Representatividade importa muito

Representatividade importa muito

Quando escrevi meu texto “Sobre sair do armário“, relatei como era difícil me identificar com os personagens dos meus desenhos preferidos, porque eles não se pareciam comigo. Eu não me via ali. Pelo menos não nos desenhos considerados “de meninos”. As animações eram todas violentas, ou não tinham um personagem gay. Simplesmente não havia. Se havia uma menina, era muito.

Aliás, eu me identificava com as meninas: A Misty de Pokémon, a Mimi de Digimon, a Sakura de Sakura Card Captors, a Sailor Júpiter de Sailor Moon, a Hermione de Harry Potter… Esses são só alguns dos primeiros exemplos que me veem à cabeça. Se tinha uma personagem masculina que eu me via representado, era o Shun de Andrômeda, dos Cavaleiros do Zodíaco. Ele era sossegado, não gostava de lutar, se doava por seus amigos e ainda era super emotivo. Bem eu. O fato de que Shun possui mais características ligadas ao que consideramos “feminino”, sempre foi motivo para que me zoassem. Eu cheguei a negar minha preferência por ele. Não só por ele, mas por todas as minhas heroínas.

shun representatividade

As outras personagens nos meus desenhos e filmes preferidos possuíam qualidades e defeitos meus, eu me via em várias situações. Mas eu não me via totalmente representado ali. Quando você é uma criança homossexual, você simplesmente não tem uma referência positiva de pessoas como você. Não vê. Por outro lado, o que se vê e ouve são discursos inflamados de que a nossa sexualidade é errada. De que nossa existência é errada, porque mesmo que a orientação sexual seja uma parte de quem somos, não conseguimos nos dissociar dela. É algo que nos acompanhará até o final da vida. E essa exclusão traz consequências terríveis para as crianças. Desde cedo somos ensinados a viver dentro do armário ou a disfarçar quem somos.

 

Então, quando existe alguma representatividade positiva em livros, séries, filmes, novelas etc, isso é muito bacana, porque nos empodera. Nos cria um sentimento de pertencimento, de que não estamos sozinhos nessa vida. Eu cresci sem esses exemplos, o que fez com minha autoestima fosse pro saco, uma vez que sentia que o mundo não me via e não me respeitava, afinal, eu não estava em lugar algum, somente na boca de quem faz uma piada que me subjugava pela minha sexualidade. E se você acha que isso não é nada, é porque, com certeza, não sentiu sua identidade sendo negada (ou dependendo de quem for, nunca reparou como sua própria identidade é sempre motivo para deboche).

Dando outro exemplo, quando escrevi sobre a falta de publicidade envolvendo a personagem Viúva Negra, dos “Vingadores”, vi gente lembrando que o Gavião Arqueiro também não ganhou o mesmo destaque de Thor, Hulk, Capitão América e Homem de Ferro. Num grupo de 6 pessoas brancas, sendo 5 homens, é bem problemático que a única mulher do grupo esteja de fora. Não que o Gavião Arqueiro não seja importante, mas ele é mais um homem branco nesse esquadrão de super-heróis. A única integrante feminina, que representa meninas e mulheres no mundo todo, é quem precisa de destaque. E usar o argumento de que ela não vende tanto quanto os outros é balela. Não vende porque não tem, simples assim.

cadê a viúva negra vingadores

Homens brancos e héteros nunca precisaram reclamar de representação, porque veja bem, eles estão em todas as partes. Partilho do mesmo pensamento de Meryl Streep, que diz que eles nunca precisaram se colocar nos sapatos das mulheres (ou de negros, homossexuais, pessoas trans, ou com alguma deficiência), porque foram eles que criaram, e ainda estão por trás das grandes empresas que produzem entretenimento, cultura e história.

Então, eu celebro os beijos entre pessoas do mesmo sexo que vêm acontecendo nas novelas da Globo; celebro quando vejo personagens homossexuais nas minhas séries favoritas; celebro quando algum homossexual ou pessoa trans consegue realizar algo, porque eu sinto que posso chegar lá. Sinto que isso inspira outras pessoas como eu a lutarem contra um sistema e uma sociedade que nos exclui. E sinto algo muito importante: eu não estou sozinho.

Representatividade é muito importante. Ela nos humaniza, nos tira da margem que a sociedade insiste em nos colocar. Indo além, ela consegue um efeito transformador: a empatia. Faz com que saiamos de nossa bolha, para enxergar o outro como ele é: diferente, mas ainda assim, humano. E como todos os outros, que merece respeito.

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