LGBTs sempre girarem em torno do ‘sair do armário’, mas não consigo deixar de achar positivo quando um seriado ou filme acerta. E mesmo que o reality show “Everlasting” seja montado em manipulações, ao menos uma delas foi feita por um bem maior.


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