Quase um ano depois, o que aprendemos com o episódio da “negra raivosa” envolvendo Shonda Rhimes?

07. setembro 2015 Televisão 1
Quase um ano depois, o que aprendemos com o episódio da “negra raivosa” envolvendo Shonda Rhimes?

Há quase um ano, a série “How To Get Away With Murder” era lançada e há quase um ano, a jornalista Alessandra Stanley, do jornal The New York Times, escreveu uma crítica sobre a nova produção de Shonda Rhimes, que aposta em histórias protagonizadas por mulheres e minorias. O então novo seriado e “Scandal”, ambos criados por Rhimes, possuem mulheres negras no papel principal, o que deveria ser elogiado, devido à baixa representatividade dessas mulheres em Hollywood.

Contudo, Alessandra escolheu péssimas palavras para se referir à produtora americana, escrevendo:  “Quando Shonda Rhimes escrever sua autobiografia, deveria ser chamada de ‘How To Get Away With Being An Angry Black Woman’ (“Como  se Livrar Sendo Uma Mulher Negra Raivosa”)”. Indo além, ela se referiu a Viola Davis, protagonista da série como uma mulher “mais velha, com a pele mais escura e que possui uma beleza menos clássica do que Kerry Washington [a Olivia Pope de “Scandal”] ou, a propósito Halle Berry”.

Viola Davis chegou a responder ao comentário da jornalista do The New York Times. No People’s Choice Awards do ano passado, realizado em outubro, a atriz levou o prêmio de “Atriz Favorita em um Nova Série de TV” e agradeceu em seu discurso dizendo: “Obrigada, Shonda Rhimes, Betsy Beers e Peter Nowalk, por pensarem numa protagonista que possui a minha ‘beleza clássica'”.

Mas voltando a Shonda Rhimmes, a roteirista e produtora voltou a falar sobre o assunto recentemente, em uma entrevista ao Entertainment Weekly, contando que hoje vê um lado positivo naquele episódio. “Rapidamente, talvez por causa do Twitter, vários artigos lindos foram escritos em resposta, o que me fez sentir que há pessoas que pensam por aí”, refletiu. “Porque se não houvesse comentários, eu sentiria que ‘é isso o que está aí’. Eu lembro ter começado o dia de uma forma e terminá-lo sentindo-me acolhida”.

O curioso é que a mesma publicação que entrevistou Rhimes, a Entertainment Weekly, foi acusada há pouco tempo de propagar o mesmo arquétipo da “negra raivosa”. Após a troca de tweets entre Nicki Minaj e Taylor Swift, onde a primeira fazia uma crítica ao racismo da indústria musical e do Video Music Awards (VMA), o site noticiou o acontecimento publicando uma imagem antiga da rapper, que fazia uma careta para uma foto, ao lado de uma foto da calma e elegante voz de “Blank Space”. A revista apagou a imagem em seguida, pedindo desculpas pela escolha “insensível de fotografias”.

https://twitter.com/lilfrangel/status/623678685896245248?ref_src=twsrc%5Etfw

Tweet 1: “Vamos discutir a preferência de fotos do EW para representar Nick vs Taylor no último tweet/artigo?”

Tweet 2: “Mais cedo, uma versão do nosso post sobre Taylor & Nicki teve uma insensível justaposição de imagens. Foi uma escolha apressada e nós pedimos desculpas sinceras”.

Tweet 3: “Por ‘apressada’ vocês querem dizer ‘racista'”.

O estereótipo da “negra raivosa” é usado para silenciar mulheres negras que denunciam o preconceito e discriminação as quais estão submetidas. “Se mulheres negras não são representadas como hiper-sexualizadas, ladras de homens ou doces amas com cuidado ilimitado para dar aos nossos patrões brancos, somos um grupo colérico conhecido como Negras Raivosas”, escreve Huda Hassan em seu artigo para o Buzzfeed.

“Me parece que ‘Negras Raivosas’ serve para silenciar mulheres e, em particular, para apagar nossa identificação de racismo e machismo. Embora, mulheres negras existam na intersecção desses dois sistemas de opressão, mulheres negras não poderiam estar chateadas, com razão, sobre algum deles (ou ambos). Somos raivosas porque está na nossa natureza. Somos raivosas sem motivo”.

Tweet de Amandla Stenberg, atriz americana negra: “Acabem com a narrativa da ‘garota negra raivosa’. É apenas outra tentativa de minar certas perspectivas. Eu tenho opiniões fortes. Eu não sou raivosa”.

O arquétipo da “negra raivosa” além de silenciador, serve para desqualificar a mulher negra vítima de violência, afinal ela está “muito louca para acreditarem e com raiva o suficiente para justificar uma retaliação física”, como escreve Huda Hassan.

Um ano depois do episódio da “negra raivosa” envolvendo Shonda Rhimmes, lembramos como esse arquétipo serve apenas para diminuir e silenciar mulheres negras. Mas mais importante, percebemos como elas não engolirão mais essa. “Estou fazendo a televisão parecer como o mundo é”, disse a produtora certa vez. Mulheres negras são como todos seres humanos: multidimensionais. E é passada a hora da mídia reconhecer isso.