O grande problema de gênero do Festival de Cannes

O grande problema de gênero do Festival de Cannes

Desde o dia 8 de maio, tem acontecido o Festival de Cannes, um dos mais importantes eventos cinematográficos do mundo. Em 2018, a atriz Cate Blanchett é quem preside o júri, sendo apenas a 12ª mulher a ocupar tal cargo nesses 71 anos de festival. Também estão no corpo de jurados mais quatro mulheres: a diretora Ava DuVernay, as atrizes Kristen Stewart e Léa Seydoux e a cantora Khadja Nin, formando assim uma maioria feminina no júri. Completando a bancada, estão o ator Chang Chen, o diretor Denis Villeneuve, o cineasta Robert Guédiguian e o realizador Andrei Zvyagintsev.

“Mudanças não acontecem da noite para o dia, mas a partir de ações específicas e duradouras. É preciso trabalhar muito e observar o que está sendo feito no sentido de estimular a diversidade e a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres”, disse Cate na coletiva de imprensa, realizada na última terça-feira (8). “Aqui temos uma mulher presidente e mais quatro jurados homens e quatro mulheres. Estamos num bom caminho”.

E embora seja um passo positivo, o Festival de Cannes tem muito o que fazer para escrever uma história mais inclusiva para as mulheres, as quais demonstraram que não vão parar de protestar por igualdade. No último sábado (12), 82 mulheres – dentre elas Cate Blanchett, Ava DuVernay, Agnès Varda, Salma Hayek e Patty Jenkins – fizeram uma grande manifestação contra desigualdade de gênero na competição, marchando de braços dados em direção ao Palais des Festivals. O protesto foi organizado pelo movimento 50/50 by 2020, que busca a igualdade de gênero no cinema francês, e antecedeu a estreia do filme “Girls of the Sun”, da diretora Eva Husson.

O grupo parou no meio da escadaria, em um gesto que demonstra a dificuldade das mulheres em ascender no Festival. Isso porque, em 71 edições, apenas 82 filmes dirigidos por mulheres (por isso 82 artistas) participaram da competição principal, um número muito menor do que o encontrado entre homens: 1.645. Cate Blanchett e Agnès Varda leram um comunicado (a primeira em inglês e a segunda em francês), chamando a atenção para o fato e pedindo salários justos e mais oportunidades.

“Em 71 anos desse festival renomado no mundo todo, houve apenas 12 mulheres presidindo o júri. A prestigiosa Palma de Ouro foi dada a 71 diretores – numerosos demais para mencioná-los por nome – , mas apenas duas mulheres: Jane Campion, que está conosco em espírito, e Agnès Varda, que está aqui hoje”, disseram as artistas. “Os fatos são óbvios e inegáveis”.

Desde que as denúncias de assédio sexual contra o ex-produtor Harvey Weinstein começaram a surgir em outubro do ano passado, a indústria cinematográfica foi tomada por acusações da mesma natureza. As premiações e festivais cinematográficos buscaram maneiras de lidar com o assunto. O Oscar falhou em abordar o tema em sua última edição, enquanto o Festival de Cannes tem tentado encontrar uma forma de mostrar que está ouvindo as mulheres. Ou melhor, começando a ouvi-las.

Em 2018, além de um júri majoritariamente feminino, a 71ª edição do evento conta com um disque-denúncia para casos de assédio sexual. Mas isso é pouco comparado ao tanto que precisa ser feito para tornar a competição realmente inclusiva para as mulheres. Neste ano, dos 21 filmes que concorrem à Palma de Ouro, o prêmio máximo do Festival, somente três são assinados por diretoras: “Girls of the Sun”, da francesa Eva Husson; “Capharnaüm”, da libanesa Nadine Labaki; e “Lazzaro Felice”, da italiana Alice Rohrwacher.

Já na mostra Um Certo Olhar, 8 dos 18 filmes são dirigidos por mulheres. Contudo, essa exibição é paralela à competição, trazendo filmes mais experimentais, e não concorrem à Palma de Ouro. As obras são: “Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos”, de Renée Nader Messora e João Salaviza; “Euforia”, de Valeria Golino; “Gueule D’Ange”, de Vanessa Filho, “Les Chatouilles”, de Andréa Bescond e Eric Metayer; “Manto”, de Nandita Das, “Mon Tissu Préféré”, de Gaya Jiji; “Rafiki”, de Wanuri Kahiu; e “Sofia”, de Meryem Benm’Barek.

Ou seja, na seleção principal, a desigualdade ainda reina absoluta, e não difere dos anos anteriores. Em 2017, dos 19 filmes selecionados, apenas 3 eram dirigidos por mulheres. Em 2016, foram 3 em 20 e, em 2015, 2 em 19. Pior ainda: em 71 anos, somente uma mulher ganhou o prêmio mais importante de Cannes: Jane Campion, em 1993, com “O Piano”. Naquele mesmo ano, ela ainda teve de dividir a honraria com Chen Kaige, que levou a estatueta dourada com “Adeus, Minha Comcubina”. Agnès Varda, famosa diretora francesa, foi condecorada com uma Palma de Ouro em 2015, mas em homenagem à sua brilhante carreira.

“Faz muito tempo! 24 anos! E antes disso, nenhuma mulher ganhou. Isso é loucura”, disse Jane em entrevista ao site Vulture no ano passado. “E eu fiquei muito incomodada que a diretora de ‘Toni Erdmann’ [Maren Ade] não ganhou da última vez. Pensei que finalmente ganharia uma colega. Mas não. Chega de homens ganhando. É isso. A partir de agora, somente mulheres vencerão”.

Infelizmente, nenhuma mulher ganhou a Palma de Ouro em 2017, mas ao menos Sofia Coppola saiu premiada como a Melhor Diretora da edição (com “O Estranho que Nós Amamos”), sendo somente a segunda mulher na história nessa categoria. Antes dela, apenas a russa Yuliya Solntseva havia levado a honraria com “A Epopeia dos Anos de Fogo”, em 1961.

Quando o Festival de Cannes começou, em 1946, havia uma mulher entre os diretores: a portuguesa Bárbara Virgínia, que apresentava o filme “Três Dias Sem Deus”. A cineasta fez história em seu país, sendo um nome importante no cinema de Portugal, e foi tema de um documentário que resgata sua contribuição para as artes. Porém, Bárbara não saiu vitoriosa naquele ano.

O número de mulheres concorrendo na categoria principal aumentou em 1954, quando Carmen Toscano de Moreno (“Memorias de Un Mexicano”) e Kinuyo Tanaka (“Koibumi”) participaram da competição. Elas também não saíram vencedoras, mas deixaram sua marca no evento. A história foi feita em 1961, com Yuliya Solntseva e, depois, em 1993, com Jane Campion, e 2017, com Sofia Coppola. 

Um levantamento da Agence France-Press diz que dos 268 cineastas que ganharam algum dos 3 prêmios principais em Cannes, somente 11 foram mulheres. Ou seja, apenas 4% do total. A década atual, até agora, foi a melhor para elas, formando mais de 10% dos competidores (19 de 184). Um percentual baixo, mas que mostra uma evolução, quando comparamos o resultado com a primeira década (de 46 a 49, o percentual não chegava a 1%) e com a penúltima (de 2000 a 2009, o percentual chegou a mais de 8%).

Thierry Frémaux , diretor do festival, afirmou ao site Deadline que os filmes são escolhidos com base na qualidade, não no gênero de quem os fazem, apesar da quantidade pequena de mulheres na história do evento. 

“A questão de uma cota não preocupa a seleção artística de um festival”, disse Frémaux. “Os filmes são escolhidos por sua qualidade. Nunca haverá uma seleção feita a partir de uma discriminação positiva”.

Contudo, com a seleção atual, o Cannes fica atrás de outros festivais cinematográficos, os quais fizeram com que a quantidade de obras feitas por cineastas femininas ficassem o mais próximo possível de seus colegas homens. Sundance, por exemplo, teve 37% de suas 122 obras dirigidas por mulheres, um aumento de 3% em relação ao ano passado. O Festival de Tribeca também deu exemplo e, dos 96 filmes exibidos, 43 foram dirigidos por mulheres. Então, por que Cannes não fez algo parecido?

Sim, festivais cinematográficos devem prezar pela qualidade, mas quando a maior parte dos artistas com obras selecionadas são homens (e isso por mais de 70 anos), é impossível não pensar que a percepção de ‘qualidade’ ainda está atrelada ao masculino. Diversificar a lente pela qual os filmes são feitos e escolhidos ajuda a elevar a arte, além de oferecer novas perspectivas aos jurados e ao público.

Cate Blanchett e as 81 mulheres que se manifestaram no último sábado têm um ponto importante e que precisa ser levado a sério. Uma mudança não acontece da noite para o dia, mas é preciso começá-la de algum lugar.

“Vamos exigir que nossos ambientes de trabalho sejam diversos e igualitários, para que possam refletir melhor o mundo em que de fato vivemos. Um mundo que permita que todas nós, em frente e por trás das câmeras, possamos prosperar ombro a ombro com nossos colegas homens”, concluiu a presidente do júri do Festival de Cannes. “Nós reconhecemos todas as mulheres e homens que estão buscando a mudança. As escadas da nossa indústria precisam ser acessíveis a todos. Vamos subir.”