Quantos personagens LGBT sua série favorita possui? Esta pesquisa tem os números

Quantos personagens LGBT sua série favorita possui? Esta pesquisa tem os números

A Gay & Lesbian Alliance Against Defamation (GLAAD) é uma das maiores organizações não-governamentais LGBT dos Estados Unidos, cujo foco de seu trabalho é monitorar a representação dessa comunidade na mídia americana, além de lutar por mais histórias de gays, lésbicas, bissexuais e pessoas transgênero em séries.

Há 20 anos, a GLAAD faz um levantamento de personagens LGBT na televisão e como eles são representados, e compila os resultados no relatório anual “Where Are We On TV?” (“Onde Estamos Na TV?”). De acordo com a presidente da organização, Sarah Kate Ellis, colocar um personagem LGBT numa atração televisiva não é o suficiente, pois é preciso tomar cuidado para que os roteiristas não caiam em “estereótipos ultrapassados e perigosos”, assim como devem “evitar tokenizar* personagens que carregam o fardo de representar toda uma comunidade através do ponto de vista de uma pessoa”.

*tokenizar = usar suas relações interpessoais para tentar se isentar de acusações de preconceito. Exemplo: não sou racista, tenho até amigos negros.

Representatividade é um tema recorrente no Prosa Livre. Em outras oportunidades, destaquei a falta de diversidade em Hollywood, nas séries televisivas, na literatura e a quantidade pequena de mulheres em sagas cinematográficas famosas, como “Harry Potter”. Com esta nova pesquisa da GLAAD, espero que fique ainda mais claro como precisamos de mais diversidade na mídia, na frente e atrás das câmeras, de forma que possamos vencer preconceitos e criar uma sociedade igualitária.

Confira abaixo os resultados do levantamento da GLAAD:

Resultados gerais:

  • Para a temporada 2015-2016 das séries televisivas, dos 881 personagens que estarão no horário nobre da televisão americana, 96% deles são heterossexuais e apenas 4% LGBT;
  • Apenas 35 personagens (4%) que se identificam como gay, lésbica, bissexual e transgênero devem aparecer nas séries no próximo ano. 35 personagens LGB com participações especiais;
  • Na TV a cabo, personagens LGBT foram de 64 para 84, com participações especiais aumentando de 41 para 58;
  • A GLAAD contou, pela primeira vez, personagens LGBT em séries originais de plataformas de streaming, como Netflix, Amazon e Hulu. Foram encontrados 43 personagens fixos e 16 participações especiais em 23 seriados;
  • Nenhum personagem transgênero foi  identificado no horário nobre da TV aberta. Na TV a cabo, apenas 3 personagens transgênero fizeram participações especiais (2%). Plataformas de streaming lideram o percentual de personagens trans em suas produções: 7%;
  • Personagens bissexuais ganharam mais representatividade na TV aberta e a cabo (de 10 para 18), com um número maior de homens bissexuais. Porém, muitos ainda carregam estereótipos negativos sobre bissexualidade;
  • Todas as plataformas precisam incluir mais personagens de outras raças e etnias. Houve uma melhora, em comparação com o ano passado: 287 dos 881 personagens (heterossexuais ou não) são pessoas de outras raças e etnias (33%);
  • 16% (145) dos personagens regulares do horário nobre serão negros, maior percentual desde que a GLAAD começou a fazer este recorte em sua pesquisa, há 11 anos. Contudo, mulheres negras serão menos representadas, sendo somente 59 das personagens femininas;
  • 43% das personagens são mulheres, um aumento de 3% em relação ao ano anterior. Ainda assim, mulheres são sub-representadas;
  • Pela primeira vez em dois anos, o número de personagens com algum tipo de deficiência caiu: de 1,4% para 0,9%. Entre a TV a cabo e aberta, apenas 1 personagem com participação especial possui HIV.

TV aberta:

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  • No horário nobre da TV aberta americana, entre os personagens LGBT, homens gays são maioria: 33 (47%). Eles são seguidos por lésbicas (23 personagens ou 33%), mulheres bissexuais (12 personagens ou 17%) e homens bissexuais (2 personagens ou 3%);
  • Apesar de serem a maioria dos personagens, a representação de homens gays caiu 7% em comparação ao ano anterior;
  • A representação de lésbicas aumentou 5%;
  • Personagens bissexuais agora representam 20% dos personagens LGBT, um aumento de 2%;
  • Nas 118 atrações das redes de televisão (ABC, CBS, The CW, FOX e NBC), 35 personagens são LGBT. No ano passado eram 32;
  • Nenhum personagem trans foi identificado e não há expectativa de personagens transgênero nas atrações durante o ano;
  • A GLAAD reconheceu o trabalho de inclusão de personagens LGBT nas séries “Empire”, “Rosewood”, “Person of Interest”, “Arrow” e “Agents of S.H.I.E.L.D.”;
  • Dos 70 personagens LGB, 69% deles são brancos, 3% a mais do que o percentual geral de personagens na televisão aberta.

TV a cabo:

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  • Na TV a cabo, homens gays também são a maioria dos personagens LGBT: 58 ou 41% do total. Lésbicas são 31 dos personagens (ou 22%), mulheres bissexuais são 32 (23%), homens bissexuais são 18 (13%), mulheres transgênero 2 (1%) e homens transgênero 1 (1%);
  • A representação de homens gays também caiu na TV a cabo em comparação ao ano passado: de 45 foram para 41% do total de personagens LGBT;
  • O número de lésbicas também caiu: no ano passado elas eram 25%, agora 22%;
  • Mulheres e homens bissexuais aumentaram sua representação na TV a cabo: mulheres foram de 20 para 23% e homens foram  de 10 para 13%;
  • Dos 142 personagens LGBT, apenas 3 são transgênero, um pequeno aumento comparado ao ano anterior, quando havia apenas 1 personagem;
  • Os canais ABC Family e Showtime foram considerados os mais inclusivos, tendo 18 personagens fixos e recorrentes. Eles também são responsáveis pelos três personagens trans da TV a cabo;
  • “The Fosters” foi considerada a série mais inclusiva, com 7 personagens LGBT;
  • A GLAAD também reconheceu outras séries que introduziram personagens LGBT em suas tramas. São elas: “The Walking Dead”, “Black Sails”, “Mr. Robot”, “Orphan Black” e “American Horror Story: Hotel”;
  • Na TV a cabo, 71% dos personagens LGBT são brancos;

Serviços de streaming:

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  • Homens gays também são a maioria de personagens LGBT nos serviços de streaming, representando 23 personagens ou 39% do total. Mulheres lésbicas vêm logo a seguir com 21 personagens (36%). Mulheres bissexuais são 9 (15%), homens bissexuais são 3 (5%) e mulheres transgênero são 4 (7%). Nãohomens transgênero sendo representados;
  • Esta é a primeira vez que a GLAAD analisa as atrações originais de plataformas como a Netflix, Amazon e Hulu. A organização verificou também as produções adquiridas por essas empresas;
  • A GLAAD elogiou o esforço da criadora da série “Transparent”Jill Soloway, pela contratação de pessoas trans na frente e atrás das câmeras. O seriado conta a história de Maura, uma mulher trans, que revela sua identidade de gênero agora que é uma mulher mais velha;
  • A plataforma Hulu foi reconhecida por ter 10 personagens LGBT em duas novelas, “Coronation Street” e “Hollyoaks”, tendo a segunda ainda um personagem gay com HIV;
  • “Orange Is The New Black”, da Netflix, foi a série com mais personagens LGBT de todo o relatório;
  • “Sense 8”, nova série da Netflix, também foi elogiada por conter um casal gay e uma mulher trans interpretada por uma mulher trans e que possui um relacionamento com outra mulher. “Grace & Frankie”, “The Fall”, “House of Cards”, “Unbreakable Kimmy Schmidt” e outras produções também foram lembradas;
  • Contudo, a maioria dos personagens LGBT são brancos (73%).

Conclusão:

Embora a representação da comunidade LGBT tenha aumentado, obviamente ainda há espaço para melhorias, principalmente no que diz respeito à raça, etnia e histórias de pessoas trans. Ainda que os serviços de streaming tenham bons índices de narrativas diversas, eles são os que mais apresentam personagens LGBT brancos. Quando olhamos pro mundo à nossa volta, ele não é inteiramente branco, portanto, é preciso investir em personagens negros, latinos, asiáticos e tantos outros, para que as séries que consumimos pareçam mais com o mundo em que vivemos.

“Pessoas LGBT de outras raças e etnias continuam sendo sub-representados e homens transgênero permanecem invisíveis na mídia. Adicionalmente, histórias LGBT devem ir além da narrativa comum de “sair do armário”, concluiu o relatório da GLAAD, que também verificou a quantidade de personagens negros e de mulheres, em geral, em seu relatório.

Confira o documento “Where Are We On TV” aqui.