Transformar o Shun em mulher não é um ganho para a representatividade

09. dezembro 2018 Televisão 0
Transformar o Shun em mulher não é um ganho para a representatividade

Ontem (8), a Netflix divulgou o primeiro trailer de “Saint Seya: Os Cavaleiros do Zodíaco”, sua nova série animada, que visa recontar a história do famoso anime da década de 90.

Quando pequeno, eu e meus irmãos sentávamos juntos para assistir as aventuras de Seya, Shiryu, Hyoga, Shun e Ikki, cada um com o seu cavaleiro favorito. Desde sempre, Shun era o meu preferido, pois eu conseguia me conectar com ele: era um personagem sensível, que evitava ao máximo lutar e defendia seus amigos com muita dedicação. Infelizmente, cresci ouvindo que tais características não eram de um “homem de verdade”, pois ser esse tal “homem de verdade” requer agressividade e uma recusa a sentimentos (e qualquer coisa que seja associada ao feminino). Some isso ao fato de que ele usava uma armadura rosa, e entenda por qual motivo, levei um tempo até perder a vergonha e voltar a dizer que Shun era meu cavaleiro favorito.

Talvez nem fosse a intenção de Masami Kurumada (autor dos “Cavaleiros do Zodíaco”) mostrar que uma outra forma de masculinidade era possível, mas hoje, vejo como é importante ver que você pode ser um homem delicado e ainda ser forte. De alguma maneira,”CdZ” demonstrava que estava tudo bem ser quem você é; o que importava mesmo era o seu coração e sua lealdade aos seus princípios e aos seus amigos.

Esse pretexto é necessário para comentar sobre a nova edição dos “Cavaleiros do Zodíaco”. Nessa versão, novos elementos foram adicionados e algumas coisas foram trocadas. Talvez a mudança mais sentida seja o gênero de Shun, que agora é uma mulher. Embora o trailer da Netflix deixe algumas dúvidas acerca disso, pelo Twitter, Eugene Son, roteirista da produção, confirmou que Shun é, de fato, uma mulher. E seu nome é Shaun.

“Por que mudar Andrômeda? Essa é totalmente comigo. Quando começamos a desenvolver essa nova série atualizada, queríamos mudar pouca coisa”, escreveu Son. “A única coisa que me deixava preocupado é: o Cavaleiros de Bronze que acompanham o Seiya são todos homens. A série sempre teve personagens femininas fortes, que reflete o enorme número de mulheres que são apaixonadas pelo mangá e anime. Mas há 30 anos, ter um grupo de homens sem nenhuma mulher lutando para salvar o mundo não era uma questão. Esse era o padrão. Hoje o mundo mudou. Homens e mulheres trabalhando lado a lado são o padrão. Estamos acostumados a ver isso. Certos ou errados, o público poderia interpretar uma equipe completamente masculina como uma mensagem passada por nós. E talvez 30 anos ver mulheres lutando entre si não era algo. Mas hoje não é o mesmo”.

O roteirista continuou, acrescentando que ninguém gostaria de ver Saori, Marin ou Shina, personagens femininas adoradas pelos fãs, transformadas em cavaleiras de bronze. Também disse que não pegaria bem acrescentar uma nova personagem, apenas para que ela fosse “a menina do grupo”. Então, a ideia que ele teve foi a de transformar Shun em uma mulher, apesar de saber que haveriam críticas.

“Os conceitos principais de Andrômeda não vão mudar. Ela usa as correntes para defender a si mesma e aos amigos – algo que ela aprendeu com o irmão protetor que a ensinou a lutar”, disse Eugene. “Se você achar que é estranho e não gostar disso, eu entendo. Até mesmo na Toei aconteceu bastante de ‘você tem certeza?’. Os maiores fãs de Shun realmente o amam, mas espero que vocês assistam quando estiver disponível e digam o que acham. Sei que muitos já odeiam. Até mesmo na Toei, Andrômeda é o personagem preferido e isso parece um tapa na cara. Então se você odeia isso e acha que essa série não é para você, sem problemas, eu entendo. Valorizo sua paixão por Cavaleiros, mas eu vou fazer isso”.

E embora eu seja super a favor de colocar uma mulher na equipe, eu me pergunto: por que o Shun? Além de ser uma escolha preguiçosa (afinal, o personagem mais sensível de todos foi o escolhido), ela reforça que se você é um homem que demonstra sentimentos e que não segue a cartilha da masculinidade tóxica de violência, então, “Cavaleiros do Zodíaco” não é para você. Nessa nova versão ser forte não combina com sentimentos.

Na tentativa de deixar a obra relevante e que acompanha as transformações sociais dos últimos anos, Eugene Son e a equipe por trás do novo “CdZ” limita a representação para meninos mais delicados (que podem, ou não, ser gays). Ou você é um homem que gosta de pancadaria ou você é uma mulher. E não há problema algum em ser uma mulher guerreira: Arya Stark (Maisie Williams) e Brienne de Tarth (Gwendoline Christie), do seriado “Game of Thrones”, são lutadoras espetaculares. Mas transformar Shun em uma garota é reforçar a ideia de que a sensibilidade e que não gostar de ferir alguém não são qualidades masculinas. 

Eu ouvi muito dos meus amigos e familiares, quando eu era pequeno, que Shun era “viado” e que não era legal gostar tanto dele. Hoje, é como se o novo “Cavaleiros do Zodíaco” concordasse com as falas homofóbicas que sempre escutei. Todas elas estão respaldadas na figura de uma cavaleira muito forte, mas que só poderia ser uma mulher para ter determinadas características. 

O anime só será lançado no ano que vem, mas já simboliza uma perda significativa para meninos e meninas dessa nova geração, que receberão mais uma produção que tonifica o imaginário de que, para ser homem é sinônimo de agressividade. E não é. O Shun original prova que há outras formas de existir. E essa imagem não há quem apague.