Os quartos de despejos são problemas nossos

01. agosto 2018 Literatura 0
Os quartos de despejos são problemas nossos

Fome. Miséria. Labuta. Sofrimento. Racismo. Preconceito. Descaso. Fome. Fome. Fome. Entre tantos problemas, denúncias, anedotas e particularidades, o que mais ecoa nas anotações quase que diárias de Carolina Maria de Jesus em seu primeiro livro publicado, “Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada”, a fome é uma das realidades que mais se fez presente: não só na vida da própria autora, mas também de todos os moradores com quem compartilhava as mesmas ruas, as mesmas bicas d’água na primeira favela da grande São Paulo da década de 1950.

“Quarto de Despejo” é mais que um diário, é um livro denúncia que expõe as mazelas sofridas pelas pessoas excluídas da sociedade e afetadas pelo descaso dos políticos. As primeiras anotações narram um pedaço do mês de julho de 1955, em seguida, há um salto de alguns anos e novas linhas são escritas a partir de maio de 1958, depois 1959 e terminam exatamente em primeiro de janeiro de 1960. As narrações feitas por Carolina são feitas em uma linguagem simples e direta. A ortografia e a gramática deficitária foram mantidas pelos editores do livro para que demonstrasse de forma mais pungente os relatos ali descritos. Apesar de não ter completado o ensino básico, Carolina adorava ler. Por ser uma leitora assídua, é perceptível a forma como a linguagem culta das outras obras se faz presente na sua. Há uma variação entre o simples e o sofisticado na sua escrita. A meu ver, essa é uma das grandes potências da obra. Uma mulher que não completou os estudos, esquecida pela sociedade, mas que faz do prazer em ler e da sua necessidade de escrita um grito de protesto cru e verdadeiro.

Ao longo dos dias e meses descritos por Carolina, ficamos sabendo com clareza como é a sua rotina. Ela acordava cedo, buscava água da bica, arrumava o café da manhã para os filhos mais velhos João e José Carlos e depois os despachava para escola. Para ela, o ensino escolar era fundamental. Em seguida, alimentava a filha mais nova, Vera, e em seguida partia para a rua para catar papel, ferro e alumínio durante o dia inteiro, para depois vender e conseguir o dinheiro que seria essencial para comprar o alimento para o próximo dia. No entanto, nem sempre conseguia algo ou o dinheiro não era o suficiente e, nesse momento, a dor da fome sempre aparecia: o medo de não conseguir alimentar os próprios, o medo de morrer de fome. Quando não conseguia, ela pedia aos vizinhos, as pessoas de classe mais abastada, ia em mercados ou frigoríficos para pegar o resto e fazer sopa. Quando não encontrava nada, chafurdava o lixo em busca do alimento. Em uma passagem do livro, ela descreve como isso se fazia presente na sua vida. “ 1 de novembro … Achei um saco de fubá no lixo e trouxe para dar ao porco. Eu já estou tão habituada com as latas de lixo que não sei passar por elas sem ver o que há dentro.”  Às vezes, ela até pensava em suicídio e incluía os filhos nesse plano, para que assim não sofressem mais com a fome constante. Sempre que isso a aterrorizava, ela escrevia em seu diário ou lia. Com certeza, é uma das partes chocantes para qualquer um. Essas passagens sobre a fome que assolava a favela do Canindé me lembram de uma familiar que também ia em mercados, feiras e sacolões catar restos e sobras para colocar no prato de comida e alimentar os filhos. A pobreza e a fome tinham dado uma trégua às famílias brasileiras mas devido à crise política dos últimos anos, o país pode voltar para a lista do Mapa da Fome. No entanto, esses não eram os únicos problemas que tinham destaque na vida de Carolina e no cotidiano da favela.

A violência era um problema constante e excessivamente narrado nos diários. A guerra entre os vizinhos que brigavam por causa de traição, por defesa da honra ou porque simplesmente não iam com a cara da outra pessoa. Os pequenos roubos também terminavam em brigas. A violência contra a mulher e o abandono de crianças também são bastante frequentes nas linhas que narravam o dia a dia da favela. Carolina tentava apaziguar muito desses conflitos por meio de conversas ou chamando a polícia para que resolvesse a situação. Carolina era uma mulher orgulhosa, politizada, firme e clara nas suas decisões. Por isso ajudava, de certa maneira, a resolver alguns desses problemas que chegavam até sua porta. Ela afirmava que o povo que residia no Canindé, os favelados de uma forma geral, não possuía educação e, por isso, viviam brigando e tomando conta da vida dos outros.

São indiscutíveis as passagens de racismo presentes no livro. Em certo momento a autora relata: “No sexto andar o senhor que penetrou no elevador olhou-me com repugnancia. Já estou familiarisada com estes olhares. Não me entristeço.” Carolina tinha consciência do sofrimento que a afligia por ser uma mulher de pele escura em um espaço em que quanto mais branco a pessoa for, mais privilégios ela detém. Mesmo assim, ela não se deixava abalar e mostrava o quanto se sentia bem com a pele que a revestia. “Esquecendo eles que eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rustico. Eu até acho o cabelo do negro mais iducado do que o cabelo de branco. Porque o cabelo de preto onde põe, fica. É obediente. E o cabelo de branco, é só dar um movimento na cabeça ele já sai do lugar. É indisciplinado. Se é que reincarnações, eu quero voltar sempre preta.” Não só ela, mas também todo o negro presente em solo brasileiro sofre com os pequenos racismos estruturais. Em outra passagem do livro, ela questiona, depois de conversar com um homem negro sobre violência policial, se os brancos não entendem que a escravidão já acabou: “… Eu estava pagando o sapateiro e conversando com um preto que estava lendo um jornal. Ele estava revoltado com um guarda civil que espancou um preto e amarrou numa arvore. O guarda civil é branco. E há certos brancos que transforma preto em bode expiatorio. Quem sabe se guarda civil ignora que já foi extinta a escravidão e ainda estamos no regime da chibata?” Olhar para todo esse questionamento feito por Carolina Maria de Jesus e ver que a população negra ainda sofre com o racismo, com os resquícios da escravidão e com o poder avassalador do racismo estrutural, é acabar em um momento reflexivo repleto de ódio e desalento. Por mais que inúmeras pessoas lutem para acabar com esse tipo de crime, ele insiste em aparecer das mais diversas formas e nas mais diversas intensidades. A principal forma de acabar com isso é mexer na estrutura do país e acabar com os privilégios dos outros. Os brancos, no entanto, que são quem possuem os privilégios, o poder da lei e do dinheiro, não estão dispostos em rever os seus poderes.

Apesar de todas essas contrariedades Carolina Maria de Jesus se esforçava para ver pontos positivos em sua vida. Quando a fome, que realmente a desestabilizava, já não a atormentava tanto, ela mudava de discurso e conseguia apreciar os bons momentos em que tinha com seus filhos, na amizade com os vizinhos, com os homens que a paqueravam mesmo ela não os querendo em definitivo em sua vida. Mesmo sabendo que “(…) o pobre não repousa. Não tem o privilegio de gosar descanço.”, ela dizia “(…) ser muito alegre. Todas as manhãs eu canto. Sou como as aves, que cantam apenas ao amanhecer. De manhã eu estou sempre alegre. A primeira coisa que faço é abrir a janela e contemplar o espaço.” Carolina era uma mulher que, mesmo nas dificuldades, tinha foco para conseguir realizar os seus objetivos. Em nenhum momento ela deixou de lutar pelos seus sonhos. Infelizmente, ter sido uma pessoa determinada não a fez sofrer menos. Por sorte ou destino, encontrou alguém que se interessou por seus relatos e a ajudou a publicar o seu tão sonhado livro.

Ainda que narrasse fatos desoladores, tristes, revoltantes a primeira obra de Carolina Maria de Jesus é de uma leitura fascinante e extremamente agradável. Em certos momentos quando ela narra o cotidiano dos vizinhos é possível soltar algumas risadas. O fato de gostar de ler transformou os relatos que seriam simples em uma prosa poética admirável. A sua obra de denúncia, a sua literatura marginal é transformadora e de relevância incontestável. Não foi por acaso que o livro fez sucesso no Brasil e acabou sendo traduzido para mais de dez línguas. Um sonho que transformou a literatura brasileira e sua vida, mas que não conseguiu mudar a realidade de outros.

O sonho virou “Quarto de Despejo”, que denunciava os problemas afligiam a população negra, pobre e marginalizada do século passado, e que ainda hoje se faz presente para os indivíduos que estão na mesma posição dos seus antepassados. Foi uma denúncia que fez sucesso perante o Brasil e o mundo inteiro, mas que não teve soluções significativas, pois ainda há pessoas marginalizadas sofrendo, passando fome e sendo preteridas pelos políticos. Ainda existem negros sofrendo por serem que são. Carolina fez a sua parte, mas quem mais devia trabalhar pela mudança, insiste em olhar para o próprio umbigo e esquece das outras realidades ao seu redor. Principalmente do marginal, que não tem nome, mas tem voto.

No final, Carolina foi esquecida pelas editoras, pelo intelectuais. O seu esquecimento é um símbolo do que a sociedade brasileira faz com os negros e pobres que vivem nesse país. Para você ser lembrado, é preciso fazer algo extraordinário, e depois disso, se acharem que não vale mais apenas, acreditam terem o direito de descartarem você. Como um lixo qualquer jogado em um terreno baldio.

Cabe a nós, os seus semelhantes, não deixá-la cair no esquecimento outra vez. É preciso fazer com que negros, pobres e marginais não se sintam em quartos de despejos espalhados por todo país. Os favelados, com a ajuda de todas as parcelas da sociedade, precisam transformar os seus quartos de despejos em salas de visitas com lustres de cristais, tapetes de veludos e almofadas de cetim.

“Quarto de despejo – Diário de uma Favelada” é mais que recomendável. É uma leitura obrigatória para qualquer pessoa que habite esse vasto mundo.