Um mergulho em “Lemonade”, novo álbum de Beyoncé

24. abril 2016 POP 2
Um mergulho em “Lemonade”, novo álbum de Beyoncé

Na semana passada, Beyoncé deixou o mundo curioso ao divulgar um teaser de um lançamento que faria através do canal HBO, que já trabalhou com ela no documentário “Life Is But a Dream” e na exibição do show da turnê “On The Run”, feita pelo casal Carter. Contudo, a prévia não continha nenhuma informação, apenas uma pergunta: “o que eu farei agora?” E nós já temos a resposta.

Na noite de sábado (23), Beyoncé deu início a uma nova etapa de sua carreira, lançando seu mais novo álbum visual, “Lemonade”, composto por 12 novas músicas, bem diferentes do que estamos acostumados a ouvir da cantora, acompanhadas de um documentário cheio de referências a um sombrio sul dos Estados Unidos e traz participações de mulheres negras muito conhecidas, como a tenista Serena Williams, Zendaya e Amandla Stenberg.

Por enquanto, “Lemonade” está exclusivamente no serviço de streaming Tidal, de seu marido Jay-Z, sem a possibilidade de download. E segundo informações do Mashable, que ouviu uma pessoa da indústria da música, o sexto álbum de Beyoncé deve ficar na plataforma por tempo indeterminado. Segundo um comunicado do Tidal, o álbum é considerado “um projeto conceitual baseado na jornada de cada mulher de autoconhecimento e cura.”

As 12 faixas são: “Pray You Catch Me”, “Hold Up”, “Don’t Hold Yourself” (participação de Jack White), “Sorry”, “6 Inch” (participação de The Weeknd), “Daddy Lessons”, “Love Drought”, “Sandcastles”, “Forward” (participação de James Blake), “Freedom” (participação de Kendrick Lamar), “All Night” e “Formation”, que havia sido liberada em fevereiro passado.

Junto às novas músicas, foi liberada um documentário de pouco mais de uma hora, no qual a cantora aparece em diversos cenários: uma plantação de milho, um estacionamento, numa cidade, dentro de uma mansão, num campo de futebol americano entre outros. Ele é dividido em 12 capítulos: “Intuição”, “Negação”, “Raiva”, “Apatia”, “Vazio”, “Perda”, “Responsabilidade”, “Reforma”, “Perdão”, “Ressurreição”, “Esperança” e “Redenção”. Cada um deles traz um diferentes aspectos de um relacionamento conturbado, com revelações de traição e perdão.

O filme é todo narrado por ela, que recita um poema de Warsan Shire, uma poetisa britânica. Assim como utilizou versos de Chimamanda Ngozi Adichie na música “Flawless”, presente em seu último álbum, Bey fez um movimento similar ao trazer as palavras de Warsan em seu novo projeto.

Alguns dos trabalhos da poetisa que estão em “Lemonade” são “The Unbearable Weight of Staying (The End of the Relationship) [“O Insuportável Peso de Ficar (O Fim do Relacionamento)]”, and “Nail Technician as Palm Reader (“A Manicure Como Quiromante”) e “For Women Who Are Difficult to Love” (“Para as Mulheres que São Difíceis de Amar”), cujos versos são:

“Você tentou mudar, não?

Fechou mais sua boca, tentou ser mais flexível, mais bonita, menos volátil, menos acordada.

Mas, mesmo quando estava dormindo, você podia senti-lo viajando para longe de você nos sonhos dele.

Então, o que você quis fazer, amor? Abrir a cabeça dele?

Você não pode fazer de seres humanos sua casa. Alguém deveria ter te contado isso.

E se ele quer ir embora, deixe-o ir.

Você é aterrorizante, estranha e linda. Algo que nem todos sabem amar.”

Mas, mais do que tudo, o trabalho de Beyoncé é uma celebração às mulheres negras, as quais estão presentes durante todo o filme e pertencem a diferentes gerações.

Além da participação de Serena Williams, estão presentes a modelo com vitiligo Winnie Harlow, as cantoras Chloe e Halle, as também cantoras Lisa-Kaindé Diaz e Naomi Diaz, as atrizes Zendaya e Amandla Stenberg, a jovem atriz indicada ao Oscar, Quvenzhané Wallis, a bailarina Michaela DePrince, Leah Chase (dona do restaurante “Dooky Chase” em Nova Orleans), a filha de Queen Bey, Blue Ivy, sua mãe, Tina, a avó de Jay-Z, Hattie White e, mais importante ainda, as mães de Trayvon Martin, Mike Brown e Eric Garner, homens negros mortos pela polícia dos Estados Unidos. São elas, respectivamente, Sybrina Fulton, Lesley McSpadden e Gwen Carr.

Tweet: “Força, vulnerabilidade, alegria, dor, coragem, morte, ressurreição, poder. Essa é uma verdadeira carta de amor às mulheres negras.”

Tweet: “Você conhecia os nomes de Warsan Shire, Lee Chase, Chloe & Halle antes de #LEMONADE? Porque a Bey quer que você as conheça. Vá (re)descobri-las. Essa é uma das várias coisas que achei lindas em #LEMONADE. Bey assumindo sua negritude enquanto deixa suas irmãs brilharem. Isso é uma graça.”

Em determinado momento, Beyoncé evoca Malcolm X, um dos líderes do movimento negro nos Estados Unidos. A cantora trouxe para “Lemonade” um trecho de um discurso dado por ele em maio de 1962, no qual ele diz:

“A pessoa mais desrespeitada nos Estados Unidos é a mulher negra. A pessoas mais desprotegida nos Estados Unidos é a mulher negra. A pessoa mais negligenciada nos Estados Unidos é a mulher negra.”

Na internet também circula que o nome do álbum, que quer dizer ‘limonada’ em português, foi inspirado na crença de escravos que o suco do limão clareava a pele. Não encontrei uma referência direta a isso, mas há links na internet que falam sobre o clareamento da pele negra através do limão em países da África e na Jamaica.

No filme, contudo, perto do final, Beyoncé fala sobre o suco do limão, mas também cita a avó de Jay-Z, Hattie, a qual diz: “Me deram limões, mas eu fiz uma limonada.” Talvez venha daí a inspiração para o nome do sexto disco da artista, que vem repleto das mais diversas referências, as quais devem ser analisadas ao longo da semana.

Queen Bey voltou diferente, trazendo política para sua música e redefinindo sua imagem na cultura pop.

Abaixo você confere uma tradução do poema recitado em cada capítulo de “Lemonade”:

“Intuição”:

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“Eu tentei fazer de você uma casa, mas as portas levam a alçapões. Uma escadaria leva ao nada.

Mulheres desconhecidas vagam pelos corredores à noite. Para onde você vai quando quer ficar quieta?

Você me lembra meu pai, um mágico… Capaz de existir em dois lugares ao mesmo tempo. Como a tradição dos homens do meu sangue, você chega em casa às 3 da manhã e mente para mim. O que você está escondendo?

O passado e o presente se fundem para nos encontrar aqui. Que sorte. Que maldição horrível.” 

“Negação”:

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Tentei mudar, fechei mais a minha boca, tentei ser mais flexível, mais bonita, menos acordada. Jejuei por 60 dias, vesti branco, me abstive de espelhos, de sexo. Devagar não disse mais nenhuma palavra. Naquela época, eu deixei meus cabelos crescerem até meus tornozelos. Dormi num tapete sobre o chão. Eu engoli uma espada. Eu levitei. Fui ao porão, confessei meus pecados e fui batizada em um rio. Levantei e disse: ‘amém’. E eu falei sério.

Chicoteei minhas próprias costas e pedi por domínio aos seus pés. Me atirei em um vulcão. Bebi o sangue e o vinho. Sentei sozinha, implorei e me curvei a Deus. Fiz o sinal da cruz e pensei ter visto o diabo. A pele sobre meus pés engrossou, tomei banho em alvejante e sequei minha menstruação com páginas do livro sagrado, mas ainda assim, dentro de mim, estava presa a necessidade de saber: você está me traindo?

Traindo? Você está me traindo?”

“Raiva”:

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“Se é isso o que você quer de verdade… Eu posso vestir a pele dela sobre a minha. Seu cabelo sobre o meu. Suas mãos como luvas. Seus dentes como confete. Seu couro cabeludo, uma capa. Seu esterno, minha bengala deslumbrante. Nós podemos ser fotografados. Nós três. Imortalizados… Você e sua garota perfeita.

Eu não sei quando o amor se tornou elusivo. O que eu sei é: ninguém que eu conheça o tem. Os braços do meu pai em volta do pescoço da minha mãe, uma fruta madura demais para comer. Eu penso nos amantes como árvores… Crescendo para e de um para o outro. Procurando a mesma luz.

Por que você não consegue me ver? Por que você não consegue me ver?  Por que você não consegue me ver? Todos conseguem.”

Apatia”:

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“Então, o que você vai dizer no meu funeral, agora que você me matou? ‘Aqui jaz o corpo do amor da minha vida, cujo coração eu parti sem uma arma na minha cabeça. Aqui jaz a mãe dos meus filhos, ambos vivos e mortos. Descanse em paz, meu amor verdadeiro, o qual eu não dei valor. A melhor buceta que, por minha causa, dorme longe. O Deus dela está ouvindo. Seu paraíso será um amor sem traição. Cinzas por cinzas, pó para as amantes’.”

“Vazio”:

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“Ela dorme o dia todo. Sonha com você nos dois mundos. Cultiva o sangue, dentro e fora do útero. Acorda cheirando a zinco, a mágoa sedada pelo orgasmo, o orgasmo intensificado pela mágoa. Deus estava na sala quando o homem disse à mulher: ‘eu te amo demais. Envolva suas pernas à minha volta. Me deixe entrar, me deixe entrar’. Às vezes, quando ele tinha os mamilos dela em sua boca, ela sussurrava: ‘meu Deus’. Essa é, também, uma forma de devoção.

Os quadris dela moem no pilão canela e cravos. Sempre que ele goza… Perda. Querida lua, nós culpamos você pelas enchentes… Pelas enchentes de sangue… Por homens que também são lobos. Nós culpamos pela noite, pelo escuro, pelos fantasmas.”

“Perda”:

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“Cada medo… Cada pesadelo… Que todos já tiveram.”

“Responsabilidade”:

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“Você encontra o tubo preto dentro de sua necessaire, onde ela guarda as cartas antigas de seu pai na prisão. Você quer, desesperadamente, parecer com ela. Você não se parece com sua mãe. Você se parece em tudo com a sua mãe. Beleza de estrela de cinema. Como usar o batom de sua mãe. Você vai ao banheiro para passar o batom da sua mãe. Em um lugar que ninguém possa te encontrar.

Você deve usá-lo como ela usa o desapontamento no rosto dela. Sua mãe é uma mulher e mulheres como ela não podem ser contidas. Amada mãe, deixe-me herdar a terra. Ensine-me como fazê-lo implorar. Deixe-me recompensar pelos anos que ele fez você esperar. Ele se curvou ao seu reflexo? Ele fez você esquecer seu próprio nome? Ele te convenceu que era um deus? Você se ajoelhava diariamente? Os olhos dele se fecham como portas? Você é uma escrava na cabeça dele?

Estou falando de seu marido ou de seu pai?”

“Reforma”:

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“Ele me banha até que eu esqueça os nomes e os rostos deles. Eu peço a ele para que me olhe nos olhos quando eu chegar em casa. Por que você se nega o paraíso? Por que você se considera menos merecedor? Por que você tem medo do amor? Você não acha possível para alguém como você. Mas você é o amor da minha vida. Você é o amor da minha vida. Você é o amor da minha vida.”

“Perdão”:

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“Batize-me agora que a reconciliação é possível. Se vamos nos curar, que seja glorioso. Mil garotas levantam seus braços. Você se lembra quando nasceu? Você é grato pelos quadris que quebraram? O vermelho profundo de sua mãe e de sua mãe e de sua mãe? Há uma maldição a ser quebrada.”

“Ressurreição”:

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“Algo está faltando. Tantas jovens mulheres. Ela dizem a você: ‘eu quero um… Veja, todas elas me fazem sentir melhor do que você’. Então, como levaremos nossas crianças para o futuro? O que faremos? Como as levaremos? Amor. A-M-O-R, amor. Hmmm.

Aleluia, obrigada, Jesus. Eu amo o Senhor. Me desculpe, irmão. Eu amo o Senhor, é tudo o que tenho.

Quando suas costas ficam contra a parede e a parede contra suas costas, a quem você chama? Ei! Quem você chama? Quem você chama? Você chama Ele. Você precisa chamar Jesus. Você precisa chamá-Lo. Você precisa chamá-Lo, porque você não tem mais esperança.

Você é aterrorizante… E estranha e linda.

Mágica.”

“Esperança”:

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“A manicure tirou minhas cutículas, vira minha mão, alisa a pele da minha palma e diz: ‘eu vejo suas filhas e as filhas delas’. Naquela noite, num sonho, a primeira garota emerge de um buraco no meu estômago. A cicatriz se torna um sorriso. O homem que eu amo tira os pontos com suas unhas. Deixamos as suturas pretas do lado da banheira.

Eu acordo quando a segunda garota rasteja, a cabeça primeiro, pela minha garganta. Uma flor, florescendo no buraco do meu rosto.”

“Redenção”:

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“Leve-me um pouco de água, acrescente um pouco de açúcar e o suco de oito limões, as raspas de meio limão. Sirva a água de uma jarra na outra várias vezes. Pressione contra um guardanapo limpo.

A avó, uma alquimista, um fio de ouro dessa vida difícil, conjurou belezas nas coisas deixadas para trás. Encontrou cura onde não havia. Descobriu o antídoto em seu próprio kit. Quebrou a maldição com suas duas mãos. Você passou essas instruções para sua filha, que passou então para sua filha.

Eu tive meus altos e baixos, mas sempre encontrei uma força interior para me reerguer. Me deram limões, mas eu fiz uma limonada. Minha avó dizia: ‘nada que é real pode ser ameaçado’. O amor verdadeiro trouxe a salvação para mim. Com cada lágrima veio a redenção e os meus torturadores tornaram-se meu remédio. Então, nós iremos nos curar. Vamos começar de novo. Você trouxe a orquestra, os nadadores sincronizados.

Você é o mágico. Junte-me de novo, da mesma forma que me cortou no meio. Faça a mulher que tem dúvidas desaparecer. Tire a mágoa entre as minhas pernas como seda. Nó depois de nó depois de nó. O público aplaude… Mas nós não conseguimos ouvi-los.”