Precisamos parar de tratar perda de peso como um prêmio a ser conquistado

Precisamos parar de tratar perda de peso como um prêmio a ser conquistado

No final de junho, a roteirista e produtora Shonda Rhimes desabafou em sua newsletter sobre a forma como as pessoas começaram a tratá-la depois de perder peso.

“As mulheres me elogiaram. E os homens? Eles conversavam comigo. Eles paravam e tinham longas conversas comigo sobre várias coisas”, escreveu. “Depois que eu perdi peso, descobri que as pessoas me davam valor. Que valia a pena conversar. Eu era uma pessoa que elas podiam olhar, elogiar. Eu era uma pessoa que elas podiam admirar. Quando eu era gorda, eu não era uma pessoa para essas pessoas. Como se eu fosse uma mulher invisível”.

Foi um sentimento similar ao que a atriz indicada ao Oscar, Gabourey Sidibe, manifestou em uma entrevista para um podcast. Ela também perdeu peso e começou a ouvir elogios desde então.

“Você não precisa me parabenizar por perder peso”. Você não precisa me parabenizar a cada vez que eu assoo meu nariz”, ela disse, completando que entendia que as pessoas têm boas intenções, mas que esses comentários são “muito misóginos”.

“Preocupe-se com seu corpo”, concluiu a artista. “As pessoas querem sentir como se tivessem algum controle sobre o seu corpo, mesmo que você seja uma estranha. E isso é ainda pior quando você é alguém reconhecível como eu”.

Os depoimentos de Shonda e Gabourey demonstram como a perda de peso é vista como uma espécie de prêmio: logo que você consegue diminuir seus números, você recebe elogios, tapinhas nas costas e é, enfim, vista como um ‘ser humano’. E digo isso dessa maneira, porque é assim que tratamos, socialmente, pessoas gordas: como menos que um ser humano.

E a mídia tem muita culpa nisso, pois, ela ajuda a moldar nossas percepções do outro e do mundo. E quando vemos que as capas de revista são ocupadas, em sua grande maioria, por modelos magras, isso quer dizer algo. Quando filmes, novelas e seriados possuem quase todo o seu elenco composto por atores e atrizes magros, que ainda fazem piada de pessoas gordas, isso quer dizer algo. Esse obsessão da mídia com o corpo magro é muito problemática, porque reforça um padrão de beleza que é inatingível para a maioria das pessoas, e ainda estigmatiza o corpo gordo. E isso acaba levando a outro problema: a preocupação com a saúde.

Pessoas gordas não são preguiçosas ou nada saudáveis por terem o corpo que têm. Existem várias questões que interferem no corpo de alguém. Ou seja, não dá para afirmar, só de olhar para uma pessoa, seja ela gorda ou magra, que ela é ou não é saudável. Tem muita gente gorda com uma vida muito ativa e cheia de atividades físicas, como as novas dançarinas da Anitta.

Além do mais, tão logo o corpo magro se torna ‘aceito’, o corpo gordo acaba virando o ponto fora da curva, o que força muitas pessoas a se adequar a entrar na ‘norma’. E nessa busca para se encaixar, acabam entrando em dietas nocivas, perdendo autoestima, adoecendo e, por fim, até morrendo. Distúrbios alimentares são mais comuns do que se imagina.  O Manual de Psiquiatria de diagnóstico de distúrbios mentais, publicado pela Associação Americana de Psiquiatria, estima que uma a cada cinco mulheres sofre com algum tipo de transtorno alimentar, sendo mais frequente em jovens mulheres, entre 12 e 24 anos. Somente em São Paulo, estima-se que 77% das meninas tenham propensão para desenvolver algum distúrbio alimentar. E nesse mal, inclua aí não apenas anorexia e bulimia, mas a compulsão por comer também.

Portanto, em vez de trabalharmos uma mensagem de aceitação de corpos, estamos fazendo o contrário e levando muitas pessoas – principalmente mulheres – a adoecer. A atriz Lily Collins, que vive uma garota com anorexia no filme “O Mínimo Para Viver”, contou recentemente que perdeu peso para o papel, e foi elogiada por isso. Ou seja, mesmo que ela tenha perdido peso para interpretar uma menina doente, ela recebeu parabenizações, como se ela também tivesse conquistado um prêmio.

“Eu estava saindo de casa esses dias e uma mulher que conheço há muito tempo, da idade da minha mãe, olhou para mim e disse: ‘Uau, olhe para você!’. Eu tentei explicar que estava emagrecendo para um papel e ela disse: ‘Não! Eu quero saber o que você está fazendo, você está ótima!’. Depois disso, entrei no carro da minha mãe e disse: ‘É por isso que esse problema existe’”, recordou Lily, em uma entrevista.

Essa situação é desesperadora. Mesmo quando temos alguém doente em nossa frente, focamos em sua figura. Ao menos ela está magra, não importa o quão mal ela esteja. 

Dito tudo isso, não quero afirmar que perder peso é algo ruim. Cada um (deveria) ter controle sobre seu próprio corpo e (deveria) tomar decisões com base naquilo que acha melhor para si. Há pessoas que emagrecem por questões muito particulares, que não necessariamente envolvem saúde ou querer ficar ‘mais atraentes’. Essa é uma decisão individual, que merece ser respeitada, mas que não deveria ser tratada como uma celebração.

A gente precisa parar de tratar o emagrecimento como um troféu. Já tem muita gente sofrendo com tantas pressões sobre elas. E eu tenho certeza que perder peso não precisaria ser mais uma delas.


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