Sobre sair do armário…

Sobre sair do armário…

Esse é um texto que eu venho adiando, mas sinto que ele precisa sair. Engavetei essas palavras há um certo tempo, contudo, o texto do Rafael Koerich me fez criar coragem para colocar em parágrafos esse turbilhão de sentimentos diferentes que é sair do armário.

Tenho dois irmãos: um gêmeo e outro que é pouco mais de um ano mais novo. São as pessoas que eu mais amo nesse mundo todo, mas sempre me senti diferente deles. E quando digo sempre, essa estranheza vem desde quando éramos pequenos. Algo em mim não me tornava igual a eles. Havia algo que eu não conseguia explicar, que me fazia sentir esquisito. Com meus primos e amigos, o mesmo sentimento sem nome.

Isso não atrapalhava o meu relacionamento com ninguém, mas só quem já teve esse sentimento de “não pertencer” talvez entenda o que eu escrevo.

Na creche, eu tive uma namorada, a Tamires. Dela, lembro-me apenas dos longos cabelos pretos e encaracolados que eu adorava. Era um namoro de criança: sem beijo, mãos dadas às vezes, abraços esporádicos… Era divertido. Nunca mais vi a Tamires depois dessa fase escolar. Nessa época ainda, tive muitas amigas. Amigos eram bem poucos. Já meu gêmeo tinha mais amigos.

Na escolinha, eu gostava de brincar de bonecas com as meninas, algo que a professora não deixava, e os meninos me zombavam. Lembro-me de um dia, quando um menino que vivia pegando no meu pé, me chamou de “maricas”. Foi o suficiente pro meu irmão partir para cima do garoto. Augusto sempre foi mais esquentado do que eu. Sempre deixei me agredirem, verbalmente e fisicamente, sem revidar; ele, no entanto, era bem o contrário de mim.

O tempo foi passando, e o sentimento de inadequação só foi aumentando: por algum motivo, eu me sentia representado em personagens femininas, nas novelas, nos filmes, nos desenhos… Era algo bem louco na minha cabeça, afinal, eu deveria me identificar com personagens masculinos, não? Não era esse o certo? Se havia um personagem, homem, com quem rolava uma identificação, era o Shun de Andrômeda, dos Cavaleiros do Zodíaco. Ele usava uma armadura rosa, era sensível e odiava lutar. “Parece comigo”, eu pensava. Mas, exceto o Shun, todas minhas personagens preferidas eram meninas: a Sakura Card Captors, a Sailor Júpiter, a Misty do Pokémon e a Mimi do Digimon.

Vale acrescentar que, por mais que eu tivesse uma família católica, meus pais nunca viram problema em nada disso que eu gostava. Nesse sentido, tive sorte. Meus pais não quiseram saber o sexo dos bebês antes do parto, portanto, roupas rosas ou violetas vestiam a mim e meus irmãos. Não era uma dor de cabeça. Além disso, meu pai até fez um báculo igual ao que a Sakura usava no desenho. Afinal de contas, eu era um criança e só queria brincar.

E nesse meio tempo, eu aprendi a escrever e a gostar de escrever. Meu pai tinha uma oficina no fundo da casa, e fez uma escrivaninha para mim, onde eu escrevia minhas histórias. Eu pegava folhas sulfite, dobrava-as ao meio, grampeava-as, e escrevia contos infantis, com ilustrações que eu fazia com meus próprios lápis coloridos. Foi nessa época que eu soube que sempre queria escrever. Sempre foi minha terapia. Até hoje.

No entanto, se existe algo terrível na vida, ela se chama escola. Conforme fui crescendo, o meu jeito “diferente” foi me afastando dos meninos e me aproximando das meninas. Ainda assim, os desenhos que eu gostava, minhas personagens preferidas, todas elas, foram parar no lixo. De repente, eu tinha vergonha delas. De repente eu tinha vergonha de mim. Ninguém podia saber que eu gostava de coisas ditas “de menina”. O que pensariam de mim? Pior: o que minha família pensaria de mim? Quando criança, meus pais podiam tolerar meus gostos, mas e agora entrando na adolescência?

Eu não me adequava. A minha saída foi ser o estudioso da classe. E isso me custou amizades. Não só porque o “nerd” sempre acaba sendo o mais zoado da turma (como se inteligência fosse algo ruim), mas porque eu usava aquilo que eu sabia contra os meus colegas. E na minha tentativa de compensar meu jeito diferente, acabei afastando muita gente e me isolando.

Foi na adolescência que as coisas pioraram em vários sentidos: havia uma cobrança para que eu começasse a minha vida afetiva e sexual. Meus primos falavam sobre suas paqueras, as namoradas, os rolos… Meus irmãos e eu escutávamos e ríamos de algumas histórias. Todos passaríamos por isso. E eu passaria também. Ou pelo menos isso era esperado. Essa foi a época em que eu percebi que não me sentia atraído por meninas, mas por meninos. E isso foi um choque na minha cabeça. Mas não havia espaço para conversar sobre isso em casa. Nunca houve. Meus pais não aceitavam homossexualidade, apesar de eu nem saber o que era isso. Era tudo muito confuso.

Então, fui me fechando. E fui me forçando a acreditar que era só uma fase, que mudaria assim que eu conhecesse uma menina que tirasse o meu chão. E muitas delas apareceram, mas não tiraram meu chão no sentido que a família esperava. A minha resposta, sempre que me perguntavam se eu gostava de alguém era: “eu não gosto de ninguém”. E era verdade. As meninas eram minhas amigas. Os meninos pareciam bobos e não me atraíam. Alguns eram até bonitos, mas não me chamavam tanta atenção.

Hoje, percebo algo que me fez muita falta: eu nunca tive um amigo gay. Existiam aqueles meninos que a turma desconfiava, mas que jamais assumiriam. Não naquela época. E como eu sempre vivia rodeado por meninas, não gostava de jogar bola, e tinha um gosto esquisito por coisas coloridas, logo, o gay era eu. E foi durante a época do ginásio que a tortura começou. Eu era zoado todos os dias, praticamente. Todo dia havia algo a ser dito sobre mim. Algumas vezes, isso vinha de gente que eu nem conhecia, mas que se sentiam no direito de me atacar. Sozinho em casa, eu chorava. Se Deus existia mesmo, por que me fez tão diferente? Eu só queria estudar, fazer amigos e passar de ano. Por que tinha que ser algo tão difícil? Foi aí que aprendi que ser gay era errado.

No colegial, eu comecei a me impor, o que diminuiu o bullying comigo. Não me entenda mal: quando você é o alvo, você será sempre o alvo. Mas a partir do momento em que falava alto e engrossava a voz, isso parecia me dar alguma trégua no campo de batalha que foi a adolescência. Aliás, sempre que me perguntam, eu digo: não sinto falta de ser adolescente. Nunca sofri tanto na vida. Até as amizades dessa época da vida, quase 95% não vingou. E eu não sinto falta alguma de quem foi embora. Até evito esses convites saudosos no Facebook para relembrar os tempos de colégio.

A falta de um amigo gay me impossibilitou conversar sobre as diversas coisas que se passavam na minha cabeça. Eu não tinha com quem conversar sobre masturbação, beijos, sexo e outras coisas que só pessoas como eu poderiam entender. Eu vivia fechado. E isso ajudou a acabar com a minha autoestima, que já era bem perto de zero. A insegurança que eu carrego hoje, vem de muito tempo.

E bem, já que eu negava veemente que era gay, para os amigos e para a família, afinal, sempre houve uma cobrança dentro de casa também, como era possível eu não ter beijado alguém ainda? Eu estava terminando o colegial, como não beijei uma menina ainda? Como não transei ainda? As cobranças externas já estavam internalizadas. Eu sofria calado. Eu não sabia quem eu era, não tinha com quem conversar e achava que a minha própria existência já era errada. Uma vez apenas eu pensei em tirar minha vida. Foi só uma vez, quando fui até a cozinha, na casa do meu pai, e peguei a faca de cortar carne. Me faltou coragem. Eu parei ali, por vários minutos com ela na mão, mas fui incapaz de dar continuidade ao meu plano. Guardei a faca e corri pro banheiro chorar.

Foi então que, num dia, eu vi um moço grande, forte, na rua. Ele me olhou e eu olhei pra ele. A troca de olhares foi o suficiente para saber que ele estava interessado em mim. Mas eu tinha medo e, claro, me sentia culpado por ser quem eu era. Ainda assim, quando ele fez um sinal com a cabeça para que eu o seguisse, eu fui. Estava confuso, mas uma parte de mim estava curiosa e inquieta demais para não ir atrás. Fui. Ele queria transar ali, num canteiro. Era uma tarde chuvosa. Eu não queria, no entanto, fiquei ali. De alguma forma, o medo de que ele pudesse me bater ou fazer algo comigo era muito maior. Ele era duas vezes o meu tamanho. E se ele me espancasse ali caso eu tentasse fugir? Era um estranho total. Quando ele terminou, eu corri para casa. Chovia muito. No meu rosto, as lágrimas misturavam-se com a água que caía. Tomei banho no minuto que cheguei. Eu me sentia sujo, culpado e com nojo de mim mesmo. E o pensamento de alguém saber o que eu tinha feito não me deixou descansar naquele dia.

Isso é algo que eu nunca contei abertamente para ninguém, até recentemente, quando fiz meus primeiros amigos gays. Aliás, a lembrança desse episódio me faz chorar e ficar mal até hoje. Não sei se eu chamo isso de abuso ou de qualquer outro nome, mas fato é que, desde então, relatos de abusos e estupros mexem comigo. E mexem no sentido de me fazerem mal, muito mal. Parece que eu vivo tudo de novo. Por isso a minha revolta quando alguém desconfia de uma mulher ou criança que diz ter sido abusada. Não admito alguém duvidar do que essas pessoas dizem. É muito dolorido para alguém mentir sobre isso.

Essa foi a única experiência que eu tive. Se eu pudesse, apagaria ela da minha memória, mesmo que tenha moldado uma parte de quem eu sou hoje, para o bem e para o mal. E se cabe dizer, eu nunca fantasiei transar com alguém por amor. Mas sempre quis que fosse com alguém com quem eu me sentisse confortável, e não com um estranho na rua. Me chame de careta, mas é assim que eu penso que todas as relações sexuais deveriam ser: com alguém que você se sinta bem, com quem você possa se abrir e dizer o que topa e o que não topa. E, na minha cabeça, isso não implica, necessariamente, ter algum tipo de envolvimento romântico.

Eu só comecei a chegar aos termos comigo mesmo em 2013, quando comecei a fazer terapia. Quando conversava com minha analista sobre sexualidade, eu chorava. Mas ao final daquele ano, eu sabia que não dava mais para negar a mim mesmo: eu sou gay. Sempre fui. E o motivo pelo qual eu me sentia diferente perto dos meus irmãos, primos e amigos, não era por isso, mas pelo fato de que a sociedade é que não me aceita como eu sou, e fez um ótimo trabalho para que eu me sentisse culpado somente por existir. E não é errado ser quem você é. Queria saber disso quando eu ainda era uma criança descobrindo o mundo.

Apesar de ter claro, na minha mente, quem eu era, contar à família não era uma opção ainda. Eu tinha medo da reação dos meus pais e dos meus irmãos, que eram (e ainda são) as pessoas com quem eu mais me importo no mundo. Foi quando, ouvindo “Unconditionally“, da Katy Perry, os versos bateram com aquele meu momento. “Liberte-se e seja livre”, ela canta. Eu precisava me libertar mesmo, esconder quem eu era doía por dentro e era exaustivo. “A aceitação é a chave para ser verdadeiramente livre”, Katy Perry canta perto do fim dessa música, que tem um significado muito forte para mim.

Então eu contei aos poucos. Comecei com uma das minhas melhores amigas, a Vivi. Depois minha tia, minhas primas e primos, amigas mais próximas. Cada um tem seu tempo, e eu jamais aconselharia contar esse segredo sem antes você se amar profundamente e ter certeza de que esse amor existe. Tão importante quanto, conte para quem você sabe que isso jamais seria um problema. E caso seja, bem, isso não é amigo de verdade.

A conversa com meus irmãos aconteceu em separado, mas nas duas ocasiões, foi tudo bem. Nos abraçamos e eu pude ter certeza de que eu tenho os melhores irmãos do mundo. Com minha mãe, no entanto, foi mais complicado, pois eu estava muito nervoso e pensei em desistir. Dizem que mãe sempre sabe, mas eu queria que ela ouvisse da minha própria boca. E ela ouviu. Foi uma conversa de meia hora, se eu não me engano, onde morrer parecia mais fácil do que fazer aquilo. “Não era o que eu esperava para você, mas eu te amo tanto quanto seus irmãos e quero que você seja feliz”, ela me disse. Um peso saiu de mim, mas, nossa, a sensação de liberdade que vem depois é a melhor do mundo.

Eu ainda sou bem inseguro com várias outras coisas (paquerar, falar em público etc), mas pela primeira vez na vida, me sinto bem com quem eu sou. E é o que eu desejo para todo mundo, sem exceção.

Escrevi esse texto por vários motivos. O primeiro é porque queria colocar em palavras o que eu sinto. Segundo, se você é gay/lésbica/bissexual/pessoa trans, você não está sozinho. A sua história não é tão diferente de outras pessoas como nós. Descobri isso só recentemente. Depois, queria que, se você ainda está no armário, que se sinta fortalecido. Como eu disse, cada um tem seu momento, e você não é nem obrigado a contar a qualquer pessoa sobre sua orientação sexual. Ela é sua e não diz respeito a ninguém. Mas se você quer contar, sinta-se bem consigo. Ame-se. E se precisar de ajuda, conte comigo. Tem a caixa de contato do blog, tem o meu email: artur.francischi@gmail.com… Sinta-se à vontade para entrar em contato, se quiser. A sua sexualidade não te faz menos humano do que qualquer outra pessoa.

E, aos heterossexuais, que chegaram até aqui, espero que eu tenha conseguido criar empatia em vocês. O mundo é muito perverso com que não segue a maioria. Parem de reproduzir discursos e atitudes opressivas. Sexualidade a gente não escolhe. A gente nasce com ela. E é só uma parte de quem somos. Existe toda uma complexidade em cada indivíduo, que torna todos nós únicos. E no fim, todos queremos a mesma coisa: respeito e acolhimento.

Obrigador por ler. Aqui vai um abracinho para você.

Artur.