Resenha: “Fun Home”, de Alison Bechdel

02. setembro 2018 Literatura 0
Resenha: “Fun Home”, de Alison Bechdel

No dia 1 de Setembro, foi relançado no Brasil o quadrinho “Fun Home”, de Alison Bechdel. Então, nada mais justo do que fazer uma resenha sobre ele.

O quadrinho fala de várias questões sociais: masculinidade tóxica, sexismo, a descoberta da homossexualidade, LGBTfobia, empoderamento feminino, mulheres lésbicas e pessoas com deficiência.

A trama é a autobiografia da quadrinista, tendo um olhar diretamente voltado à sua relação com o seu pai Bruce, um homem LGBT e afeminado, que achava que escondia sua feminilidade e sua sexualidade, ao despejar um universo dito feminino em Alison, forçando ela a gostar de coisas ditas de menina, dentre outras maneiras. Mas Alison não gostava de nada disso: brincava com os seus irmãos, odiava rosa e tinha um grande fascínio pelo setor masculino das roupas. Além disso, o pai tinha outras maneiras de esconder sua feminilidade: maquiava mortos para enterrar em um funeral e adorava mexer com móveis e confecções arquitetônicas da casa. E assim, o livro fala sobre masculinidade tóxica e sexismo.

A descoberta da sexualidade de Alison é relatada de maneira mais aprofundada nos capítulos 3 e 5 do quadrinho. As incertezas em relação à sua homossexualidade, o processo de tomar coragem para contar para seus pais e a reação dos mesmos. Tudo isso é relatado de maneira representativa, mas de uma forma que todas pessoas de sexualidade não-heterossexual vão se identificar, não apenas mulheres lésbicas e com deficiência. E tem um porém muito interessante: Alison só fica sabendo que seu pai tinha paixões por homens 4 meses depois de ter se revelado homossexual para seus pais. Isso a deixa muito frustada, pois ela não sabia que tinha alguém para desabafar todas as suas angústias em relação à sua descoberta.

O pai de Alison Bechdel lendo um livro cuja a capa está escrito “Zelda”. O cenário é de que ele está sentado de frente, na frente de uma janela, atrás de uma prateleira de livros. Ele está de óculos. O olhar é sério.

E é nesse exato período de descoberta que ela passa a entrar em contato com literatura LGBT, além de começar a fazer parte do Sindicato Gay e a começar a andar com amigas lésbicas. O seu lado estritamente militante não é muito bem explorado. Não há, por exemplo, partes em que ela cola cartazes anti-homofobia ou protestos, mas apenas leves menções à sua ativa militância.

Não só a questão da LGBTfobia, mas em alguns casos, do sexismo, também são muito retratadas na figura do pai. Aí, é necessário analisar três coisas:

– Há uma parte em que o pai oferece bebidas alcoólicas a um homem, provavelmente com o qual estava se relacionando por um tempo não explicitado pela HQ*. O pai quase perdeu o emprego por fornecer bebidas a ele, pois se tratava de um menor de idade. E quem o entregou, na verdade, deixa bem claro (indiretamente) em seu depoimento que o que achou errado era ver dois homens se relacionando, lembrando que ambos estavam com expressões apaixonadas na noite das bebidas, e não o fato de se tratar de um menor de idade.

– O pai de Alison morre atropelado. Mas não se sabe as causas. Teria sido um acidente de carro? Teria ele se matado? Teriam sido homofóbicos que o mataram propositalmente?

– O pai era pedófilo. A história não explora muito diretamente os motivos que o levaram a ser pedófilo, mas minha interpretação foi esta, a partir de dicas que o próprio quadrinho dá: Bruce Bechdel, pai de Alison, fora molestado quando era criança, por sempre ser afeminado. Ele encontrou na pedofilia o único meio, e um meio um tanto que discreto de acordo com a forma de que Bruce praticava o ato, de acabar sofrendo menos preconceito por ser LGBT, e ainda não sentir as mágoas de não poder se apaixonar*.

Já o caso de empoderamento feminino e de mulheres lésbicas se dá, além de seu contato com livros militância e amigas lésbicas (aí puxando mais para o caso de mulheres lésbicas propriamente dito), temos a mãe de Alison, uma mulher que sofria com as mazelas do machismo da época, em relação ao divórcio. Logo no início de sua relação com Bruce, quando ela descobre que este tinha relações com homens, ela quer se separar. Mas a sociedade da época (ou seria ela mesma?) não deixava uma mulher se separar de um homem, por motivos machistas. Como resultado, a relação do casal era conflituosa, sendo Alison capaz de contar nos dedos as vezes em que os dois trocavam carinhos.

E a questão das pessoas com deficiência é retratada, mas de maneira não muito aprofundada, sendo quase tudo contado apenas no capítulo 5. A falta de conhecimento produzido e divulgado sobre um tema tão vasto a ser estudado – pessoas com deficiência – , além da vontade de Alison querer “ser normal” são questões importantíssimas para serem exploradas. E no quadrinho, apesar de em poucas páginas, foram muito bem trabalhadas.*

A FORMA

Em primeiro lugar, todas essas questões sociais são retratadas no quadrinho de maneira bem sutil. Não é semelhante a um outro trabalhos de Alison, como “Dykes to Watch For”, em que os preconceitos são retratados de maneira bem mais pesada.

Em segundo lugar, não há como fazer uma resenha do quadrinho sem falar das citações de grandes nomes do cinema, da literatura e de outras artes, sempre relacionando suas obras ou suas vidas pessoais com os acontecimentos e relações pessoais retratados no quadrinho. Além da maneira ser bem confusa para os leitores, essas citações podem distanciar o quadrinho das pessoas vindas da classe trabalhadora, que por não terem acesso a uma educação de qualidade, podem vir a ter dificuldade para entender as referências e a linguagem rebuscada de Alison.

Em terceiro lugar, vemos uma quebra das barreiras entre “Literatura” e “Quadrinhos”. A linguagem rebuscada típica de autores literários, além de uma maior valorização da escrita do que da imagem, são aspectos que aproximam a HQ da literatura. Mas ao mesmo tempo, ainda se trata de uma HQ, tanto que as imagens são essenciais para se entender a trama. Essa divisão é muito comum atualmente, já que o modelo Taylorista de produção (que preza pela difusão de áreas de conhecimento do trabalhador, e não mais a especificação em uma área) está cada vez mais ganhando força.

Em quarto lugar, o quadrinho deixa bem claro que Alison era muito próxima de seus irmãos. Mas eles não têm um protagonismo muito forte na trama: não porque não tenham relevância, mas porque tiveram suas marcas em outras questões familiares, e não no foco dado pelo quadrinho, que é a relação entre Alison e seu pai Bruce.

QUEM É ALISON BECHDEL

Nascida em 1960, a quadrinista foi uma revolucionária, uma pioneira, tanto em questões técnicas e na forma de se fazer quadrinhos quanto no conteúdo e na militância representativa no mundo dos quadrinhos.

Técnica, pois seu quadrinho “Fun Home”, junto com “Persépolis”, de Marjane Satrapi, revelaram um jeito novo de se fazer HQs: o autobiográfico. A partir daí, quadrinhos que relatam autobiografias de suas respectivas quadrinistas se tornaram muito comuns.

E militante, pois na década de 80, Alison foi a pioneira em falar da questão das mulheres lésbicas no meio HQ, através de suas tiras “Dykes to Watch For”. Além disso, ela criou o Teste de Bechdel, de forma a discutir a representação feminina de filmes, séries, quadrinhos e qualquer outro produto da cultura pop. O teste consiste em três requisitos para a produção: 1 – Ter duas personagens femininas (com nomes), 2 – Essas duas mulheres precisam ter um diálogo e 3 – O diálogo não pode ser sobre garotos. Aqui está um site com uma lista de filmes que passam no Teste: https://bechdeltest.com.

*Lembrando que a família Bechdel vivia em uma cidade de cerca de 800 habitantes, e ainda por cima nos anos 70.

*Eu não consegui mencionar neste parágrafo, mas é bom lembrar que a namorada de Alison, Joan Hilty, também tem deficiência. Alison a aceita muito bem e, a princípio, ninguém parece ter preconceito contra Joan.