Fiquei com medo do futuro após assistir a “The Handmaid’s Tale”

12. fevereiro 2018 Televisão 0
Fiquei com medo do futuro após assistir a “The Handmaid’s Tale”

Tão logo as primeiras impressões sobre “The Handmaid’s Tale” saíram, fiquei curioso para assistir ao seriado. Levei um tempo para começar, pois tenho a mania de ver uma série por vez e, assim que chegou a vez da produção do Hulu, confesso que parei depois de três episódios.

Não é fácil assistir a “The Handmaid’s Tale”. Não é. Ambientada em um Estados Unidos do futuro, as mulheres são presas e transformadas em empregadas em casas de famílias, cuja única função é a reprodutiva. Uma vez por mês, durante o período fértil, elas são forçadas a participar da “Cerimônia”, um nome menos dramático para estupro.

Ela são estupradas pelos homens da casa, apoiadas pelas esposas, já que essas não podem ter filhos. Caso engravidem, elas são tratadas com todo o cuidado, para que levem gestação até o final, para depois, ao final, a criança seja entregue ao casal e ela vá para outra casa e repita a mesma vida. E isso continua até que ela não seja mais capaz de ter filhos. Tudo isso acontece com o apoio do Estado, que toma por base os escritos bíblicos.

É simplesmente difícil de assistir à série.

Depois de três episódios, eu parei para respirar. Parei para ver outras coisas, tamanho meu horror com o que via. Mas aproveitando o feriado de Carnaval, decidi ir até o fim. E aqui estou eu. Chorei e me enfureci com cada episódio. Vibrei com pequenas conquistas, mas ao final, a única coisa que pensei foi: nós não podemos deixar que o mesmo aconteça.

Entendo que isso possa parecer um exagero, já que não vivemos na mesma realidade de Offred (Elisabeth Moss) ou das outras mulheres da série. Ainda assim, como diria a filosofa e escritora Simone de Beauvoir:

“Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida”.

E foi aos poucos que os direitos das mulheres em “The Handmaid’s Tale” foram extinguidos: cartões de crédito foram cortados, empregos foram perdidos e suas famílias separadas. Suas escolhas foram limitadas até não existirem mais. Aliás, isso é algo que Offred diz em vários momentos ao longo dos 10 episódios da série: “eu não tenho escolha”.

E quando olhamos para o cenário atual, percebemos o quanto caminhamos pelos direitos das mulheres e o quanto ainda precisa ser buscado: há menos de 100 anos, as brasileiras eram impedidas de votar. Em alguns países, isso ainda persiste, assim como ainda persiste a obrigatoriedade do casamento. Foi só em 1977 que o Brasil implementou a Lei do Divórcio, permitindo que as mulheres pudessem se separar de seus maridos. Por aqui, há pouco mais de 10 anos, entrou em vigor a Lei Maria da Penha, que apoia mulheres que sofrem violência doméstica. E isso não é tudo: a permissão para que elas pudessem frequentar universidades e trabalhar fora sem a necessidade da autorização de seus esposos, aconteceram também nos últimos 121 anos.

Ainda assim, o direito e o acesso ao aborto seguro continuam não permitidos. A cada 11 minutos, uma mulher é estuprada no Brasil. Em 2018, as mulheres ainda não recebem o mesmo que os homens (o salário pago às mulheres negras é ainda menor), o assédio no ambiente de trabalho e nas ruas persiste, e o julgamento pelo comprimento das roupas, pela forma de falar, agir ou simplesmente existir é alvo de escrutínio social. 

Por isso, quando terminei de ver “The Handmaid’s Tale” temi pelo futuro. Pois, por mais que conquistas reais tenham sido feitas, é impossível não pensar em como as situações retratadas na tela podem vir a acontecer fora dela. Não é exagero pensar nisso, quando percebemos o quanto o mundo ainda é desigual e injusto com as mulheres, sejam elas negras, brancas, indígenas, árabes, ricas, pobres, heterossexuais, lésbicas, bissexuais, transgêneras, cisgêneras…

No seriado, algumas mulheres têm algum poder, como Serena (Yvonne Strahovski), que é a patroa de Offred e a trata com crueldade. Assim como na nossa sociedade, o patriarcado precisa do apoio de algumas mulheres para a manutenção de seu sistema. Na série, isso não é diferente, mas até ali, naquele cenário absurdo, essas mulheres têm suas escolhas limitadas e sofrem por não terem liberdade.

A quantidade de prêmios que “The Handmaid’s Tale” é completamente justificada. Elisabeth Moss, Samira Wiley, Madeline Brewer e Alexis Bledel são nossas guias pelas dores às quais as mulheres são submetidas, e fazem isso com maestria. Embora suas personagens sejam dominadas, ao se juntarem, elas provam que uma revolução é possível. Basta todas darem as mãos.