Ter depressão é como viver no ‘Mundo Invertido’ de “Stranger Things”

07. novembro 2017 Televisão 0
Ter depressão é como viver no ‘Mundo Invertido’ de “Stranger Things”

Eu não fui tão rápido para maratonar “Stranger Things” quanto as mais de 15 milhões de pessoas que assistiram à série logo na estreia da segunda temporada, mas tenho conseguido acompanhar (no meu ritmo), o desenrolar da trama de Mike, Will, Lucas, Dustin, Eleven e, agora, Max.

E quanto mais assisto, mais tenho a impressão de que o seriado da Netflix utiliza a narrativa do ‘Mundo Invertido’ para fazer uma metáfora sobre como é viver com depressão. Para quem não se recorda ou não assiste à produção, eis alguns pontos importantes: “Stranger Things” é ambientada na década de 80, cujo foco é a vida de um grupo de meninos, os quais levam uma vida igual a de qualquer outro garoto, até que um deles, Will (Noah Schnapp), some misteriosamente. Na busca pelo amigo desaparecido, eles acabam descobrindo o ‘Mundo Invertido’, que é exatamente como o nosso, mas sombrio, escuro, onde criaturas estranhas habitam.

Pela breve descrição, é possível entender onde eu quero chegar com a minha comparação entre a ficção e uma doença mental real, e que atinge 322 milhões de pessoas no mundo todo. É um número que aumentou quase 20% nos últimos 10 anos, de acordo com dados deste ano da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Na segunda temporada de “Stranger Things”, Will lida com os efeitos que o tempo no ‘Mundo Invertido’ causou nele. De uma hora para outra, ele é transportado para lá e vê uma grande criatura, que possui a forma de uma aranha e feita de sombras, mas muito mais assustadora. Os dois desenvolvem uma certa conexão, se assim posso dizer. No consultório médico, o garoto tenta descrever o que sente quando está ‘do lado de lá’: “congelado”. Mais para frente, ele diz à mãe que foi pego pelo monstro e que o sentiu “em todos os lugares”. “Só quero que isso acabe”, ele conclui aos choros para Joyce (Wynona Ryder).

Ao chegar nesse episódio, instantaneamente eu disse em voz alta: parece como viver com depressão. E eu digo isso por experiência própria. Os tristes relatos de Will lembram muito o período que batalhei com a minha própria mente (e ainda faço isso em alguns momentos). Assim como ele relata, a depressão me paralisava, como se eu estivesse mesmo congelado. Eu não conseguia reunir forças para levantar da cama ou me questionava o motivo para fazê-lo. Por que eu tinha de sair dali, se o peso que eu sentia sobre o meu peito não sairia dali? 

Quando você tem a doença, é muito comum a perda de interesse e de vontade em fazer coisas que antes eram prazerosas ou até mesmo rotineiras. Não só eu, mas muitas pessoas criam essa apatia pela vida, como se aos poucos ela fosse perdendo o sentido. De repente, até mesmo ficar perto de familiares e amigos se torna uma tarefa que você quer evitar, seja pelo cansaço, seja porque sente que é um peso e ninguém realmente gosta de você (sua visão de mundo fica deturpada). 

E é aí que você vai entrando no ‘Mundo Invertido’: ele é exatamente como o real, mas sem vida, sem cores, sombrio, assustador e solitário. Você tenta sair dali, mas nem sempre consegue. No caso de Will, seus amigos e sua mãe estão sempre por perto para impedir que ele tenha os ‘episódios’. Em outras palavras: para impedir que ele seja ‘sugado’ para o ‘Mundo Invertido’. Embora esteja, fisicamente, na mesma dimensão de todos, a mente do menino está em outro lugar. Um lugar terrível, do qual ele não consegue sair sozinho.

Se você já vivenciou a depressão, consegue entender o que é estar ‘preso’ dentro de sua própria de suas angústias. Sua percepção da realidade fica completamente  distorcida, e sem um bom sistema de apoio, é fácil se perder no caos da própria mente. Will tem a sorte de ter pessoas à sua volta, que mesmo não entendendo exatamente o que está acontecendo com ele, tentam ajudá-lo de alguma maneira. Infelizmente, a depressão e outras doenças mentais são muito estigmatizadas e vistas como ‘frescura’ ou algo sem tanta importância. Esse apoio que o garoto tem é fundamental para enfrentar a criatura sombria que vê.

Contudo, nem todos têm a mesma sorte e acabam cedendo ao transtorno mental. Segundo a OMS, o distúrbio já é a doença mais incapacitante do mundo. Vale dizer, também, que muitos casos acabam em suicídio.

E assim como Will, eu conseguia senti-la em todos os lugares. Era como se a depressão me prendesse por cordas invisíveis à minha cama, ou à minha cadeira. Eu tentava me desprender, mas os esforços eram em vão. Em dias bons, eu conseguia sair e me divertir, assim como o personagem de “Stranger Things”, mas tão logo algo pequeno acontecia, lá estava eu petrificado novamente. De volta ao ‘Mundo Invertido’. Eu sabia que era amado pela minha família e amigos, sabia que podia contar com eles, mas não conseguia sentir esse amor todo. Pior ainda: eu não me achava merecedor dele.

Tempos depois, confesso que ainda tenho crises onde me vejo preso a uma falsa realidade, que me força a ir para baixo. Eu tento muito lutar contra esse sentimento, assim como Will. Estamos os dois em uma jornada de expulsão de nossos demônios. Não é uma tarefa fácil, mas estamos tentando. E como a história dele é mais curta e vai até o episódio 9, eu mal posso esperar para ver como ela termina. E eu espero que tudo acabe bem para ele. 


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