Tome nota, Hollywood: produções com elenco diverso são mais lucrativas e geram mais audiência

29. março 2016 Cinema 1
Tome nota, Hollywood: produções com elenco diverso são mais lucrativas e geram mais audiência

Diversidade vende, embora os grandes executivos dos estúdios e produtoras de Hollywood ainda resistam a essa ideia.

Desde 2014, o Ralph J. Bunche Center for African American Studies, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA, na sigla em inglês), realiza o “Hollywood Diversity Report”, um estudo que avalia as produções lançadas no cinema e na televisão, examinando raça e gênero de quem atua na frente e atrás das câmeras, e compara os resultados encontrados com os números de bilheteria e audiência.

No relatório de 2016, sem surpresa alguma, foi constatado que filmes com elencos mais diversos foram mais lucrativos nas bilheterias do mundo todo. Além disso, produções televisivas obtiveram um retorno de audiência muito maior quando o elenco é, pelo menos, 40% mais diverso. Nos anos anteriores, a conclusão foi a mesma. Ainda assim, minorias étnicas e mulheres continuam sendo sub-representadas em quase todas as funções dentro de Hollywood.

O Ralph J. Bunche Center for African American Studies analisou os 163 filmes americanos lançados em 2014, bem como as 1.146 produções televisivas e de streaming das temporadas 2013 e 2014. A média de arrecadação global dos longas com 41 a 50% do elenco diverso foi de US$ 122 milhões; cifras muito maiores do que aquelas encontradas em filmes com 10% ou menos de diversidade: US$ 52,6 milhões. O estudo mostra, também, que o retorno sobre investimento, isto é, a margem de lucro sobre o volume de dinheiro gasto na produção de um longa, foi maior entre aqueles com elenco até 50% mais diverso nas bilheterias do mundo todo.

“O corpo homogêneo de pessoas que tomam as decisões fez poucos tipos de projetos diversificados, deixando bilhões em receita na mesa”, diz Darnell Hunt, presidente do centro responsável pelo relatório.

Cena do seriado "Jane The Virgin"
Cena do seriado “Jane The Virgin”

Recentemente, o ator Don Cheadle revelou ter encontrado dificuldades para conseguir financiamento para seu mais novo filme, “Miles Ahead”, cujo elenco é composto por negros. Para tirá-lo do papel, foi preciso incluir um ator branco, Ewan McGregor. “Ter um ator branco nesse filme acabou sendo um imperativo financeiro”, disse o veterano, segundo o Mic. “Há diferentes métricas, as quais são determinantes se é um risco ou não para aqueles que vão investir nos filmes. Essa é uma das realidades nessa indústria em que estamos.”

“A sabedoria convencional diz que não podemos ter um protagonista pertencente a uma minoria porque ele não será bem recebido em território estrangeiro – e os filmes fazem a maior parte do dinheiro lá”, comentou Darnell Hunt para a revista Variety. “O que o nosso estudo sugere é que essa lógica é falha.”

Basta olhar para o filme de maior bilheteria nos Estados Unidos e o 3º no ranking mundial, “Star Wars: O Despertar da Força”, cujos protagonistas são um negro, uma mulher e um ator latino. No ano passado, “Straight Outta Compton” e “Velozes e Furiosos 7”, por exemplo, também foram muito bem de bilheteria globalmente. Então, sim, Hollywood vai continuar perdendo dinheiro, caso os homens brancos em ternos e gravatas, os quais comandam a indústria, continuem a ignorar as minorias em seus projetos.

Cena de "Straight Outta Compton"

O mesmo relatório do Ralph J. Bunche Center for African American Studies descobriu que, quanto mais diverso o elenco de um determinado filme, mais minorias vão assisti-lo. Quando ele possui entre 41 e 50% de minorias étnicas, 58,2% dos ingressos são comprados por minorias (sendo 23,4% negros, 23,7% latinos e 11,1% asiáticos). Ou seja, isso sugere que as pessoas estão atrás de conteúdos em que se vejam representadas. Afinal, se hoje as minorias representam 40% da população americana, é justo que, assim como qualquer outra pessoa, elas queiram e devam se enxergar nos produtos culturais que consomem.

No que diz respeito à televisão, o “Hollywood Diversity Report” descobriu que, entre as 1.146 atrações (somadas TV aberta, a cabo e streaming), aquelas com até 50% do elenco diverso atraíram mais audiência, especialmente entre o público de 18 e 49 anos. Ainda assim, a maioria das atrações possuem 20% ou menos de artistas vindo de minorias.

Não há apenas uma solução para o claro problema de diversidade em Hollywood. São necessárias diversas ações para que as produções reflitam os Estados Unidos – e até o mundo em que vivemos. Não é só uma questão de representação, contudo, mas também de oportunidades a grupos marginalizados, os quais ainda enfrentam a falta de espaços para trabalhar.

“A resposta adequada ao problema de raça e gênero de Hollywood requer mais do que esforços token [uma pessoa representando todo um grupo] e representações de fachada”, diz o estudo. “Requer gestos ousados que rompam os atuais negócios da indústria, os quais não ajustem somente a ótica em frente à tela, mas que também revisem o maquinário criativo e executivo atrás dela. A decisão da Academia de revisar fundamentalmente sua filiação, em meio ao furor causado pela #OscarsSoWhite deste ano – além da recente escolha da primeira negra para comandar um grande canal de televisão, a ABC – constituem um movimento crítico, de quebra de paradigmas na direção certa.”

H/T: Judão.