A categoria é: representação LGBT. E “Pose” merece a nota 10

A categoria é: representação LGBT. E “Pose” merece a nota 10

“Pose”, que estreou em junho deste ano, é mais uma criação de Ryan Murphy, a cabeça por trás de sucessos como “Glee”, “American Horror Story” e “Feud”. Em sua mais nova empreitada televisiva, o roteirista/diretor/produtor investiu em uma história contada sob uma perspectiva de uma população ainda muito marginalizada e com pouca representação na mídia: as mulheres trans. Vale dizer: a obra possui o maior número de artistas LGBT da televisão.

A série se passa na cidade de Nova York da década de 80 e faz um retrato da cultura LGBT da época, uma que, provavelmente, é pouco conhecida pelo público brasileiro, mas que teve uma enorme participação na construção da carreira da rainha do pop, Madonna, por exemplo. Trata-se dos ballroomseventos nos quais a comunidade LGBT, especialmente negros e latinos, podiam se expressar livremente. Nesses espaços, competiam por troféus em categorias de desfile e dança, geralmente em grupos chamados ‘casas’, formadas por pessoas muito próximas – as famílias adotivas -, e comandadas pelas ‘mães’. Dessa maneira, os ballrooms serviam não apenas para marcar a presença dessa população, como também faziam uma crítica à exclusão social da mesma. Vale destacar que a epidemia da AIDS teve início da década de 80, uma doença que por muito tempo foi muito associada à comunidade LGBT, o que serve de pano de fundo para algumas histórias no seriado de Ryan Murphy.

É em cima desses temas que “Pose” se estrutura, colocando duas mulheres trans como principais protagonistas da atração: Elektra Abundance (Dominique Jackson) e Blanca Rodriguez (Mj Rodriguez). A primeira é a mãe da casa Abundance e a segunda é uma de suas ‘filhas’, a qual é diagnosticada com o vírus do HIV logo no primeiro episódio. Blanca é uma mulher de sonhos e decide deixar a casa para formar a sua própria, numa tentativa de ajudar jovens LGBT que estão na rua, assim como ela já esteve. Essa não é uma escolha fácil, já que Elektra se sente traída por ela e, em vez de dar à moça sua benção, a expulsa da casa Abundance. Temos aí o primeiro e principal conflito da série, pois ao longo da primeira temporada, acompanhamos as duas personagens dando tudo o que têm nas disputas por troféus e status nos bailes.

Mas essa não é a única narrativa interessante em “Pose”: além dela, a produção apresenta a história de Damon (Ryan Jamaal Swain), um menino negro e gay que é expulso de casa dos pais. O jovem de 17 anos tem muito talento para dança, algo que é logo reconhecido por Blanca, que ‘adota’ Damon e o convida para fazer parte de sua casa. O arco dos personagens é um dos mais bonitos, pois traz Blanca aprendendo a ser mãe (com todas as coisas boas e desafios que vêm com a maternidade), ao mesmo tempo em que acompanhamos o desenvolvimento de Damon, que consegue uma bolsa de estudos em uma escola de dança e ainda tem seu primeiro namorado, com quem tem suas primeiras experiências afetivas e sexuais.

Outra personagem que se destaca é Angel (Indya Moore), outra filha de Blanca, que trabalha como prostituta nas ruas, e que conquista o coração de Stan Bowes (Evan Peters), um cara casado e que está começando sua carreira em Wall Street. Essa narrativa explora questões que envolvem o relacionamento entre uma pessoa trans e cis, como a vergonha de Stan em reconhecer seu sentimento por Angel, já que ele a quer de verdade, mas a esconde dos olhares de todos. Enquanto isso, a moça sofre pelo homem que não a assume, mesmo dando todos os indicativos de que gosta muito dela.

As personagens em “Pose” são muito bem trabalhadas e apresentam qualidades e defeitos como qualquer pessoa. Nesse sentido, o seriado faz um ótimo serviço na representação LGBT na mídia, ajudando a humanizar as identidades que compõe a comunidade do arco-íris, além de dar o protagonismo a mulheres trans e a atores e atrizes negros, os quais ainda possuem pouco espaço na televisão. A boa representação LGBT se deve, também, ao trabalho de artistas LGBT que trabalham atrás das câmeras: Janet Mock, por exemplo, é jornalista e ativista trans, e foi convidada por Ryan Murphy a supervisionar a obra, sendo também uma das roteiristas e diretoras da série. 

Além disso, toda a ambientação, figurinos, cabelos e maquiagem estão impecáveis, e fazem uma ótima representação da década de 80 (e é capaz até de criar um saudosismo em quem viveu a época ou em quem cresceu assistindo aos filmes da “Sessão da Tarde” na Rede Globo). A trilha sonora é outro ponto positivo, apresentando grandes nomes da música pop, como Whitney Houston e Janet Jackson, verdadeiras divas e inspirações para a comunidade gay. E tanto o roteiro quanto a direção estão afiados e trabalham bem juntos, amarrando os arcos dos personagens, e abordando questões ainda atuais e que merecem visibilidade.

“Pose” tem qualidade de sobra e é já tem uma segunda temporada garantida. Aos interessados, o seriado pode ser assistido pelo canal pago Fox Premium ou pelo app Fox Play.