O silêncio dos homens é uma poderosa ferramenta para a continuação da cultura de estupro

O silêncio dos homens é uma poderosa ferramenta para a continuação da cultura de estupro

[ESTE POST CONTÉM SPOILERS DA SEGUNDA TEMPORADA DE “13 REASONS WHY”]

Alguns dos motivos pelos quais o ex-produtor Harvey Weinstein conseguiu abusar de mulheres por décadas, com certeza, foi a complacência e o silêncio daqueles que sabiam dos crimes que ele cometia. Por anos, ele teve “facilitadores, silenciadores e espiões, avisando a quem descobrisse seus segredos que não dissessem nada”. É o que afirma o jornal The New York Times, que fez uma longa matéria sobre a rede de agentes, produtores e de profissionais na indústria cinematográfica que o acobertavam. O diretor Quentin Tarantino foi um dos que sabiam do comportamento inaceitável de Weinstein, mas pouco fez a respeito, como ele mesmo reconheceu.

O silêncio é uma das ferramentas poderosas para a perpetuação da cultura de estupro. E isso fica fácil de compreender com o seriado “13 Reasons Why”, um dos sucessos da Netflix. Para o bem ou para o mal, a produção iniciou discussões importantes sobre suicídio, doenças mentais, bullying e abuso sexual. Na série, Hannah Baker (Katherine Langford) deixa 13 fitas cassete para as pessoas que ela julga terem alguma participação em sua decisão de tirar a própria vida. Um dos personagens é Bryce Walker (Justin Prentice), o qual estuprou a protagonista e sua amiga Jessica (Alisha Boe). 

Gostando ou não de “13 Reasons Why”, a atração voltou para um segundo ano, no qual os pais de Hannah processam a escola onde a menina estudava, acusando-a de não fornecer o suporte que a menina precisava. Os estudantes são chamados para depôr e, conforme vão falando, revelações vão sendo feitas e, no decorrer da história, descobrimos que há um antigo esquema de acobertamento de abusos sexuais dentro do colégio. Os meninos que atuam no time de baseball abusam sexualmente de meninas há anos, mas tudo é ignorado por Rick (Ben Lawson), técnico da equipe, e pelos próprios jogadores, os quais criam uma rede de proteção entre eles.

Todos ali sabem que Bryce utiliza de seu status dentro da escola para fazer o que quiser, o que inclui assediar e estuprar as meninas. Ele não sabe o que é consentimento e tampouco sabe como lidar com rejeição, e transforma mulheres em objetos para seu consumo. Com o apoio dos colegas, ele impede que seus atos ganhem os corredores do colégio, protegendo a sua imagem e do time.

A maior parte dos amigos do rapaz são tão repulsivos quanto ele. Montgomery (Timothy Granaderos) é um dos piores, tratando Bryce como uma espécie de entidade e faz o que pode para protegê-lo e a reputação do time de baseball. Essa “passada de pano” para as ações do “brother” é uma prática comum e, infelizmente, incentivada nessa cultura que permite que mulheres sejam abusadas diariamente.

Nem mesmo Zach (Ross Butler) escapa. Na primeira temporada, mesmo não tendo tão destaque, ele é retratado como um cara com um bom coração, mas que também finge ser durão na frente dos amigos. Além de Clay (Dylan Minnette), ele é o único que demonstra um interesse genuíno por Hannah, que  não aceita suas investidas. Não é culpa da menina: depois de ser assediada por Marcus (Steven Silver), ver fotos suas espalhadas pela escola por Tyler (Devin Druid), Bryce e Justin (Brandon Flynn) e ter sua amizade com Jessica atrapalhada por Alex (Miles Heizer), não é à toa que ela não consiga confiar em nenhum dos garotos.

Ainda na primeira temporada, sabemos que Zach se vinga de Hannah roubando os bilhetes com mensagens positivas que ela recebia em sala de aula. Ela descobre que é ele o ladrão e deixa uma carta ao rapaz, na esperança que ele entendesse o quão importante aqueles papéis são para ela. De acordo com o flashback da protagonista, ele teria jogado fora a carta, mas a verdade é que ele a guarda em sua carteira para lembrá-lo o quão escroto ele foi.

Já nesse segundo ano, Zach revela que teve um curto, mas intenso relacionamento com Hannah. Os dois perdem a virgindade um para o outro, em uma cena fofa e muito positiva sobre como o sexo deveria ser (com consentimento eprazeroso para todas as partes, caso você esteja se perguntando), e vivem coisas muito boas como casal. O erro do cara foi não ter tornado público seus sentimentos pela garota, não evitando que ela fosse alvo dos comentários grotescos que os amigos faziam. 

Também na segunda temporada, ele procura se distanciar de Bryce e até busca ajudar Alex em sua recuperação. Ou seja, ele não é como os outros, porém, isso não apaga o fato de que ele sabia o que os colegas de time faziam. Ele sempre soube. Mesmo não estando envolvido em nenhum crime sexual, sua escolha pelo silêncio levou ao sofrimento de várias meninas.

Isso não é querer responsabilizá-lo além da conta, mas pontuar como a complacência dele fez mais mal do que bem. Aliás, até certo momento da atual temporada, mesmo não conversando tanto com os companheiros de equipe, ele nada faz sobre o que sabe para não prejudicar a sua própria posição e dos outros no time. Ele tem total consciência de sua inércia e é justamente movido pela culpa que sente que ele envia polaroids anonimamente para que Clay descubra sobre o Clubhouse, local onde as meninas são estupradas pelos jogadores de baseball.

Eventualmente, Zach tem um ponto de virada, largando o time e ajudando Clay, dessa vez fora das sombras, a conseguir justiça para Hannah. Se antes ele se sentia um “covarde” por não conseguir romper com o silêncio e com os casos de abuso sexual, ele consegue confrontar o técnico Rick sobre a falta de ação em relação ao que vem acontecendo há anos debaixo dos olhos dele. Zach chega a criticá-lo por não ser uma boa figura paterna aos meninos, já que prefere manter a reputação da escola em vez de colocar um fim à violência contra as meninas.

Zach tem um bom coração, mas por não agir quando foi preciso, acabou custando o bem estar de muitas garotas. E isso é ainda muito comum fora da ficção, graças a esse modelo tóxico de masculinidade, que incentiva esse tipo de comportamento entre os homens. E é essa complacência que faz com que a cultura de estupro permaneça tão presente na sociedade e no mundo.

Como as mulheres de “13 Reasons Why” demonstram, o estupro tem consequências devastadoras na vida das vítimas, as quais podem nunca se recuperar do trauma. Hannah não sobreviveu a ele. Jessica tenta lidar com o que lhe ocorreu e como seguir em frente. Mas isso tudo poderia ter sido evitado se os rapazes não ficassem em silêncio. Inclusive Zach. Se algo podemos aprender com essa história toda é que o silêncio é uma arma poderosa contra as mulheres. E é passada a hora de não fazer mais uso dele.