Por que foi importante que uma mulher dirigisse aquele episódio perturbador de “13 Reasons Why”

Por que foi importante que uma mulher dirigisse aquele episódio perturbador de “13 Reasons Why”

O estupro como recurso narrativo para dar profundidade às histórias de personagens femininas se tornou, infelizmente, muito comum nas produções de Hollywood. Infelizmente porque ele tem sido utilizado de forma irresponsável por roteiristas, que deixam de trabalhar as consequências daquela violência na vida da mulher. O estupro serve apenas como fator motivador e ponto.

No final do ano passado, alguns roteiristas de televisão prometeram banir agressões sexuais de suas produções, a fim de frear a naturalização desse tipo abuso. E isso não é para dizer que ele não pode ser trabalhado em obras de ficção, mas é necessário fazê-lo levando em conta sua complexidade e como aquilo vai afetar a vida daquela personagem feminina.

Em “13 Reasons Why”, série da Netflix que narra os acontecimentos que levam ao suicídio da estudante Hannah Baker (Katherine Langford), temos duas cenas de estupro: um envolvendo a protagonista e outro envolvendo uma de suas amigas, Jessica (Alisha Boe). As duas são violentadas pelo mesmo rapaz, Bryce (Justin Prentice), mas em ambas as cenas, os eventos traumáticos são vistos pelas perspectivas das vítimas, e não do agressor. 

“Você precisa ficar desconfortável ao assistir. Do contrário, você não estará na mente dela. É desrespeitoso, de alguma maneira, se disséssemos que essas coisas estão acontecendo, mas que não queremos ficar desconfortáveis com elas”, disse o autor do livro que deu origem ao seriado, Jay Asher, ao Buzzfeed.

Para lidar com esse tipo de conteúdo de maneira apropriada, “13 Reasons Why” optou por uma mulher na direção do episódio em que Hannah é estuprada. Um movimento, que segundo a atriz que dá vida à personagem, Katherine Langford, foi fundamental para uma cuidadosa execução da violência sexual em cena.

“Foi um verdadeiro privilégio trabalhar com a Jessica Yu, particularmente naquele episódio, porque ela trouxe uma abordagem inteligente a ele. Como mulher, ela foi capaz de conversar comigo de uma maneira que, talvez, eu pudesse entender de uma maneira mais profunda ou mais pessoal. Eu me senti cuidada”, afirmou a australiana para a revista Entertainment Weekly. “Eu lembro dela falando sobre como nós íamos filmar e como diferentes ângulos poderiam tornar a cena sexualizada, o que é outro problema: há muito pornô baseado em estupro. E, por isso, filmar aquilo era sobre não fazê-la parecer sexo, mas mais uma ação física”.

Os produtores do seriado também elogiaram o trabalho de Jessica Yu na produção.

“Nós queríamos que uma mulher dirigisse o episódio por algumas razões. Queríamos que a Katherine se sentisse muito confortável com o que ela tinha de fazer e achamos que ajudaria ter uma mulher a guiando”, contou o produtor Brian Yorkey. “Também queríamos uma mulher, porque boa parte da atração é Hannah sendo vista pelo olhar masculino. Era muito importante, para nós, que a Hannah fosse liderada por uma mulher [nesse episódio]”.

Embora o suicídio seja o tema central de “13 Reasons Why”, a série não deixa de lidar com outros temas e como eles estão ligados diretamente à decisão da protagonista de tirar a sua própria vida. A cultura de estupro, exibida de diferentes formas, teve papel fundamental na auto-estima, adoecimento e suicídio de Hannah, que ficou cansada do assédio constante de seus colegas e da falta de ação da direção do colégio onde estudava.

Tudo é narrado pela própria personagem, forçando-nos a enxergar os fatos por sua perspectiva. A realidade Hannah pode ser apenas ficção, mas ressoa com as experiências de muitas mulheres da vida real. E isso precisa mudar urgentemente.


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