Por que assistir a “Aquarius” se tornou um ato político

06. setembro 2016 Cinema 0
Por que assistir a “Aquarius” se tornou um ato político

Ir ao cinema assistir “Aquarius” parece ter se tornado um ato contra o retrocesso que permeia a atual política brasileira. Isso desde que o elenco e equipe do filme, em sua passagem pelo tapete vermelho do Festival de Cannes, chamou a atenção para o momento político do país, com cartazes que denunciavam um golpe. De lá para cá, a produção dirigida pelo pernambucano Kleber Mendonça Filho (“O Som Ao Redor”) se viu rodeada de polêmicas.

O Ministério da Cultura chegou inicialmente a classificar o filme para maiores de 18 anos, o que foi interpretado como um contra-ataque à expressa oposição da equipe ao então governo interino de Michel Temer. Membros da comissão que seleciona o representante do Brasil no Oscar eram expressamente contrários a indicação de “Aquarius” – o que levou outras produções que disputavam a vaga, como “Boi Neon” e “Mãe Só Há Uma”, a se retirarem da seleção em apoio ao filme.

Por fim, “Aquarius” se tornou, mesmo antes da estreia nos cinemas brasileiros, um símbolo de resistência.

Protesto da equipe de “Aquarius” no tapete vermelho em Cannes

Não por acaso, resistir é o tema central do filme. Apesar de não ser o que se costuma chamar de um filme político, “Aquarius” traz consigo a imagem do Brasil de hoje. Estão lá, escancarados ou nas sutilezas narrativas, todos os conflitos da nossa sociedade, as tensões entre o arcaico e o moderno, suas contradições.

Não houvesse a polêmica toda em torno do filme, ele ainda assim poderia ser visto como retrato crítico das nossas frágeis estruturas sociais e políticas. O que veio depois, e que é externo a ele – do protesto em Cannes aos aplausos e gritos de “Fora Temer” no final das sessões no fim de semana de estreia nas salas do país -, serve para legitimar esse posicionamento que já está no filme.

A verdade é que “Aquarius” se bastaria simplesmente por ter Sonia Braga, essa grande atriz do nosso cinema, e sua interpretação forte e delicada, uma presença que preenche todo o filme. Sua personagem, Clara, traz consigo todos os sentimentos do mundo, e ao mesmo tempo é quase como se nunca chegássemos perto demais para a conhecermos de verdade.

O filme todo trabalha com essa sensação, entre o distanciamento de quem espia a vida cotidiana através do buraco de uma fechadura, e o profundo mergulho na alma das personagens, em suas histórias que se misturam às histórias dos objetos, dos móveis, dos lugares onde vivem.

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Mas não se engane. “Aquarius” não se resume a uma ode ao passado e à nostalgia. A resistência de Clara em vender seu apartamento, o único ainda ocupado no edifício Aquarius, para uma construtora que pretende demolir o antigo prédio, é a resistência da vida e da memória, hoje é tão facilmente (e muitas vezes brutalmente) substituídas pela ilusão do novo.

Nesse sentido, a personagem do jovem engenheiro responsável pela obra do novo prédio é o antagonista perfeito. O ator que o interpreta, o ótimo Humberto Carrão, assim como o restante do notável elenco, não passa batido.

Como também a direção de Kleber Mendonça Filho, que chama a atenção pelos detalhes, os cortes, a excelente decupagem, os recursos narrativos tão bem utilizados, ao mesmo tempo em que faz o papel de espectador, deixando que as ações se instaurem em seu próprio tempo. Tudo em “Aquarius” está vivo, e existe em uma urgência, um assombro. O perigo ronda a personagem, mas nunca está onde se espera. Há uma trilha de suspense permeando os momentos cotidianos.

“Aquarius” confirma – como se ainda fosse necessário – a força do novo cinema pernambucano. Mais uma prova da relevância técnica e estética das produções artísticas fora do eixo Rio-São Paulo. Outra grande razão para assistir ao filme.

Motivos para ir ao cinema não faltam. O Aquarius é um país inteiro (talvez um mundo todo) dentro de um edifício. Dentro de um filme. O que são os filmes se não pequenos infinitos organizados do caos?