Samuel L Jackson conta como foi crescer durante a segregação racial nos Estados Unidos

13. fevereiro 2015 Cinema 0
Samuel L Jackson conta como foi crescer durante a segregação racial nos Estados Unidos

O debate sobre questões raciais nos Estados Unidos voltaram com força. Após a morte dos americanos negros Michael Brown e Eric Garner por policiais brancos – o que desencadeou uma série de protestos no país -; a estreia do filme “Selma”, que conta a história das marchas lideradas por Martin Luther King pelos direitos civis dos negros, reforçou a necessidade de uma conversa séria sobre raça nos Estados Unidos.

E, agora, é o famoso ator Samuel L Jackson quem deu continuidade ao debate ao contar em entrevista ao programa “Live! With Kelly & Michael”, como foi crescer durante o período de segregação racial nos Estados Unidos. “Só estudei com um estudante branco quando entrei na faculdade“.

A infância do ator foi vivida na cidade de Chattanooga, no Tennessee, ao lado de seus avós e de sua maior inspiração, sua tia Etna, professora do ensino fundamental à época.

Ela me forçava a fazer muitas coisas que eu não queria quando era pequeno. Uma das coisas que ela me forçou a fazer foi aprender a ler quando eu tinha dois anos. Quando eu tinha dois anos eu já sabia ler. […] Ela costumava me levar para escola, o que era interessante, porque morávamos no interior. Minha avó trabalhava. Ela era tipo as empregadas do filme “Histórias Cruzadas“, e meu avô trabalhava durante o dia. Então, ela [tia Etna] me levava para a escola com ela.

Com dois anos, lá estava eu sentado no fundo de sua sala. Quando uma das crianças não sabia responder a uma pergunta, ela me chamava ‘Sam…’ e eu respondia a questão. E aí eu tinha que brigar durante o almoço, porque os alunos da quarta série que ela dava aula vinham até mim e diziam ‘Então você se acha inteligente’… E aí eu tinha que brigar, porque ela me fazia responder as perguntas e isso os fazia parecer idiotas. Eu era um bom lutador e uma criança esperta.”

Foi então que Jackson entrou na questão racial. Por ter vivido o período de segregação, o ator conta que aprendeu “muitas coisas que muitas pessoas não precisam aprender hoje. Ou pelo menos não deveriam.

“Eu aprendi a me portar perto da ‘raça superior’ de uma forma interessante. Você não olhava as pessoas nos olhos, mas eu olhava, porque não achava isso certo. Quando eu ia trabalhar com meu avô, ele limpava escritórios até tarde da noite. Um escritório, em particular, era de uma agência de imóveis. Eu sentava no polidor enquanto ele trabalhava, eu limpava as latas de lixo, arrumava as mesas e olhava o que as pessoas faziam… Às vezes um cara ficava ali e conversava comigo. Eu olhava no olho dele e conversava. Meu avô tremia! Eu perguntava coisas a esse cara, ele me respondia e dizia ‘Esse garoto é inteligente, hein’. Meu avô tinha quase 70 anos […] Sempre que alguém falava com ele, meu avô respondia ‘Sim, senhor. Sim, senhor’. E eu pensava ‘Tem algo errado nessa dinâmica’.”

Por fim, quando a apresentadora, Kelly Ripa diz estar arrepiada com seu relato, Jackson diz que, naquela época, era necessário aprender “a viver numa sociedade onde sua vida era desvalorizada“. No entanto, ele ressalta que a vida em sua casa e no bairro onde morava era tranquila e não lhe faltava amor e carinho.

“Todos os professores que eu tive deram aula para minha mãe, irmãs e irmãos. Eu nunca tive um professor branco. Nunca estudei com uma criança branca até entrar na faculdade. Toda minha existência foi dentro de um ‘casulo negro’, que me ensinou a viver fora do meu próprio ambiente, mas que era um ambiente cheio de amor e carinho.

[…] Os professores iam até a casa de cada aluno. Eles conheciam todos os membros família, porque deram aula a eles. Alguns jovens tinham que aprender a fazer diagramas e coisas parecidas, porque eles tinham que arrumar um emprego ou iam para o exército. Nessa mesma turma, eu tinha uma mesa separada em outra sala, onde eu lia Shakespeare, porque eu iria para a faculdade. Eles sabiam como ensinar cada criança em cada sala, para que elas seguissem quaisquer caminhos que fossem no mundo.”

A passos lentos, os Estados Unidos – e até o Brasil – avançam no caminho pela igualdade racial, ainda que seja necessário manter a luta sempre de pé. Não consegui não me emocionar com um depoimento tão honesto de alguém que viveu num período tão difícil na história. Infelizmente, parece que o mundo ainda tem muito o que aprender.