Um lembrete: depressão não é dieta

Um lembrete: depressão não é dieta

Ontem (15), a manchete de uma reportagem do portal R7 circulou durante todo o dia na internet. Ela dizia: “Após perder o pai e o emprego, atriz emagrece 15 quilos e fica gata”.

A artista em questão é Guta Stresser, que viveu a personagem Bebel em “A Grande Família” da Rede Globo. Ao longo dos 14 anos que ficou na atração, a atriz ganhou alguns quilos e, com o fim da série, viu seu contrato com a emissora terminar e perdeu seu pai. Nessa mesma época, Guta optou por mudar seus hábitos alimentares e a fazer exercícios físicos, o que de fato a levou a perder peso.

Em entrevista ao site Pure People na pré-estreia de seu novo filme “Ninguém Entra, Ninguém Sai”, ela deu mais detalhes sobre a dieta, que contou com o acompanhamento de uma nutricionista.

“A alimentação é o mais natureba possível. Muito ovo, principalmente cozido, arroz integral, muita fruta, legumes não muito calóricos e vegetais. Comida ‘viva'”, afirmou. Guta acrescentou ainda que seus exercícios incluem yoga e muay thai.

Tudo isso é para dizer que essa foi a forma que a artista encontrou para perder peso. Mas você não saberia ao ler apenas a manchete sensacionalista do R7, que vende a depressão com uma ‘ótima dieta’.

Eu não estou aqui para julgar o que cada um resolve fazer com seu próprio corpo. Meu problema está com o título escolhido pelo portal de notícias para falar sobre a perda de peso de Guta Stresser. Parece muito com um título feito pela Cosmopolitan americana ao noticiar a perda de quase 20 quilos de uma mulher “sem QUALQUER exercício”, como a própria publicação fez questão de frisar.

O segredo? A mulher, que tinha um tipo raro de câncer, buscou um programa de nutrição. Contudo, quem clicasse na matéria, veria logo a luta da mulher contra a doença, para só depois entender que ela não tinha a ver com a perda de peso. Com a óbvia repercussão negativa, a Cosmopolitan mudou a chamada de sua matéria.

Há problemas em ambas situações, especialmente com o sensacionalismo para vender uma informação para o público feminino, pois as duas publicações desumanizaram as mulheres centrais de suas histórias, exaltando a perda de peso como uma forma de prêmio sobre o bem-estar delas. Um lembrete importante: câncer e depressão não são dietas. 

Também, em ambas as situações, as complicações de saúde não estão ligadas à perda de peso das duas mulheres. Tampouco se sabe se Guta teve depressão após perder o pai e o emprego. Mas, de novo, você jamais saberia somente pelo título da matéria.

A depressão, atualmente, é a maior causa de incapacitação no mundo, segundo dados da Organização Mundial de Saúde, que afirma que o número de pessoas com esse transtorno mental aumentou quase 20% na última década. Isso fez com que o Dia Mundial da Saúde deste ano fosse dedicado ao tratamento da depressão. Esse mal chega a paralisar um indivíduo, fazendo-o perder interesse em tarefas cotidianas e que gosta de fazer, levando-o, inclusive, a perder o interesse pela própria vida. Estima-se que 90% dos casos de suicídio estejam ligados à doenças mentais tratáveis. Entre elas, está a depressão.

Portanto, é irresponsável colocar em uma mesma sentença fatos que poderiam ser a causa de complicações emocionais sérias na vida de uma pessoa com a ‘recompensa’ de que ela emagreceu. Esse é mais um exemplo negativo de uma mídia e sociedade que veem o emagrecimento como um prêmio a ser conquistado, ainda que que ele custe a vida de um indivíduo. 

Talvez eu precise reforçar que não tenho problema algum com o fato de que Guta Stresser perdeu peso, muito menos com a forma escolhida por ela para conquistar o que queria (que vale lembrar, foi feita a base de exercícios e dieta controlada por uma nutricionista). O ruim é a forma escolhida para noticiar o emagrecimento da atriz.

Depressão não é dieta. E emagrecimento não deveria ser um ideal a ser buscado a todo custo. E já passou da hora da mídia parar de reforçar esse discurso tão nocivo. Há pessoas adoecendo e morrendo em busca do ‘corpo perfeito’. Principalmente mulheres.

A caça por cliques não deveria vir acima do bem estar de uma pessoa e da ética jornalística. Nós podemos fazer melhor.


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