Por que Matt Damon está em um filme sobre a Muralha da China?

02. agosto 2016 Cinema 1
Por que Matt Damon está em um filme sobre a Muralha da China?

No mais novo episódio de apagamento de asiáticos em Hollywood temos “A Grande Muralha”, estrelado por Matt Damon, e que contará a história de um mistério envolvendo um monstro e o famoso monumento chinês, considerado uma das maravilhas das 7 maravilhas do mundo.

O apagamento de pessoas de não-brancas é um filme antigo e muito reprisado pela indústria cinematográfica, embora assuma diferentes identidades de tempos em tempos. Contudo, parece que os asiáticos são a bola da vez, como podemos perceber com as escalações de Tilda Swinton em “Doutor Estranho”, Scarlett Johansson em “Ghost In The Shell” e Finn Jones em “Punho de Ferro”. E, agora, Matt Damon em “A Grande Muralha”.

Lançado na semana passada, a primeira prévia do longa recebeu uma boa quantidade de críticas, especialmente por colocar mais um homem branco como salvador da humanidade, como as primeiras imagens da obra dão a entender. Muitos utilizaram uma frase do trailer (“do que eles estavam tentando se proteger?”) para apontar o racismo na produção.

Tradução: “Do que eles estavam tentando se proteger? Aparentemente, de chineses?”

Constance Wu (“Fresh Off The Boat”), atriz americana de ascendência taiwanesa, fez questão de chamar a atenção para o fato de que a escolha de Matt Damon para o papel principal foi uma escolha ofensiva.

“Precisamos parar de perpetuar o mito racista de que [somente um] homem branco pode salvar o mundo. Nossos heróis não se parecem com Matt Damon. Eles se parecem com Malala. Gandhi. Mandela. Sua irmã mais velha que te defendeu dos valentões aquela vez”, escreveu a artista em seu Twitter. “O dinheiro é a pior desculpa na história do ser humano. Assim como culpar os investidores chineses. Lembrem-se: não é sobre culpar indivíduos […].

Ao contrário, é apontar a noção racista usada repetidamente de que as pessoas brancas são superiores às pessoas de cor e que pessoas de cor precisam ser salvas de nossa própria cor através da força branca” disse a atriz. “Nós não precisamos de salvação. Nós gostamos da nossa cor, das nossas forças e histórias. (se não gostamos, deveríamos) Não precisamos ser salvos de nada. E estamos começando a ficar cansados de vocês nos dizendo, explicita ou implicitamente, de que nós precisamos”.

Eis como a lógica do dinheiro pode explicar a escolha de Matt Damon para o papel principal: Hollywood, assim como qualquer outra indústria, visa o lucro. E para garantir que suas produções garantam um bom retorno de investimento, os estúdios apostam em grandes nomes do cinema para estrelar suas obras. E, em geral, esses artistas são homens brancos.

“A Grande Muralha” teve o maior orçamento para um filme chinês, US$ 150 milhões, além de ter sido todo filmado no país, que atualmente é o segundo maior mercado de cinema do mundo. Ou seja, para obter um ótimo retorno financeiro, a decisão por Matt Damon fica clara, principalmente após o enorme sucesso que “Perdido em Marte” teve na China no ano passado. No mais, o ator já é uma figura conhecida no mundo todo, o que talvez garanta um bom desempenho da obra nos Estados Unidos e no mundo (oportunidade perdida de lançar a carreira de um ator chinês ou de tal ascendência).

“Primeiro de tudo, esse é o um filme de língua inglesa e um blockbuster de Hollywood. Isso estava bem claro na fase de roteiro”, explicou o diretor da produção, o chinês Zhang Yimou. “Esse é um filme de monstro de Hollywood e precisa ser feito nesse estilo. Eu não quero mudar a abordagem e nem é preciso. O que eu quero mesmo é trazer as cores e cultura chinesas para uma audiência mundial através de uma linguagem de um filme que elas estão acostumadas”.

Mas aqui vai um contraponto: um estudo deste ano mostrou que filmes com elencos mais diversos tendem a ir melhor nas bilheterias mundiais. Além disso, vivemos em uma época em que a diversidade é cada vez mais cobrada nos filmes e séries que assistimos, basta lembrar das críticas que o Oscar recebeu ao indicar apenas artistas brancos nas categorias de atuação e nenhuma diretora na edição deste ano. Ou ainda, os protestos que Hollywood tem recebido das próprias pessoas que trabalham na indústria cinematográfica – e fora dela -, que pedem produções que reflitam os Estados Unidos e o mundo.

Claro, “A Grande Muralha” conta com artistas conhecidos na China (Andy Lau, Wang Junkai e Jing Tian), além de seu cineasta. Ainda assim, é frustrante que o personagem central seja mais um homem branco e que provavelmente deve salvar um país inteiro da destruição. Quantas vezes já vimos (e ainda veremos) esse filme? Centenas de vezes.

Além de Damon, também estão no elenco Pedro Pascal e Willem Dafoe. O longa deve chegar aos cinemas brasileiros em 2017.