Por que as paradas musicais estão sendo todas dominadas por homens ultimamente?

25. julho 2017 POP 0
Por que as paradas musicais estão sendo todas dominadas por homens ultimamente?

Já passamos de mais da metade de 2017, e todos podemos concordar que ele é uma continuação que ninguém queria de 2016. E se já está complicado o bastante para a gente, no mundo da música, artistas femininas também estão lutando para fazer sucesso. Talvez você tenha reparado, as paradas estão sendo todas dominadas por homens.

No ranking global do Spotify, há apenas uma mulher no Top 10 da semana: Selena Gomez, com seu mais novo single “Fetish”, o qual ocupa a 10ª posição. Depois, outra mulher aparece somente na 17ª posição: Nicki Minaj, com “Swalla”, colaboração que fez com Jason Derulo e Ty Dolla $ign.

No Hot 100 da Billboard, a parada de singles americana, Rihanna está no segundo lugar. Porém, assim como Nicki, em uma canção que não é sua, mas de DJ Khaled (“Wild Thoughts”). Halsey é a segunda mulher mais bem colocada no chart, apesar de não estar entre as 10 músicas mais populares: “Now or Never”, que faz parte de seu mais recente disco, está na 17ª posição. Entre os álbuns mais vendidos, o trio de irmãs HAIM são as únicas mulheres a ter um disco no top 10: “Something To Tell You” está no 7º lugar.

Aliás, ainda sobre a Hot 100, Rihanna foi a responsável por acabar com um período de 12 semanas sem uma artista feminina no top 5 da Billboard. Isso não acontecia desde 1982, quando nenhuma mulher esteve no ranking por 14 semanas consecutivas. Ainda que “Wild Thoughts” seja apenas um featuring de Riri, ela conseguiu fazer algo que havia sido feito pela última vez por Taylor Swift, quando chegou à 3ª posição, em abril, com “I Don’t Wanna Live Forever”.

Esses dados fazem apenas um recorte do cenário musical da última semana, mas a verdade é que as mulheres não conquistaram muito espaço em 2017 até agora. Apenas quatro mulheres conquistaram o topo de singles mais vendidos no iTunes americano: Selena Gomez (“Fetish”), Nicki Minaj (“No Frauds”), Lady Gaga (“The Cure”) e Miley Cyrus (“Malibu”).

Pior ainda: nenhuma mulher aparece na lista dos álbuns mais vendidos dos seis primeiros meses do ano. Contando vendas físicas e digitais de álbuns e streamings, Kendrick Lamar, Ed Sheeran, Drake, Bruno Mars, o trio de hip-hop Migos, The Weeknd, o rapper Future, The Chainsmokers e Post Malone foram os artistas que mais faturaram até agora [nesse top 10, a sétima posição é ocupada pela trilha sonora da animação “Moana”].

A situação também é ruim no ranking de singles mais vendidos. Julia Michaels e Taylor Swift são as únicas mulheres na lista, figurando, respectivamente, em 5º e 9º lugar, com as músicas “I Don’t Wanna Live Forever” (um dueto de Taylor com Zayn, vale ressaltar) e “Issues”. Já nas listas de vídeos e músicas mais escutadas por streamings, nenhuma mulher aparece. 

Os dados apresentados são da Nielsen Soundscan, que faz o levantamento de vendas de músicas nos Estados Unidos e Canadá. Mas o que tem acontecido para que as mulheres estejam fora das paradas? É difícil achar apenas uma resposta, mas é possível encontrar algumas causas.

Além dos resultados das vendas de álbuns nos Estados Unidos, a Nielsen verificou que o streaming se fortaleceu como uma forma das pessoas ouvirem seus artistas preferidos. E nas plataformas de streaming, os gêneros musicais mais escutados são o EDM e o hip-hop, que são estilos historicamente dominados por homens. Isso explica, por exemplo, porque o hip-hop se tornou o gênero mais escutado dos EUA pela primeira vez em mais de duas décadas. Ou porque há tantos rappers nas listas de canções mais escutadas por streaming.

Mas apenas isso não justifica a ausência feminina nos charts. Alguém pode argumentar que grandes cantoras pop não estão promovendo músicas novas, como Beyoncé, Taylor Swift, Rihanna ou Ariana Grande. Porém, essa conta não fecha, pois, como lembrou a própria Billboard, 2017 teve grandes lançamentos, como Katy Perry, que já teve nada menos do que 9 singles no topo das paradas.

Com seu atual álbum, o não muito elogiado “Witness”, ela conseguiu ter o maior lançamento feminino desde “Joanne”, disco de Lady Gaga, lançado no ano passado. Porém, em comparação com seu trabalho anterior, “Prism”, as vendas foram bem menores: 180 mil cópias vendidas na primeira semana, contra 286 mil cópias vendidas na primeira semana do álbum que teve dois singles a chegar a #1: “Roar” e “Dark Horse”.

Até agora, os singles escolhidos pela California gurl escorregaram nos charts. “Chained to the Rhythm”, lançado em fevereiro, estreou na 4ª posição, mas foi em queda livre nas semanas seguintes. “Bon Appétit” e “Swish Swish” nem mesmo chegaram a entrar no top 40. 

Halsey também apresentou um novo trabalho em 2017. Uma semana antes de Katy Perry, ela lançou “Hopeless Fountain Kingdom”, que também estreou no topo das paradas, mas vendendo um pouco menos que seu antecessor, o que mostra que a cantora não conseguiu expandir sua base de fãs, apenas reteve os que já tinha. 

Lorde foi outra artista feminina que chegou ao primeiro lugar na lista de álbuns mais vendidos. E ela realizou tal feito com o elogiado “Melodrama”, mas também não conseguiu fazer com que “Green Light” fosse o hit que muitos esperavam que fosse.

Portanto, de novo, o que estaria acontecendo? Além de um aumento de streamings (cujos gêneros hip-hop são os mais escutados), outra resposta possível para essa exclusão de mulheres nos charts também pode estar no machismo.

Diferente dos artistas masculinos, os quais podem adotar comportamentos problemáticos e ainda continuar fazendo sucesso (a exemplo de Justin Bieber, que está no topo da lista de singles com o remix de “Despacito”, ou o duo The Chainsmokers), as artistas femininas não têm a mesma “liberdade” ou “permissão” para errar e ver suas carreiras saírem ilesas. Indo além, até mesmo para começar suas carreiras, elas enfrentam mais obstáculos do que os homens.

É isso o que sugere uma reportagem recente do jornal inglês The Guardian, o qual cita o nome de novas cantoras femininas, como Dua Lipa, Zara Larsson, Bebe Rexha, Noah Cyrus e outras, que embora tenham uma boa quantidade de fãs nas redes sociais e uma boa “presença no mainstream”, ainda enfrentam dificuldade para fazer suas músicas se tornarem verdadeiros fenômenos pop.

Para tal, muitas acabam adotando diversas referências em seus álbuns: um pouco de R&B, de EDM, de pop e de hip-hop, ao mesmo tempo em que seus colegas homens podem trabalhar com apenas um gênero musical. A publicação ainda continua:

“Não é só na música que cantoras do pop precisam estar em todos os campos. Agora, é crucial que as artistas apresentem um número diferente de mentalidades: elas devem ser socialmente conscientes em entrevistas, professoras de música em conversas com a imprensa, e urbanas e vanguardistas para as revistas de moda”.

Ainda assim, nem mesmo toda essa cobrança faz com que elas atinjam o sucesso. Pegue uma veterana do pop, como Katy Perry, que anunciou que faria um “pop com propósito” em sua nova era. “Chained to the Rhythm” possui um teor político, mas que não ressoou com o grande público. Não só isso, a voz de “Part of Me” ainda buscou demonstrar que está mais consciente, admitindo que errou no passado com apropriação cultural. Mas nem isso a fez voltar para as paradas.

Ou, pegue Selena Gomez, que lançou dois novos singles: “Bad Liar” e “Fetish”. Embora ambos tenham sido elogiados, os dois falharam em chegar ao top 10. E isso vindo de uma cantora que vem se abrindo sobre seus problemas pessoais com o público, e que lançou um seriado que abre uma conversa sobre depressão e suicídio. 

Nem mesmo Lady Gaga, referência para a comunidade LGBT e um ícone fashion, tem conseguido fazer sucesso. Se está difícil para esses grandes nomes da música pop, é ainda mais complicado para artistas emergentes construírem suas marcas. Chlöe Howl, que era vista como uma promessa em 2014, sumiu do mapa e está ensaiando um retorno ao cenário musical agora. Ela surgiu junto de outros nomes masculinos, como Sam Smith e Tom Odell, mas não teve a mesma oportunidade ou espaço para crescer.

“Frequentemente, espera-se que as meninas tenham o pacote completo muito antes dos garotos”, reclamou Chlöe ao Guardian. “Eu vejo os caras saírem de jeans e camisetas, parecendo um pouco desleixados e esquisitos, e as pessoas os adoram. Mas quando você é mulher, espera-se que você seja educada muito rápido. É desanimador”.

No mais, também é possível que as rádios não estejam acompanhando a evolução da música pop, e as cantoras e suas equipes não estejam sabendo vender essas novas eras de maneira apropriada (de novo, Katy Perry e seu “pop com propósito”).

Ou seja, há uma confluência de fatores para que artistas femininas estejam com pouco espaço no cenário atual. Tomara que seja apenas uma questão de tempo para que as mulheres voltem a reinar, pois elas estarem no topo é música para os nossos ouvidos.


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