Precisamos conversar sobre o último episódio de “Game of Thrones”

Precisamos conversar sobre o último episódio de “Game of Thrones”

[AVISO: SPOILER DO ÚLTIMO EPISÓDIO DE GAME OF THRONESUNBOWED, UNBENT, UNBROKEN”]

Na noite de domingo foi ao ar o sexto episódio da quinta temporada de “Game of Thrones” pela HBO. Vovó Tyrell está de volta a Porto Real, seus dois netos foram para a prisão e Tyrion e Ser Jorah foram capturados, mas continuam a caminho de Daenerys Targaryen. No entanto, precisamos conversar sobre Sansa Stark e ao estupro e humilhação desnecessários aos quais ela foi submetida. É importante lembrar que essa não é a primeira cena de estupro criada pelos roteiristas da série. Na quarta temporada, vemos Cersei ser estuprada por seu irmão Jamie no velório de Joffrey, filho dos dois. Nos livros, ambas situações não acontecem.

O arco de Sansa Stark é um dos mais interessantes em “Game of Thrones”. É notório como a personagem cresceu: da jovem inocente e sonhadora, a moça percebeu que é preciso entrar no jogo do poder se quiser sobreviver. E é o que ela tem feito desde que chegou a Porto Real até voltar a Winterfell: sobreviver. Sansa foi torturada, humilhada, foi noiva de Joffrey e foi obrigada a casar-se com Tyrion. Para o bem ou para o mal, todas as provações enfrentadas fizeram dela uma das personagens mais fortes do seriado.

No entanto, sinto que toda sua história regrediu após o episódio do último domingo, quando foi estuprada e humilhada por Ramsay Bolton, seu novo marido. A cena não acrescenta nada no enredo de “Game of Thrones”. Absolutamente nada. Então por qual motivo os roteiristas David Benioff e D. B. Weiss, acrescentaram-na à série? Choque de valores? Para polemizar? Precisava ir até esse ponto?

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Sansa é levada por Theon para se casar com Ramsay

Nos livros, Sansa nunca sai do Vale, terra de sua tia Lysa. Portanto, ao final da quarta temporada, na televisão, quando vemos a moça de cabelos pretos, deixando os fios vermelhos para trás, assumindo uma postura muito mais determinada, imaginamos que a jovem teria um enredo muito promissor. Na série, Sansa acompanha Mindinho até Winterfell, esta que já foi terra de sua família, os Starks, e que está sob controle dos Boltons, os mesmos que traíram seu irmão, Robb, e sua mãe, Catelyn. Ela entra no jogo de seu Petyr Baelish e aceita se casar com o sádico Ramsay Bolton.

Tínhamos, então, algumas possibilidades para ela: vingar sua família e governar Winterfell, ou ter o enredo de Jeyne Poole, que é quem casa com Ramsay no livro escrito por George R.R. Martin. Na obra literária, a menina é estuprada por seu marido e Theon participa do ato, sendo forçado a fazê-lo; enquanto na série é obrigado a assistir seu chefe estuprar sua esposa. No entanto, por que transferir esse enredo para a personagem de Sophie Turner? Não há qualquer motivo, além de chocar a audiência. E só.

Veja bem, esse estupro não existe nos livros e não acrescenta em nada no andamento da série. Sansa precisaria de mais esse motivo para odiar os Boltons? A traição deles não seria o suficiente para ela? Theon precisa de mais algum motivo para ter mais medo do homem que o torturou e o mutilou? Ele precisava ver o estupro de sua antiga amiga para que despertasse da prisão mental a qual foi colocado? Nessa linha de pensamento, então Theon é quem ganha protagonismo numa história que seria de Sansa, afinal, as mulheres não podem conquistar nada por conta própria. Para os roteiristas da série, elas estão ali para serem somente violentadas.

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Sansa Stark é tocada por Ramsay antes de ser estuprada por ele

Sim, a sociedade patriarcal de “Game of Thrones” não é nada gentil com as mulheres, que possuem apenas dois destinos: ou cumprem o papel de esposa e mãe que lhes é ensinado desde pequenas, ou recusam a ele totalmente, como foi o caso de Arya e Daenerys Targaryen. No entanto, isso não é justificativa para o estupro, uma vez que Sansa sabia que teria que dormir com Ramsay, afinal, casou-se com ele. Não há o que justifique essa cena a não ser chocar os telespectadores. Foi mais uma cena de violência gratuita contra mulheres, algo corriqueiro no seriado.

A cara de Theon assistindo a crueldade de Ramsay foi um espelho do desconforto que todos sentimos ao ver a cena. Contudo, a sensação que fica é de que Sansa servirá de apoio à história dele. Ou seja, é possível que ela seja salva por Theon e seja coadjuvante em seu próprio arco, o que é uma pena, já que todos gostaríamos de vê-la vingar sua família com suas próprias mãos. Isso ainda pode acontecer, mas é triste que ela precise passar por um capítulo de violência para que isso ocorra.

É cedo ainda para dizer o que acontecerá com Sansa Stark nos próximos episódios, mas muito se perdeu com uma cena que não acrescenta nada no desenvolvimento de qualquer personagem, feita apenas para polemizar. Seria interessante vê-la colocar em prática com Ramsay, o jogo de manipulação que aprendeu durante seu terrível período ao lado de Cersei e Joffrey.

Não sabemos o que virá pela frente no seriado, mas quando olhamos para trás, só vemos a misoginia dos roteiristas de “Game of Thrones”.


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