Roteiristas assinam compromisso para melhorar a representação LGBT na televisão

Roteiristas assinam compromisso para melhorar a representação LGBT na televisão

Houve um tempo em que não era permitido a casais homossexuais um final feliz em produções televisivas, cinematográficas ou na literatura. Perto do final da trama, uma das partes era morta ou era ‘convertida’ através do amor de um personagem heterossexual. A escritora Patricia Highsmith, autora do romance lésbico “Carol”, que originou o filme de mesmo nome indicado ao Oscar deste ano, foi uma das poucas pessoas a desafiar essa norma, permitindo que o casal de mulheres terminasse a história junto. E isso em 1952, numa época em que o conservadorismo era muito maior do que hoje.

Ainda assim, mesmo com vários avanços, em pleno ano de 2016, personagens LGBT continuam sendo mortos pelos roteiristas dos seriados televisivos, especialmente as mulheres. Nos últimos meses, Camilla (Naomi Campbell) e Mimi (Marisa Tomei), da série “Empire”; Rose (Bridget Regan), de “Jane the Virgin”; Kira (Yaani King) de “The Magicians”; Denise (Merritt Wever) de “The Walking Dead” e Lexa (Alycia Debnam-Carey), da série “The 100”, foram todas mortas, tendo essa última despertado a fúria dos telespectadores nas redes sociais.

E, ao que parece, os roteiristas e produtores ouviram as reclamações e decidiram assinar um compromisso, que leva o nome da personagem de “The 100”. Chamada de “The Lexa Pledge” ou “A Garantia Lexa”, o termo de 7 pontos afirma que a representação de LGBTs nas produções televisivas será melhorada, bem como assegura que entidades que protegem esses grupos serão consultadas para a construção de narrativas de gays, lésbicas, bissexuais e pessoas trans.

O compromisso foi criado por Noelle Carbone, roteirista e uma das produtoras-executivas da série “Saving Hope”, Sonia Hosko, produtora do mesmo seriado, Gina Tass, fundadora do Trevor Project, e Michelle Mama, produtora, diretora e roteirista. Também assinam a carta os roteiristas e produtores Adam Pettle, Ley Lukins, Patrick Tarr, e os roteiristas Graeme Stewart, Thomas Pepper e Hayden Simpson.

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Tradução:

  1. Nós vamos garantir que qualquer personagem LGBTQ que apresentemos, fixo ou recorrente, em uma série nova ou já existente, terão histórias com arcos significativos.
  2. Quando criarmos arcos para esses personagens fixos ou recorrentes, consultaremos fontes de dentro da comunidade LGBTQ, como roteiristas homossexuais ou produtores da equipe, ou membros de grupos de ativismo queer (que não é hétero ou pessoas dentro do binarismo de gênero), como a GLAAD, o Trevor Project, It Gets Better, Egale, The 519 etc.
  3. Nós reconhecemos que a comunidade LGBTQ é sub-representada na televisão e, como tal, as mortes de personagens queer possuem ramificações psicossociais profundas
  4. Nos recusamos a matar um personagem queer somente para ampliar o enredo do personagem hétero.
  5. Reconhecemos que a Tropa de Morte aos Gays é prejudicial para a grande comunidade LGBTQ, especialmente, para os jovens queer. Para tal, evitaremos criar histórias que perpetuem essa tropa tóxica.
  6. Prometemos nunca fisgar ou enganar fãs através das redes sociais ou outros meios.
  7. Sabemos que há uma longa jornada à nossa frente para garantir que a comunidade queer seja representada de forma certa e justa. Nos comprometemos a começar essa jornada hoje.

A tropa de Morte aos Gays (“Bury Your Gays”, no original) citada na carta diz respeito à antiga tradição de matar os personagens LGBT, estejam eles em um relacionamento ou não.

Michelle Mama, uma das criadoras do “The Lexa Pledge”, contou ao Mary Sue que a ideia surgiu após as reações à morte da personagem de “The 100”, o que a fez pensar em criar algo pela juventude LGBTQ. “Jovens do mundo todo nos mandaram mensagem agradecendo por apoiá-las. Espero que a indústria ouça, preste atenção e assine na linha pontilhada.”

Noelle Carbone explicou que a iniciativa é importante, mesmo que “as pessoas não deem muita importância para o que a representação na televisão pode fazer, positiva ou negativamente.” Ela, que é lésbica, lembrou que uma representação positiva de pessoas como ela a ajudaram a “entender quem eu era”. “E, mais importante ainda, que estava tudo bem ser quem eu era. E mostrou aos meus pais que o mundo não iria acabar, que era possível que eu arrumasse um trabalho, tivesse ótimos amigos e, talvez ainda, me casasse.”

Projetos como esse dão esperança para um futuro melhor na representação de pessoas LGBT nas séries e filmes que assistimos, embora não seja algo que vá mudar toda uma indústria da noite pro dia. Contudo, é um primeiro passo que pode inspirar outros a seguirem o mesmo caminho. E isso precisa ser celebrado.

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