Seria a diversidade o segredo por trás do sucesso das séries Netflix?

Seria a diversidade o segredo por trás do sucesso das séries Netflix?

Na semana passada, um relatório feito pela Escola de Jornalismo e Comunicação da Universidade do Sul da Califórnia (USC) trouxe em números preocupantes a falta da diversidade em Hollywood. Analisando 700 filmes campeões de bilheteria lançados entre 2007 e 2014 – excluindo o ano de 2011 -, não houve uma mudança significativa na representação de minorias (mulheres, negros, LGBTs etc). A indústria cinematográfica continua branca, masculina, heterossexual e cisgênero.

Contudo, há um movimento gritando por diversidade e representatividade. Atrizes, atores, roteiristas, diretores e ativistas têm pedido cada vez mais por filmes que possuam personagens diversos, dando-lhes não só o protagonismo das narrativas, mas retratando o ser humano como ele é: complexo. Nesse sentido, a televisão americana avançou bastante. Há produções centradas em pessoas negras (‘Empire’, Scandal’ e ‘How To Get Away With Murder‘), pessoas transgênero (‘I Am Cait‘ e ‘Transparent’), homossexuais (‘The Fosters’ e a extinta ‘Looking’), latinos (‘Jane The Virgin‘), tendo ainda outras produções com o elenco diverso, como ‘Glee‘ e ‘Grey’s Anatomy’. Ainda há desigualdade, obviamente, mas alguns passos já foram dados.

E há, também, o serviço de streaming de filmes e séries, o Netflix. A plataforma vem investido em séries próprias, que fazem sucesso com o público. Um de seus novos seriados, e que acaba de ser renovado, ‘Sense8‘, por exemplo, traz uma transexual, uma asiática, um homem negro e um homossexual latino. ‘Orange Is The New Black‘ também teve êxito ao retratar mulheres de diferentes raças, etnias, orientações sexuais e idades. ‘Grace & Frankie‘, lançada neste ano, é centrada na vida de duas mulheres em seus 70 anos, abandonadas por seus maridos, que resolvem se casar. ‘Demolidor’, série centrada no super-herói cego, deu início a um importante avanço na Netflix: o recurso de audiodescrição para pessoas com deficiência visual.

Talvez os executivos da empresa tenham prestado atenção num estudo feito pela Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), e divulgado no ano passado, que conclui que diversidade atrai mais dinheiro e público. Esse mesmo relatório constatou um aumento de audiência em programas televisivos da televisão aberta americana, que possuem de 41 até 50% do elenco composto por pessoas não-brancas. Na TV a cabo, produções com até 20% do atores não-brancos também aumentaram sua audiência. No entanto, o estudo comprovou ainda que a falta de diversidade afeta, também, pessoas por trás das câmeras: diretores, roteiristas e produtores. Foram analisadas atrações televisivas lançadas entre os anos 2011 e 2012.

Em março deste ano, a roteirista e produtora Shonda Rhimmes recebeu um prêmio por sua contribuição na construção de personagens diversos em suas obras, e fez um poderoso discurso sobre a importância da representatividade. “Estou normalizando a televisão”, disse a americana na ocasião. Porque o mundo é mesmo feito de diferentes pessoas com diferentes histórias e perspectivas, não sendo somente composto por homens brancos, heterossexuais e cisgêneros. “Estou fazendo a televisão parecer como o mundo é. Mulheres, negros e pessoas LGBT correspondem a mais de 50% da população. Isso significa que não há nada fora do comum. Estou fazendo o mundo da televisão parecer normal”.

O público que vai ao cinema e que assiste a séries quer se ver representado, porque estar na mídia é ter sua existência reconhecida e legitimada. “Ser representada é ser humanizada”, discursou Kerry Washington em evento da GLAAD no começo do ano. “Precisamos enxergar o outro, todos nós, e precisamos enxergar a nós mesmos. E precisamos continuar sendo corajosos, a quebrar paradigmas, até que as coisas sejam como são. Até que não sejamos mais os ‘primeiros’, ‘exceções’, ‘raros’ e ‘únicos’. No mundo real, ser o ‘outro’ é a norma. No mundo real, o normal é ser singular, e a mídia precisa refletir isso”.

Um outro estudo, de 2015, também feito pela UCLA, reforça o gosto da audiência por produções com personagens diversos. “O público, independente de raça, está clamando por conteúdos diversos”, conta a co-autora do relatório, Ana-Christina Ramon, ao The Hollywood Reporter. São os estúdios, agências e corporações os responsáveis por criar “uma cultura que desvaloriza frequentemente o talento das minorias e das mulheres”, diz a pesquisa.

Existe um público sedento por diversidade, que achou no Netflix a possibilidade de encontrar-se em alguma de suas produções. A igualdade ainda está longe de ser atingida, mas a caminhada já pode ser conferida pelo serviço de streaming.