O 1º semestre de 2018 foi um bom momento para a representatividade LGBT no Cinema Brasileiro

07. agosto 2018 Cinema 0
O 1º semestre de 2018 foi um bom momento para a representatividade LGBT no Cinema Brasileiro

Apesar de termos sucessos com representatividade homossexual na história do cinema nacional (como ​”Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” e ​”Tatuagem”), essa trajetória de visibilidade é muito recente. Na década de 90, por exemplo, apenas um filme com temática LGBT foi feito no Brasil. Se pensarmos em representação de mulheres lésbicas ou de pessoas trans, veremos que nosso cinema é totalmente ineficiente em realizar filmes sobre esses grupos de pessoas.

Mas o cenário que presenciamos nessa primeira parte do ano pode nos dar certa esperança e mostrar que o cinema nacional está mudando e buscando uma maior gama de representatividade LGBT. Inclusive, pode-se arriscar a dizer que os lançamentos com diversidade sexual que tivemos aqui no Brasil no 1º semestre de 2018 foram mais interessantes do que os lançamentos internacionais no mesmo período. Quatro filmes se destacaram:

“A Cidade do Futuro”

“A Cidade do Futuro” é uma história que se passa no interior da Bahia e tem como protagonistas Gilmar, Igor e Milla, que ousam a sociedade da pequena cidade em que vivem ao decidirem formar um novo tipo de família. O filme inova ao retratar no cinema brasileiro a questão do trisal e do poliamor, principalmente por a história se passar em uma cidade do interior do nordeste, lugar no qual muitos passam maior preconceito e dificuldade para assumir sua sexualidade do que nas grandes capitais. Além disso, a trilha sonora mescla músicas sertanejas (que dificilmente estão ligadas à imagem da representatividade LGBT) com uma versão de ​”Toxic”, de Britney Spears.

“Paraíso Perdido”

“Paraíso Perdido” é protagonizado por Erasmo Carlos, que vive o dono da boate que dá nome ao filme, e onde toda sua família trabalha e apresenta números musicais, entre eles, a drag queen Imã (interpretada pelo cantor Jaloo). Apesar de ter alguns problemas no roteiro e uma trama um tanto quanto folhetinesca,​ “Paraíso Perdido” acerta quando trata de representatividade LGBT, pois temos aqui personagens gays, drag queen, lésbica e bissexuais (e uma das mais lindas cenas de sexo gay da história do cinema nacional com Jaloo e Humberto Carrão). Por ser um filme com várias performances musicais, a trilha sonora também é um grande destaque, com versões de grandes sucessos de décadas passadas e até de artistas LGBTs nacionais, como Johnny Hooker.

“As Boas Maneiras”

O filme une o terror com representatividade lésbica e uma crítica ao machismo com maestria! Aqui temos a história de Clara, moça negra da periferia de São Paulo, que consegue uma vaga de emprego na casa de Ana (interpretada maravilhosamente por Marjorie Estiano), mulher do interior de Goiás que está grávida e sozinha em São Paulo. Ao mesmo tempo em que as duas vão se aproximando (até mesmo amorosamente) coisas estranhas vão acontecendo com a gravidez de Ana. Não dá pra se falar muito mais que isso, pois estragaria a surpresa de um dos filmes mais surpreendentes e inteligentes dos últimos anos do cinema nacional (não é à toa que foi o vencedor do Festival do Rio 2017).

“Berenice Procura”

O longa conta a história de Berenice (interpretada por Cláudia Abreu), taxista que vive um casamento já arruinado com um jornalista sensacionalista e tem uma relação distante com um filho adolescente, cujo qual está descobrindo sua sexualidade. O filme começa com Berenice passando de táxi e vendo uma movimentação na praia e, ao chegar mais perto, ela vê que é um corpo de uma mulher trans morta na areia. A partir daí, o filme volta alguns dias para conhecermos a vítima, Isabelle, e qual sua relação com a vida da protagonista. Berenice decide investigar o assassinato ao mesmo tempo em que se redescobre para a vida.​ “Berenice Procura” já pode ser considerado um marco pela representatividade trans nunca vista antes tão forte no cinema brasileiro. Aqui temos ao menos três atrizes transexuais em papéis importantes (e várias outras em personagens menores), inclusive, não é a primeira vez que Valentina Sampaio (atriz que interpreta Isabelle) marca a história, já que ela foi a primeira mulher trans a estampar a capa da ​Vogue.

O número de quatro filmes com representatividade LGBT ainda pode parecer pouco, mas se analisado com outros anos (lembrem-se da década de 90) é um grande avanço! É claro, ainda precisamos ter mais crescentes nesse número, mas ao que tudo indica isso vai acontecer, já que temos várias estreias com representatividade LGBT programadas para o segundo semestre, como os filmes “​Alguma Coisa Assim”, “​Tinta Bruta”, “​Animal Cordial” e os documentários “Abrindo o Armário” e ​”Bixa Travesty”.