Porta-retrato

Porta-retrato

Por meio das frestas que a persiana criava, uma luz fina entrava e cobria meu corpo. O amanhecer, sem pedir permissão, invadiu meu quarto. Eu não sabia aonde estavam meus gatos, nem mesmo minha coragem. Precisava alimentá-los. Desde que a tua bagagem atravessou minha porta, sete dias e doze noites se passaram. Perdi a noção do tempo, quando dei por mim o calendário não seguia a ordem correta dos dias e o relógio já havia parado. Eu que nunca gostei de ponteiros, pude sentir o tempo se esgotar. A luz que invadia meu quarto, escrevia em letras garrafais sobre a parede. Eu não podia mais fugir, era hora de levantar.

Inclinei meu corpo e num movimento leve e devagar coloquei meus pés no chão. Era gelado, frio. Nove passos até a mesa. Observei você fazer aquele trajeto todas as manhãs, era quase um ritual, uma dança. Eu era viciada em te ver crua. De nua você se vestia bem. Duas canecas brancas, dois goles doces. Naquele momento eu sabia que os minutos eram nossos, de mais ninguém. Acordei novamente. Um gosto estranho e sem açúcar. Depois de tanto tempo parado, nem o melhor dos chás permanece quente. Era estranho te imaginar e ao mesmo tempo conviver com aquele vazio. Pela primeira vez, o meu sorriso tinha um gosto amargo, literalmente.

O sofá mais parecia nossas malas desfeitas no meio de uma das nossas viagens. Por mais bagunçado que estivesse, eu sentia que tinha vida ali. Alguém tinha feito aquela bagunça. Em mim. Mogli, deu um pulo manso e cruzou o encosto do sofá, de ponta a ponta. Se aninhou perto do meu pescoço, como quem diz, só há eu e você aqui, acalme-se e me dê comida. Molduras vazias ocupavam as paredes agora. Abri as cortinas e pude ver um cinza cobrir a cidade. Do alto do nosso apartamento era possível avistar as nuvens do avesso. Eu sempre acreditei que era você quem me causava aquela sensação meteorológica. Percebi que não, quando meio sem lógica, eu estava chovendo por dentro.

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