“Queer Eye” mostra que é possível construir uma nova e saudável masculinidade

“Queer Eye” mostra que é possível construir uma nova e saudável masculinidade

Eu preciso confessar que tenho um vício e ele se chama “Queer Eye”. Ao melhor estilo “Meninas Malvadas”, eu estou obcecado: passo 80% do meu tempo falando sobre o programa e, nos outros 20%, eu torço para que alguém fale sobre, para eu poder falar mais. Embora tudo isso seja um exagero meu (ou mais ou menos), o reality show da Netflix é muito cativante e muito divertido, e que merece o reconhecimento que recebeu.

Para quem ainda não viu “Queer Eye”, aqui vai uma explicação rápida: trata-se de um remake de “Queer Eye for the Straight Guy”, que foi ao ar entre 2003 e 2006. Porém, dessa vez, homens héteros não são apenas os únicos a receber a visita e os cuidados do Fab 5, como é chamado o grupo de especialistas gays que apresentam a atração. Cada um deles possui uma habilidade: Antoni é responsável pela cozinha; Karamo trabalha como uma espécie de terapeuta; Jonathan cuida da aparência; Tan das roupas; e Bobby faz o trabalho de reforma das casas. A princípio, pode parecer mais um daqueles programas que focam nos cuidados externos da pessoa, mas o programa vai muito além disso, propondo a construção de uma masculinidade que seja mais saudável para os homens. 

Assim como as mulheres, homens também são afetados pelo machismo: desde pequenos somos ensinados a repreendermos as emoções, a sermos violentos, a estarmos sempre disponíveis para o sexo e a não ligar tanto para a nossa aparência, afinal, vaidade é coisa de mulher, certo? E pior ainda: somos ensinados a nos afastar e a ter repulsa de qualquer coisa que seja associada ao feminino. Isso tudo é difícil de desconstruir, mas o quinteto do reality show mostra que mudanças até podem ser complicadas, mas quando nos permitimos que aconteçam, elas não são impossíveis.

E diferente do programa que deu origem ao remake, “Queer Eye” não atende apenas homens héteros, mas gays e mulheres também. Essa diferença é importante, pois todos temos áreas na vida que se beneficiariam de um cuidado maior. E, assim como héteros, muitos gays ficam presos nessa teia que é a heteronormatividade. Logo na primeira temporada, no episódio 4, o Fab 5 atende AJ, um homem gay negro de Atlanta, que tem um problema enorme em parecer “gay demais” ao se vestir. Isto é, usar camisetas com o caimento certo e experimentar cores alegres, como o rosa e o laranja. Isso mostra como é difícil também para gays romperem com essa cultura heteronormativa limitante e ultrapassada.

Aliás, a aparência dos participantes merece um destaque especial, pois ela não é algo superficial, como qualquer um poderia pensar logo de cara. Na verdade, o exterior desleixado é um reflexo da bagunça interna de cada um deles. Por não saberem lidar com suas emoções, problemas pessoais e/ou familiares, os homens vão deixando de cuidar de si do lado de fora. E é aí que os especialistas de “Queer Eye” surgem: eles não fazem apenas barba, cabelo e bigode, mas ensinam aqueles homens a olhar para dentro e os dão ferramentas para trabalharem suas questões. No primeiro episódio, por exemplo, conhecemos Tom, um homem solitário e que adoraria reatar com a ex-esposa, mas acha que “não existe cura para a sua feiura” e pouco se importa em cuidar de sua aparência e mudar seu estilo de vida. O que o Fab 5 faz é ajudá-lo a sair da zona de conforto e reconstruir sua autoestima.

E essa jornada de “desembaraçar” os nós internos se prova muito emocionante (chorar faz parte da experiência ao assistir ao show), pois finalmente vemos os homens sendo vulneráveis e permitindo-se falar sobre suas emoções, perdas, frustrações e dores. E isso acontece em um ambiente sem julgamentos, o que é muito importante, pois é isso o que possibilita uma abertura real e cura para muito do que vem afligindo e incomodando essas pessoas há tempos. Enquanto homens, temos como costume não dar vazão às nossas emoções, com medo de que estaríamos agindo como mulheres. E o que “Queer Eye” faz é mostrar o quão empoderador pode ser o fato de abraçar suas fragilidades.

Permitir-se ser vulnerável e falar sobre emoções é fundamental e uma questão de vida – especialmente para homens. No Brasil, a maioria dos casos de suicídio são de homens (79%), e isso acontece, em grande parte, justamente por não conversamos sobre o que sentimos e termos uma dificuldade maior em pedir e aceitar ajuda, com medo de que isso ‘diminua’ a nossa masculinidade. E isso não poderia estar mais distante da verdade.

Obviamente, muitos não sabem como lidar com o que sentem, e “Queer Eye” ensina através dos participantes do programa, que esse trabalho de cuidar mais de si, tanto externamente quanto internamente, pode ser feito aos poucos e de maneira gradual. O importante é não desistir de si mesmo. E, assim, os homens aprendem mais sobre si mesmos, desenvolvem novos e mais saudáveis hábitos (como aprender a cozinhar e a cuidar da família), redescobrem antigas habilidades e aprendem a levar uma vida mais leve e feliz.

O interessante do programa é, também, a sua disposição em lidar com tópicos difíceis, como a conversa cara a cara que Karamo, um homem negro, tem com com um policial branco, sobre violência policial contra a população negra. Embora não aprofundem tanto sobre a questão, o problema é abordado e nenhum dos lados foge dele.

“Queer Eye” é um programa alinhado com os tempos de hoje e que promove uma nova masculinidade, fora das amarras tóxicas de uma que é violenta contra os próprios homens e, principalmente, contra as mulheres. Se você ainda não viu, corra para a Netflix!