Skye é uma personagem problemática, mas ensina algo sobre automutilação em “13 Reasons Why”

Skye é uma personagem problemática, mas ensina algo sobre automutilação em “13 Reasons Why”

[AVISO: este texto toca em assuntos que podem ser gatilho para algumas pessoas, como suicídio, automutilação e depressão]

“13 Reasons Why” voltou para um segundo ano, mesmo que a gente não tenha apoiado essa ideia da Netflix. Se na primeira temporada, o foco era nos acontecimentos que levaram a estudante Hannah Baker (Katherine Langford) a cometer suicídio, agora a história se debruça sobre processo que os pais da menina movem contra a escola onde a menina estudava. Eles acusam a instituição de ser negligente com a garota e de não fazer nada para impedi-la de tirar sua própria vida. Com isso, os alunos são intimados a depor e, quanto mais falam, segredos íntimos e uma cultura tóxica de abuso sexual e bullying dentro da instituição são revelados.

Saúde mental é um tema delicado e cheio de nuances que, caso não seja abordado da maneira correta, pode criar mais estigmas e romantizar certos transtornos, em vez de quebrar tabus e oferecer ajuda. Para muitos especialistas e organizações, a série foi considerada “irresponsável” por romantizar o suicídio e doenças mentais.

Eu não sou especialista em saúde mental, mas sobrevivente de um transtorno de ansiedade que me levou a me machucar e, em mais de uma oportunidade, a tentar suicídio. Para mim, embora “13 Reasons Why” toque em assuntos que precisam ser discutidos, não o faz de maneira acertada, e prejudica o entendimento sobre problemas reais ao explorá-los de maneira por vezes sensacionalista e superficial.

Mas levado pela minha curiosidade, comecei a assistir à segunda temporada de “13RW”. Ainda não a terminei, mas resolvi parar para escrever sobre Skye Miller (Sosie Bacon), que tem uma curta participação nesse ano. A personagem surge ainda na primeira temporada, como uma menina de poucos amigos e fria, o que se reflete na forma como ela se veste e se apresenta ao mundo. Skye, assim como Hannah, possui distúrbios de ordem psíquica, os quais levam a garota a cortar seus braços e suas coxas.

A personagem, como os outros da atração é problemática. Quando finalmente fala-se sobre seu problema envolvendo automutilação, ela diz que “é isso o que você faz em vez de se matar. Suicídio é para os fracos”. Na verdade, não. Automutilação é um sintoma de uma doença, como a depressão, e que também precisa ser tratado. Essa única linha é péssima para iniciar uma conversa sobre essa prática de fazer machucados em seu próprio corpo, mas já que estamos aqui, vamos continuar.

Na segunda temporada, descobrimos que ela e Clay (Dylan Minnette) estão namorando, mas o garoto ainda se sente ligado à Hannah, o que faz com que os dois, eventualmente, terminem o relacionamento. Por conta de uma briga, Skye volta a se ferir, o que a leva a ser internada no hospital. Atencioso como sempre, Clay pergunta se ela está bem e diz que ela importa, provavelmente com medo de perdê-la ou que ela cometa suicídio, visto que os machucados da menina foram mais sérios dessa vez. Skye reforça ao ex-namorado que não queria morrer e que não tem essa intenção ao se cortar.

“Eu disse isso e você não entende”, diz.
“Então me ajude”, ele responde.
“Eu não posso, porque eu também não entendo”, ela rebate. “É como se eu tivesse esses sentimentos e não conseguisse controlá-los, e fosse uma visitante na minha própria mente”. E se eu não recuperar o fôlego, vou me queimar e explodir. E eu sei que você quer me salvar disso, e te amo por isso, mas você não pode”.

Logo em seguida, Skye termina com Clay, pedindo a ele que resolva suas questões sozinho, enquanto ela faz o mesmo. O contexto que leva a garota ao hospital e sua fala ajudam a entender um pouco mais sobre automutilação, ainda que essa experiência não seja universal para todo mundo que passa pelo mesmo.

Para muita gente, a automutilação funciona como um mecanismo de controle de suas emoções. Quando tudo dentro de si parece gritar tão alto e em tom de desespero, ferir-se vira uma maneira de fazer tudo parar. Para outras, ela se torna uma forma de sentir algo, pois de tão entorpecida por emoções ruins, a pessoa precisa fazer algo para sentir alguma coisa.

Porém, o que muitos não entendem, igual ao Clay, é que isso não é uma tentativa de suicídio. Claro, é possível evoluir para um quadro suicida, mas o ato de se automutilar por si só não é feito com o desejo de morrer em seguida. Provavelmente, Skye estava buscando uma maneira de colocar para fora o furacão de emoções que sentia, mesmo que não tenha escolhido uma maneira saudável para isso.

Clay ainda a cobra sobre o acordo que fizeram sobre ela procurá-lo quando estiver passando por algo ruim. Porém, muitas pessoas não buscam ajuda justamente para não ‘aborrecer’ outra pessoa ou criar preocupações no outro. Por isso, acabam evitam o contato e fazem até machucados nos braços ou coxas e virilhas, lugares do corpo que podem ser cobertos. E a julgar pela briga que os dois personagens têm, Skye não recorreria a Clay sobre seu problema.

E mais: o fato da menina continuar se cortando nos diz o quão difícil é para deixar esse hábito de lado. O ato de criar essas feridas em si mesmo pode se tornar um vício, o qual não é fácil de ser abandonado. Eu mesmo passei alguns meses sem me cortar, até que um dia tive uma frustração que desencadeou uma crise de ansiedade, que me levou a fazer cortes nos meus braços. Isso não apaga ou invalida o esforço que eu fiz para não me machucar novamente, mas mostra como esse é um problema muito mais complexo.

Eu me identifiquei com a narrativa de Skye por motivos óbvios, e acredito que ela poderia ser explorada de forma mais aprofundada. Porém, fico feliz que a menina tenha conseguido tratamento. Mesmo que não a vejamos mais, é bom saber que é possível encontrar uma saída positiva para quem está sofrendo com depressão, bipolaridade, transtorno de ansiedade e outras doenças mentais. Assim como ela, eu também procurei tratamento e, atualmente, venho encontrado maneiras saudáveis para lidar com as minhas emoções. E você pode conseguir o mesmo também. Procure ajuda.

Caso você esteja precisando de ajuda:

  • o Centro de Valorização à Vida (CVV) realiza atendimentos pelo site e pelo número 188 e 141 (para Bahia, Maranhão, Pará e Paraná);
  • procure o CAPS e Unidades Básicas de Saúde (saúde da família, postos e centros de saúde);
  • em caso de emergência: SAMU 192, UPA, pronto socorro e hospitais.