A saída de Scarlett Johansson do filme “Rub & Tug” não deveria impedir que o filme aconteça

23. julho 2018 Cinema 0
A saída de Scarlett Johansson do filme “Rub & Tug” não deveria impedir que o filme aconteça

Nas últimas semanas, Scarlett Johansson levou a sério o meme e foi muito criticada na internet. Isso aconteceu após a notícia de que a atriz aceitou interpretar um homem trans no filme “Rub & Tug”, do diretor Rupert Sanders, o mesmo de “A Vigilante do Amanhã”, longa que também trazia Johansson no papel principal. Vale dizer que as críticas foram mais do que justas, afinal, pessoas cis sempre farão caricaturas ao interpretar pessoas trans. E esse nem é o único problema: pessoas trans raramente conseguem trabalhos na indústria cinematográfica, não tendo a oportunidade de, ao menos, contarem as suas próprias histórias.

O lado positivo de toda a situação foi que Scarlett mostrou-se aberta e ouviu o que as pessoas disseram sobre sua decisão, o que a levou a desistir do projeto.

“Nosso entendimento cultural sobre a comunidade transgênero continua progredindo, e aprendi muito com ela, que me fez perceber quão insensível tinha sido eu aceitar este papel. Sinto muita admiração e amor pela comunidade trans e fico muito feliz que o debate da inclusão em Hollywood esteja avançando”, disse a artista em um comunicado à revista Out. “Apesar de adorar a ideia da oportunidade de dar vida à história de Dante, entendo por que muitos acham que ele deveria ser interpretado por uma pessoa transgênera, e fico feliz que este debate, apesar de controverso, tenha iniciado uma ampla discussão sobre diversidade e representação no cinema”.

O personagem citado por ela, Dante “Tex” Gill, foi um homem trans de verdade, que comandava uma série bordéis disfarçados de casas de massagem em Pittsburgh, no Estado da Pensilvânia (EUA), durante a década de 70. Tudo isso acontecia enquanto Dante fazia a cirurgia de transgenitalização, ou redesignação sexual. Com esse histórico, seria justo e necessário que um ator trans levasse essa história para as telonas. Opções não faltam, mas é possível que a produção não saia mais do papel: sem um nome de peso como o de Scarlett, o filme corre o risco de não ser feito.

Essa é uma chance de ouro para Hollywood mostrar que leva a sério o debate sobre representatividade, que se instalou na indústria já há alguns anos. A lógica para que tantos atores cisgêneros interpretem transgêneros no cinema é uma só: dinheiro. Ao colocar artistas de grande nome nesses papéis, os estúdios esperam que o público pague para assistir a essas obras, ao mesmo tempo em que podem dizer que são ‘moderninhos’, usando de escudo o discurso da diversidade, porém, sem praticá-lo de fato. Nos últimos anos, vimos Matt Bomer, Eddie Redmayne, Jared Leto, Michelle Rodriguez, Elle Fanning Jeffrey Tambor e tantos outros atores e atrizes interpretando pessoas trans, contribuindo com a exclusão e com a perpetuação de uma noção distorcida de quem são esses indivíduos.

E antes que alguém diga que eles trabalham com a atuação, logo, faz parte da profissão dar vida aos mais diversos personagens, esse é um pensamento que até faria sentido. Porém, quando vemos que artistas trans não interpretam pessoas cis – e nem podem interpretar a si mesmas – essa não é uma desculpa que funcione.

Por isso, seria muito positivo que um artista trans fosse escalado para o papel de Dante, já que ele poderia fazer um trabalho honesto e com todas as nuances necessárias para dar vida ao personagem. Com um ator trans como protagonista, há a possibilidade de provar que artistas trans podem liderar grandes produções, desbancando a ideia de que eles não conseguiriam vender um filme. “Rub & Tug” já conseguiu publicidade o suficiente para ficar conhecido pelo público, essa é chance que produtores e estúdios têm de fazê-lo virar realidade com o ator certo no papel principal.

E isso poderia alavancar a carreira de um artista trans, o qual poderia construir uma carreira de sucesso parecida ou igual a de Scarlett Johansson – sendo capaz de impulsionar tantas outras. Do contrário, jamais teremos atores e atrizes trans de sucesso e que possam carregar um filme, pois Hollywood não dá a oportunidade a eles. Se nem ao menos é permitido a eles que retratem suas experiências e quem são, a mensagem que fica é a de que nem para isso eles são capazes. E isso é mentira: tudo o que querem é uma chance para que possam demonstrar seu talento.

Johansson mostrou-se aberta às críticas e aprendeu com seu erro. Seria ótimo que as pessoas por trás de “Rub & Tug” também fizessem o mesmo. Encontrem um ator trans, contratem artistas trans para supervisionar o roteiro e a produção, façam o filme ser gravado e lançado. Quem sabe não mudamos uma antiga e descabida narrativa, enquanto escrevemos uma nova e que esteja de acordo com o tempo e o mundo em que estamos vivendo. Eu espero que sim.