Resenha: “A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil”, de Becky Chambers

06. outubro 2017 Literatura 0
Resenha: “A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil”, de Becky Chambers

Já fazia algum tempo que eu não me apaixonava por um livro, como me apaixonei por esse.

Desde que me descobri lésbica, eu fui afastando da minha estante qualquer livro que passasse perto de ser um romance estereotipado. Eu estava acostumada a esbarrar com roteiros clássicos da mocinha com o herói, e isso não se encaixava mais pra mim. Eu procurava identificação com os personagens, mas isso acabava ficando em segundo plano. Ao longo dos anos, fui me apaixonando por livros de outros gêneros, até que me deparei com “A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil”, o novo livro da Darkside, com o selo DarkLove, que tem como principal objetivo mostrar a força feminina na literatura. Sim, esse foi o primeiro livro de ficção-científica que eu li. E o que eu posso dizer é: eu estou apaixonada e quero morar nesse mundo para sempre.

“A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil” conta a história da tripulação da nave Andarilha. Uma nave que é contratada pela CG (Comunidade Galáctica) para fazer “túneis” que interligam o espaço de um ponto a outro. A nave é composta por nove tripulantes, incluindo a inteligência artificial (IA) da nave, Lovey.

Ashby, é um humano exodoniano que comanda toda a tripulação. Sissix, é uma piloto reptiliana, e a sua espécie é uma das mais afetuosas da história. Dr. Chefe, é um alienígena de gênero fluído e também a médica da nave. Ohan é um sianat par, que confunde sua leitura de vez em quando, mas você acaba se apaixonando por ele ao perceber sua singularidade em ser plural. A bordo da nave temos também Kizzy e Jenks, dois humanos que são responsáveis pelos reparos técnicos. Corbin, o algaísta, inferniza a vida de todos ali dentro, até passar por poucas e boas para encontrar seu lugar no mundo. E a recém chegada Rosemary, a guarda-livros, que viveu e cresceu nas colônias de Marte, mas que agora constrói uma nova história ao lado da sua nova família.

Rosemary é quem nos convida para acompanhar essa aventura mais de perto e é exatamente assim que eu me senti. Parte da tripulação. A autora conseguiu preencher a história com tantos detalhes, com tanto sentimento, que não tem como você ler esse livro e não querer fazer parte do grupo. Ela também apresenta, de um jeito único, todas as raças e espécies que cruzam o nosso caminho ao longo da história. Falando sobre a cultura, as aparências e  as diferenças em relação aos humanos. O livro é extremamente rico em detalhes e Becky Chambers consegue nos passar tudo isso de uma forma bem divertida e interessante.

As mulheres têm um papel importantíssimo nessa obra. Todas elas são bem diferentes umas das outras e fogem de qualquer estereótipo. Elas ocupam cargos altos e importantes na história da CG. Nos deparamos até mesmo com uma espécie que nasce homem e ao atingir determinada idade, se torna mulher, nos fazendo repensar qualquer forma de classificação de gênero estabelecida até hoje. E quando acontece de presenciarmos alguma cena de machismo ou qualquer outro tipo de preconceito, os indivíduos envolvidos recebem imediatamente advertências, principalmente verbais, dos demais, não dando espaço pra qualquer questionamento. Isso mostra a todos que o preconceito não deve ser tolerado. Há também relações poliamorosas e personagens das mais variadas raças e cores. A autora nos deu muitas oportunidades de identificação e isso é incrível.

“O simples fato de usarmos a expressão sangue-frio para denominar alguém pouco emotivo mostra o nosso preconceito inato de primata em relação aos répteis. Não julguem outras espécies pelas suas próprias normas sociais.”

Becky também demonstrou um cuidado ao tornar a tecnologia, os objetos e essas novas formas de vida bem reais e palpáveis. O leitor consegue enxergar exatamente como as coisas são sem ter que ficar horas e horas lendo trechos cansativos. Ela simplesmente insere isso nos diálogos e na curiosidade de Rosemary ao se deparar com esse novo mundo. É uma história e uma forma de imersão muito inteligente.

Para mim, o grande destaque do livro não é nem o final da viagem em si, mas o caminho que todos percorreram juntos. Você vai descobrindo mais sobre cada um, se questionando sobre como as coisas funcionam bem naquele meio e percebendo que cada um tem a sua singularidade. Não é como se num passe de mágica a autora tenha criado um “mundo perfeito”. Todos os nossos questionamentos e ensinamentos continuam sendo explorados ali, mas conseguimos sentir mais respeito, empatia e esperança ao ver tudo o que acontece na nave e fora dela.

“Tudo o que você deve fazer é trabalhar para ser uma força positiva.”

Toda a história é um grande ensinamento, você aprende que em determinadas espécies, por exemplo, não há palavras pra traduzir o que os indivíduos sentem e eles acabam se expressando através das cores que as suas próprias bochechas mostram. Outros, usam de gestos silenciosos, mas bastante significativos, para transmitir mensagens que carregam muito sentimento e importância. Alguns surpreendem ao mostrar uma forma de afeto e liberdade, que talvez muitos de nós nunca paramos para pensar que poderia existir. E, por fim, você acaba se encantando por tudo, desde as roupas e o jeito entusiasmado de viver de alguns, até a tranquilidade e afeto de outros.   

Alguns romances acontecem ao longo da história. Novas relações são construídas e, por fim, você não sabe se está mais apaixonada pelos casais que se formam, pelos indivíduos da nave, pelas aventuras que você vive com eles ou pelos ensinamentos que nos são repassados, de que não há nada mais importante do que ser quem a gente é, respeitar quem o outro quer ser e aprender juntos, que estamos aqui pra construir um mundo bom, e isso só depende da gente.

Becky Chambers é lésbica. Ao final do livro ela faz um agradecimento para os amigos e à esposa. “A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil” só foi realizado graças as pessoas que rodeiam a vida de Becky e à sua persistência ao acreditar no projeto e colocá-lo em uma plataforma de financiamento coletivo, o Kickstarter. Essa obra é fruto do trabalho de Becky e do amor de muitas pessoas, que assim como nós, respeitamos e acreditamos no próximo.

Obrigada, Darkside Books por mais esse presentão! <3


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