Quando LGBTs negros terão vez nas novelas?

Quando LGBTs negros terão vez nas novelas?

Não há dúvida alguma de que a população LGBT tem conquistado uma visibilidade maior na mídia. Já há alguns anos, as novelas, principalmente da Rede Globo, vêm apresentando mais personagens que são assumidamente gays ou lésbicas (bissexuais e pessoas trans a seguir), em diferentes horários da televisão.

Contudo, a representação de muitos desses personagens ainda é marcada por estereótipos, aparições não recorrentes, apoio aos protagonistas, e para o alívio cômico da trama. Em todas as situações citadas, as narrativas não são bem desenvolvidas (ou sequer são), o que resulta em personagens sem profundidade, que não acrescentam algo para a história, e que acabam perpetuando ideias limitadas e preconceituosas acerca das nossas identidades.

Não bastasse a representação ser problemática, há ainda a a baixa representação de bissexuais e pessoas trans, que finalmente ganharão alguma atenção em produções globais. Em “Nada Será Como Antes”, a personagem de Bruna Marquezine se envolve com um homem e com uma mulher, e um homem trans será representado na nova novela de Glória Perez (ele será interpretado por uma mulher cisgênera. Já falamos como isso é problemático).

E embora a forma como esses dois novos personagens serão conduzidos ainda é um mistério, ambos personagens têm algo em comum com muitos outros personagens LGBT que passaram pela televisão: eles são brancos.

Ainda que seja muito positivo que as emissoras (em especial a maior do país) estejam mais abertas a contar as histórias de lésbicas, gays, bissexuais e pessoas trans, em quase todos os casos, os personagens são brancos.

Desde que a Globo começou a transmitir beijos entre pessoas do mesmo gênero, em 2014, com o casal Félix (Mateus Solano) e (Thiago Fragoso), da novela “Amor à Vida”, quase todos os personagens assumidamente homossexuais que vieram a seguir foram brancos, com exceção de Ivan (Marcello Melo Jr.) de “Babilônia”, mesmo folhetim que possuía um casal de lésbicas idosas (Fernanda Montenegro e Nathália Timberg) entre as protagonistas da trama.

Claro, quando observamos desde a década de 70 até os tempos atuais, é possível observar uma transformação na forma como personagens gays e lésbicas foram retratados, como a jornalista Fernanda Nascimento, mostra em seu livro “Bicha (nem tão) má – LGBTs em Novelas”, no qual faz um levantamento desses personagens na televisão, bem como discute a representação desses indivíduos na época em que foram apresentados.

“Em mais de quatro décadas, as personagens LGBTs passaram de uma representação praticamente assexuada – sem constituição de relacionamentos – para uma vivência de sexualidade que inclui o reconhecimento de direitos sexuais – como o casamento e o direito à adoção –, e o reconhecimento social da necessidade de combate ao preconceito e à discriminação”, contou Fernanda ao Lado Bi.

Segundo ela conta, foram encontrados 126 personagens no total, desde a década de 70 até 2013. A maioria eram gays (76), seguidos por lésbicas (24), 16 bissexuais (13 homens e 3 mulheres), 8 mulheres transexuais, uma travesti, e uma personagem com identidade de gênero e orientação sexual não definidas. Porém, ainda que a representação desses grupos tenha avançado, certas características continuam. Entre elas, a raça dos personagens.

“As mudanças foram inúmeras e graduais, mas alguns padrões se mantém, como a hegemônica presença de homossexuais masculinos, de LGBTs brancos, de pouca visibilidade de transexuais e travestis, de regulação da sexualidade lésbica – muito mais adequada a norma heteronormativa do que os gays”, disse a jornalista, que é mestra em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS).

Se buscarmos em novelas que vieram antes de “Amor à Vida”, até mesmo em outras emissoras, o resultado continua decepcionante. SBT e Record apresentaram alguns personagens gays negros, mas que não trocaram beijos com seus pares, que, aliás, eram brancos, mesmo padrão apresentado na Rede Globo. Ao que parece, não é permitido mais de um gay negro na televisão. Ou que ele esteja em um relacionamento. Ou ainda que a personagem negra seja lésbica, bissexual ou trans.

Essa questão da ausência de LGBTs negros – e de relações afetivas entre eles – importa, porque quando essas pessoas não se veem, não sentem que suas identidades sejam válidas, o que leva a um sentimento de não pertencimento à sociedade ou qualquer espaço, e até a uma baixa autoestima, já que o indivíduo não se reconhece.

Não só isso, essa invisibilidade colabora para a objetificação dos corpos negros, ou seja, para aquela visão de que essas pessoas são boas para o sexo e nada mais. Por fim, a falta de casais negros envia ainda uma mensagem nociva de que o afeto dessas pessoas não existe, e de que a felicidade estará sempre nas mãos de uma pessoa branca.

Com certeza, avançamos muito na representação de LGBTs. A Globo chegou a exibir uma delicada e bonita cena de sexo entre dois homens em uma novela. Mas, então, por que ainda é tão difícil apresentar negros que sejam lésbicas, gays, bissexuais e pessoas trans?

Ao que parece, essa é a próxima fronteira a ser superada. E a julgar o fato de que esses indivíduos SEMPRE existiram, a televisão está bem atrasada.