Porte de armas e dor negra se misturam no poderoso clipe de “This Is America”, de Donald Glover

06. maio 2018 POP 0
Porte de armas e dor negra se misturam no poderoso clipe de “This Is America”, de Donald Glover

Donald Glover é um homem de muitos talentos. Além de ator, ele é também diretor, roteirista, criador do seriado “Atlanta” e até músico. Com o nome de Childish Gambino, ele já lançou 3 discos, tendo o último, “Awaken, My Love”, conquistado 5 indicações no Grammy Awards deste ano, incluindo Álbum do Ano.

Mas a versatilidade de Donald é só mais uma de suas qualidades, já que ele é também ativista pelos direitos dos negros nos Estados Unidos. Isso se reflete em seu trabalho e, mais especificamente, em sua música mais recente “This Is America”, lançada hoje (6). A canção é a primeira desde o disco “AML”, de 2016.

Nela, o cantor faz uma crítica sobre o desregulado porte de armas, ao mesmo tempo em que fala sobre a apatia das pessoas sobre a violência, especialmente quando os mortos são negros. Junto da música, Glover liberou um clipe cheio de simbolismos e que bota todo mundo para pensar.

O vídeo se passa em um grande galpão e começa com o músico dançando sem camiseta. Parece mais um clipe divertido, até que Donald pega uma arma e atira em um homem com capuz sentado em uma cadeira. Nessa mesma hora, a música toca: “essa é a América”.

Em seguida, ele dança acompanhado por um grupo de estudantes, para depois pegar um rifle e matar cantores gospel. Essas mortes têm relação com o massacre de Charleston, na Carolina do Sul, quando um atirador branco matou 9 pessoas negras em uma igreja em 2015. “Essa é a América”, repete Childish Gambino no vídeo.

Dirigido por Hiro Murai, que já trabalhou em outros clipes de Donald Glover e no seriado “Atlanta”, “This Is America” faz uma pesada crítica ao porte de armas e às vidas perdidas. Enquanto armas circulam livremente e são tratadas com cuidado, negros são mortos e poucos parecem se importar com o que acontece.

O porte de armas nos Estados Unidos é um tema que não sai de pauta, por conta dos diversos tiroteios que tomam lugar no país. De acordo com o Gun Violence Archive, até o momento, os EUA registraram quase 20 mil incidentes envolvendo armas, os quais mataram quase 5 mil pessoas. Até maio, ocorreram 85 tiroteios em massa em território americano. Por lá, é função dos estados regulamentarem o porte de armas de fogo, mas é possível perceber pelos números que pouco foi feito para impedir que a população tenha facilidade para adquirir armamento.

No Brasil, desde 2003, vigora o Estatuto do Desarmamento, lei sancionada pelo então presidente Luís Inácio Lula da Silva, e que proíbe o porte de armas por civis, salvo profissionais que trabalham com segurança pública ou defesa nacional. Contudo, a legislação está ameaçada por um projeto de lei (PL) do senador Wilder Morais (PP-GO), que defende um plebiscito para decidir se toda e qualquer pessoa pode andar armada no país. Segundo uma pesquisa realizada pelo portal E-Cidadania, mais de 338 mil pessoas são a favor, enquanto apenas 15 mil são contra a proposta.

A violência é um problema complexo e não tem uma solução fácil. Porém, a liberação de armas de fogo não é a melhor alternativa para conter a criminalidade ou dar mais segurança à população. Se algo podemos tirar da mensagem de “This Is America”, é que é preciso de mais esforços para impedir que pessoas tenham acesso facilitado a armas. E essa é uma questão urgente.