“Pose”, nova série de Ryan Murphy, já é um marco para representação trans na televisão

“Pose”, nova série de Ryan Murphy, já é um marco para representação trans na televisão

Quando se fala de representação LGBTQ, ainda há muito o que melhorar. E no que diz respeito à representação de pessoas trans, a sensação que temos é a de que há tudo para ser melhorado. Não é raro vermos homens cis interpretando mulheres trans (“A Garota Dinamarquesa” e “Clube de Compras Dallas” estão aí como prova) ou histórias que não aprofundam nas experiências de pessoas trans.

Mas “Pose”, nova série de Ryan Murphy, quer mudar esse cenário. Você provavelmente já ouviu falar nele, pois é de Ryan alguns fenômenos recentes da televisão, como o musical “Glee”, “American Horror Story”, “Feud” e “American Crime Story”. E sendo um homem gay, o roteirista, diretor e produtor sempre busca maneiras de trazer narrativas LGBTQ para suas obras, mas nada até agora se compara ao que fez com “Pose”. 

O seriado, que será exibido pelo canal FX, nem foi lançado ainda, mas já fez história com seu elenco, que traz um recorde de 5 artistas trans nos papéis principais. São eles: MJ Rodriguez, Indya Moore, Dominique Jackson, Hailie Sahar e Angelica Ross, os quais interpretarão personagens trans na atração. Kate Mara e Evan Peters completam o time da produção ambientada na cidade de Nova York da década de 80.

No centro da narrativa está a cultura da dança vogue, famosa em ballrooms, as baladas onde ela acontecia. Madonna pode ter levado o vogue para o mainstream, mas ela, definitivamente, não criou essa forma de expressão.

E não é só com o elenco que “Pose” difere de outras séries. Muitos dos que trabalham por trás das câmeras também se identificam como LGBTQ. Aliás, desde 2016, quando lançou uma iniciativa para aumentar o número de mulheres e LGBTQs trabalhando como diretores e roteiristas  em suas produções, Ryan Murphy pode dizer com orgulho que 63% de sua equipe é composta por essas minorias.

“Veja, eu sou um pai gay”, disse o produtor ao jornal The New York Times. “Quando eu levo meus dois filhos para os sets de filmagem, eu não quero que eles vejam o mundo em que eu cresci, onde eu era frequentemente o único gay e todos os outros eram héteros e brancos e homens. Eu queria mudar isso, pelo menos no meu mundo. E, desde que fiz isso, o trabalho melhorou, porque as mulheres são melhores”.

Uma das pessoas envolvidas na produção é a jornalista e ativista Janet Mock, que é também uma mulher transexual. A contratação de Janet foi histórica, pois ela é a primeira mulher trans negra a trabalhar como roteirista em um seriado (houve outras roteiristas trans antes dela, mas todas brancas). Mas além do roteiro, ficou a cargo dela a direção de um dos episódios de “Pose” e produção da série. Junto de Steven Canals, um homem queer de origem latina e negra, os dois escalaram mais de 100 artistas trans para a atração, como a própria Mock contou em um texto publicado pela revista Variety.

“Isso é extraordinário, especialmente quando pessoas trans possuem poucas oportunidades de emprego e têm visto pessoas que não são trans incorporarem suas realidades nas telas”, escreveu a jornalista. Ela ainda acrescentou que o seriado não é sobre a identidade de gênero de cada personagem, isto é, não se cria um espetáculo sobre suas identidades, apesar de que isso também não é deixado de lado. “As narrativas delas não são limitadas às suas transições e nós raramente falamos sobre suas origens. Em vez disso, nós focamos em como é viver, lutar e se esforçar em um mundo que não foi construído para que elas prosperem”.

Dessa maneira, com artistas trans trabalhando na frente E atrás das câmeras, ocupando cargos importantes de atuação, roteiro e direção, é possível ficarmos esperançosos de que a representação trans na televisão, especialmente de pessoas trans negras e latinas, será muito bem feita. Houve um cuidado até para que os artistas envolvidos na cena vogue dos anos 80 estivessem presentes para acompanhar as filmagens e coreografias. 

“Pose” é um seriado necessário, colocando a beleza e a luta de ser trans em foco para todos assistirem, torcerem, se emocionarem e se apaixonarem. E, com sorte, a atração ainda pode ensinar a respeitar e aceitar uma população que vive à margem da sociedade, seja nos Estados Unidos ou no Brasil.

A série possui 8 episódios e estreia no dia 3 junho nos Estados Unidos. Vamos esperar para que ela venha para cá também!