Por que não ‘bela, recatada e do lar’?

21. abril 2016 Estilo 1
Por que não ‘bela, recatada e do lar’?

Nesta semana, a Veja, revista de maior circulação nacional, fez um perfil de Marcela Temer, nossa quase primeira-dama, esposa do vice-presidente do Brasil, Michel Temer. Para descrevê-la, o semanário utilizou a frase “bela, recatada e do ‘lar'” logo no título, vendendo uma ideia de que esse deveria ser o ideal de mulher a ser seguido: bonita, que usa ‘vestidos na altura do joelho’ e que fica em casa cuidando dos filhos e do marido.

A internet, então, respondeu à publicação da maneira que melhor sabe fazer: com memes. Com a legenda ‘bela, recatada e do lar’, as mulheres publicaram as mais variadas imagens, nas mais variadas posições e situações, para mostrar que não existe um modelo ‘certo’ do que é ser mulher, mas que todas precisam ser respeitadas.

E para ficar claro: o meme criado não foi um ataque contra a Marcela. Não há problema algum em ser bela, recatada e escolher uma vida tradicional, cuidando da casa, dos filhos e do marido. Se assim deseja e é possível para ela e qualquer mulher, vá em frente e seja feliz. O problema é exaltar e vender essa imagem como se fosse a única digna de apreço. Como se mulheres feito a presidenta Dilma Rousseff (não estou falando de suas políticas, vale acrescentar), que não se curvam a padrões de beleza e expectativas sociais do que deveria ser ‘lugar de mulher’, não devessem ser celebradas.

“A frase ‘bela, recatada e do lar’ para definir Marcela Temer incomodou tanto porque ela reitera a ideia de que ‘por trás de um grande homem tem uma grande mulher'”, explica a advogada Thaís Campolina. “O machismo define que a esfera pública é um espaço masculino e o ambiente privado feminino e toda essa exaltação desse estereótipo diz o mesmo. Mulheres nos bastidores, homens à frente. Quando colocam isso como o ideal, como uma coisa de gente sortuda, a mulher que difere disso é diminuída.”

Thaís acrescenta ainda que o termo ‘recatada’, escolhido pela Veja, “não se refere à discrição como parte da personalidade de alguém e sim ao ideal machista de ‘mulher decente’: aquela quieta, obediente, a que aceita seu lugar.”

Soa como se estivéssemos na década de 50, mas a verdade é que essa idealização sobre o papel da mulher permanece vivo até hoje, mesmo em um tempo em que a maioria delas trabalha fora e muitas são responsáveis pelo sustento da casa. E some a isso a obrigação do cuidado dos filhos e do casamento.

“[Também] Cobram de nós que nossa aparência esteja de acordo com o padrão de beleza o tempo todo e a cobrança do recato vive em cada ‘menina, senta igual mocinha’ que ouvimos na infância e que se transforma em ‘mas com essa roupa, você queria o quê?'”, conta Thaís. “Por isso tantas mulheres reagiram à publicação, dizendo através de fotos próprias ou de personagens e mulheres icônicas ‘somos diferentes entre si e diferentes desse estereótipo que nos empurram’.”

Considerando o artigo da Veja um deboche ou não, certo é que mulher alguma ganha com esse tipo de publicação. Devíamos celebrar a pluralidade das mulheres e incentivá-las a conquistar mais espaços, inclusive na política brasileira, cuja participação é de apenas 9,9% na Câmara e de 13% no Senado.

Sei que vou cair no clichê, mas: Veja, melhore!